Por
Manuela Fonseca*
A miúda ainda está no Secundário; se os pais têm que lhe pagar as propinas (num dia, “o outro” diz que sim, logo a seguir, fala ao contrário), vai-se o meu Curso antes de terminá-lo. Fiz bem o Primeiro Ciclo e estou a gostar do Segundo. Mas, já o outro o dizia, “não há omeletas sem ovos” e, sem dinheiro…
Parece-me que a onda de loucura que atravessa Portugal, para além de económica, financeira, social, é também moral, pelo menos em relação aos que deviam preocupar-se com a população e dar-lhe exemplos de seriedade, de manutenção da palavra. Bem oiço, nos transportes, a caminho do Instituto: as pessoas estão atarantadas, desesperadas, amedrontadas. No outro dia, até fiquei indisposto – um velhote quase chorava a recordar Abril:
– O que estes malandros, aos poucos, fizeram do 25! Uma cambada de gaiatos nas acções foi dando machadadas nas Liberdades e Direitos até chegarmos aqui; tenho o neto em França; não arranjava trabalho e lá abalou. Nem sei o que está a fazer agora. Desapareceu parte da luz dos meus olhos, o menino com quem dei voltas e voltas a Lisboa! Os pais e as avós conformam-se mas eu não! E o meu compadre, se ainda estivesse neste Mundo, coitado! A saúde e o dinheiro faltam, já não vejo o miúdo; qualquer dia é o do adeus. Ai, é, sim!
Fez-se silêncio; um homem, talvez da idade do meu pai, viu que havia lugar ao pé daquele idoso desesperado e foi para o lado dele; acalmou-o e falaram em surdina.
Revolto-me porque sempre trabalhei para isenção de propinas – de outra forma não estaria aqui, no Instituto, sonho de infância. De pequeno que via os meus avós na labuta da terra e o carinho com o nascimento e crescimento dos animais, os meus pais, nos fins-de-semana, a ajudá-los. Pensei sempre na Engenharia Zootécnica porque aprendi, na prática, os segredos do campo e o gosto em lidar com os animais – tracei este caminho há bastantes anos, embora seja novo; está perto do fim, se calhar mais do que penso.
Se, aos gastos tão grandes com o material escolar, os transportes e a alimentação da Isabel tivermos, ainda, que dar dinheiro para ela estudar, ao arrepio da Constituição, espécie de trapo que estes indivíduos sem qualificação espezinham em cada dia, não poderei concluir a Dissertação e agarro-me às habilitações da licenciatura para ir à vida, talvez em África. Nunca deixei a família; como vou para lá sozinho? Ora: fico uma bela rapariga de lá.
Estudei que me fartei para ter boas notas e conseguir que os meus pais não fossem muito sobrecarregados quando aqui chegasse e temos, tido, todos, o prémio disso. Vejo agora como as coisas se tornam cada vez mais difíceis, como pioram em cada mês. Em cada mês?! Em cada dia, em cada hora!
Uns bem-instalados, com fatos e gravatas horríveis (que falta de gosto têm, coitados!), numas cadeiras pagas por nós, dão sentenças acerca do que não sabem, ignorantes, nem sentem – espécie de pedras com olhos; que fartação!
Fora com esta gente para Portugal ser viável! Fim do Curso antes da meta? Isso quer este grupo de malfeitores para os filhos do povo, não é? Lá fora, ao lado da “outra”, então, para prejudicar o pessoal, só doçura e pés de lã, que o Inverno está frio! Quando a “madame” abre os olhos, nem sabem para onde ir os medrosos; que cobardes! E lá voltam, cheios de arrogância e mentiras, para nos ameaçar com o caos!
Pois vou despachar o Projecto para que cresça e eu também; depois, ajudo a “Bel” e os pais, que tanto têm feito por nós.
Fora com os pensamentos negativos! Propinas antes do Ensino Superior? Não quererão, também, que os pais paguem quando lhes nascem as crianças?
Ora esta: os dos palpites tortos contra o País que se vão embora; fazem cá tanta falta como o Salazar!”
(Páginas 200, 201 das Reflexões de João Garrido, estudante português do Ensino Superior.)
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* Professora aposentada, suplente da direcção sindical do SPGL, membro da Universidade da Terceira Idade do Barreiro – UTIB –
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