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Este blog já lembrou Sabra e Chatila aqui. A recente agressão perpetrada por Israel em Gaza faz-me voltar a este triste acontecimento precisamente no mês em que teve lugar o massacre há 32 anos : Setembro de 1982. Sabra e Chatila (subúrbio de Beirute) não é diferente de Deir Yassine (1948, perto de Jerusalém), Jenine (2002, norte da Cisjordânia) ou Shejayah (2014, subúrbio de Gaza cidade), todos eles relevam de uma vontade de vergar uma população, a palestiniana. O massacre que teve lugar em Deir Yassine ficará conhecido como o inicio do exílio palestiniano, cujo espectro de terror e matança deixado pelo caminho levou ao exílio dos sobreviventes. Deir Yassin é assim um dos momentos fundadores daquilo que é a Nakba (« catástrofe ») para os palestinianos e da criação do Estado de Israel para os sionistas. Ilan Pappé no seu combate intelectual para o estabelecimento dos factos de 1948 tem mostrado no seu trabalho como os responsáveis do massacre de Deir Yassin justificaram as atrocidades cometidas pela necessidade de seguir o plano Daleth. Não será difícil chegar à fonte primeira deste plano, mas chega uma breve procura na Wikipédia para se compreender no que consistia o programa implementado pelas forças sionistas. O plano Daleth assenta na lógica de destruição de todas as « bases inimigas » julgadas estratégicas e, concomitantemente, que a destruição dessas bases conduzisse à expulsão dos seus habitantes.
Duas razões levaram-me a começar este texto por Deir Yassin, uma primeira que diz respeito à Nakba e uma segunda que diz respeito a uma regularidade estratégico-militar utilizada por Israel. O êxodo, exílio, expulsão dos palestinianos em 1948 levou à dispersão dos palestinianos por diversos cantos, os menos abastados concentraram-se em campos de refugiados, entre os quais os de Sabra e Chatila, Jenine e Shejayah (este ultimo, considerado bairro popular com uma grande densidade populacional). As execráveis condições materiais de existência nas quais estas populações vivem, sejam eles no Líbano, na Cisjordânia ou em Gaza, propiciam aquele sentimento que Israel tenta apagar há 66 anos: o sentimento de se ser palestiniano e o apego à terra onde os antepassados nasceram. Dizer isto significa a implicação de todos os habitantes, com armas ou sem armas, na luta pela libertação da Palestina. Estes campos de refugiados, que ao longo dos anos foram-se literalmente cimentando, são berços de resistência, aquilo a que o plano Daleth chamaria hoje de “bases estratégicas” a destruir. Encontramo-nos, portanto, numa dinâmica de movimento e contra-movimento, na medida em que o movimento sionista fustiga o contra-movimento palestiniano.
A luta pela libertação da Palestina tendo sido exportada para o Líbano torna a dinâmica mais complexa, uma vez que ela mistura outras realidades geográficas, outras realidades étnico-religiosas. O massacre de Sabra e Chatila é consequência disso. Numa excelente tese de doutoramento, a historiadora Jihane Sfeir, mostra como a chegada maciça de palestinianos em 1948 ajudou a forjar a identidade libanesa (contra uma outra estrangeira) numa região onde as fronteiras ainda estavam muito pouco definidas… numa região que ainda era chamada por alguns de grande Síria. No Líbano, ao contrario de outros países de acolhimento como a Síria, os refugiados palestinianos de 1948 e seus descendentes nunca puderam aceder à naturalização libanesa, não podendo exercer por exemplo certas profissões ou adquirir propriedades, seguindo a lógica que estes iriam um dia voltar à Palestina. Na verdade a naturalização desequilibraria o já pouco equilíbrio demográfico existente entre comunidades religiosas no Líbano. Os Palestinianos não puderam naturalizar-se nem puderam de facto regressar à Palestina, mas voltemos a Sabra e Chatila… Foi nestes campos onde a Organização pela libertação da Palestina (OLP) reuniu o essencial da sua direção, entre os quais Arafat. Num país mergulhado numa guerra civil desde 1975 que opunha varias fações comunitárias e políticas, a questão palestiniana e mais particularmente a questão da ocupação israelita da Palestina não era obviamente secundária. É neste cenário que Israel invade o Líbano, em Junho de 1982, e à qual chamou o nome angélico de “operação de paz na Galileia”. E é em seguida neste cenário de invasão que se criaram alianças entre as forças sírias e os palestinianos no exílio, entre as forças israelitas e uma determinada fação dos católicos libaneses. Com o assassinato de Bashir Gemayel, presidente libanês e chefe das milícias falangistas aliadas de Israel, no dia 15 de Setembro de 1982, a situação acelerou rapidamente. Sabra e Chatila são cercados, sem saídas nem entradas, com a argumentação moral da parte de Israel da necessidade de preservar a ordem depois do assassinato do presidente libanês. Conta-se que o exército israelita armou os seus aliados libaneses e enquanto a aviação iluminava os campos, nas 48 horas seguintes, um massacre tem lugar em Sabra e Chatila (entre 700 e 3500 palestinianos são assassinados dependendo das fontes). Alguns dias mais tarde Ariel Sharon admite no Knesset (parlamento) que o exército israelita entrou em Beirute-oeste para acabar com as infraestruturas dos terroristas. Ou seja, o plano Daleth 1948 de erradicação das “bases estratégicas” do “inimigo” continuava na agenda dos sionistas em 1982. A direção da OLP tinha sido no entanto evacuada dias antes do massacre para a Tunísia. O massacre visou assim “pessoas normais sem nada de excepcional”, a não ser a excepcionalidade de serem palestinianos.
Esta é claro uma versão simplificada do acontecimento, mas que avança pistas que refutam a imagem que nos é transmitida pelo filme “A valsa com Bashir”, sobre o qual este blog também já dissertou aqui e aqui. A responsabilidade de Israel na gravidade deste massacre é de tal ordem importante que a beleza do filme aplaudido e premiado por todo o mundo, incluindo em Israel, é insuficiente. Insuficiente porque o filme apresenta o massacre como o fruto de uma parceria entre libaneses falangistas e Israelitas, onde uns e outros são cúmplices, onde a responsabilidade é tão partilhada que se dispersa nas vicissitudes malignas da humanidade. Não, o massacre de Sabra e Chatila não foi uma simples irregularidade histórica, ele tem origem na criação do Estado de Israel e nas ambições territoriais sem limites dos seus consecutivos governos. Não se pode estetizar despolitizando a culpa de Israel no massacre de Sabra e Chatila, porque em Jenine repetiu-se, porque o massacre em Shejayah continua, porque a Nakba não terminou. Citando Daniel Bensaid, “que a nossa língua cole ao céu da boca se esquecermos Jenine”. Quem diz Jenine, diz Sabra e Chatila, Deir Yassine ou Shejayah.
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“Os convidados de esquerda são uma tradição na universidade de verão do PSD (Mário Soares, Correia de Campos e João Proença já passaram por lá), mas desta vez Rui Tavares é “provavelmente a pessoa mais à esquerda que já lá esteve”. Isto segundo o próprio.”
“Os trabalhos arrancam com Marco António Costa e o encerramento será feito por Pedro Passos Coelho.“
Realmente com a esquerda como anda talvez seja melhor tentar ir à direita. Afinal o meio do meio do meio da esquerda reformolucionária fica no psd.
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Olá.
O meu julgamento começa amanhã à tarde no Campus de Justiça e prossegue, pelo menos, nas próximas duas quintas-feiras.
O Ministério Público (MP) acusa-me, com base no testemunho de um polícia que assina o Auto de Notícia, de ter projectado uma cadeira de uma das esplanadas do Chiado sobre uma linha de polícias que na Rua Serpa Pinto protegia a detenção de um manifestante. Não tendo sido identificado durante a manifestação, nem em nenhum outro momento anterior ou posterior, o Auto refere que se fez uso para tal de informações do Núcleo de Informações da PSP, na forma que passo a citar: “trata-se de um indivíduo que é presença habitual neste tipo de manifestações/concentrações, pautando sempre a sua conduta de forma agressiva para com as Forças de Autoridade”. Ainda não é certo se este julgamento servirá para esclarecer a qualidade de polícia política que a PSP parece requerer para si no documento citado.
Passaram agora mais de dois anos sobre os “acontecimentos do Chiado” e a memória dilui-se. Nada que a Internet e os jornais da altura não reponham num instante. Foi dia de greve geral combativa, com várias manifestações a atravessarem o Chiado em direcção a São Bento. Perante a passagem de uma delas a PSP tem a ideia genial de deter um estivador que vinha rebentando petardos ao longo do percurso. É um homem de meia-idade com um pacemaker, cuja detenção provoca o espanto e reacção imediata dos seus amigos e depois a indignação de toda a manifestação. Foi este o momento inicial de um descontrolo policial que varreu, a vários tempos e intensidades, todo o Chiado até ao Largo de Camões com um balanço final de dezenas de feridos entre manifestantes, jornalistas e transeuntes. Nesse dia temos o Ministro da Administração Interna na televisão a explicar-se e dias depois a ser requerido pelo Bloco de Esquerda para uma audiência parlamentar convocada de urgência para o efeito; temos um inquérito aberto pelo IGAI ao comportamento da PSP, preenchido com declarações de várias pessoas agredidas; e temos o MP a agrupar num mega-processo penal cerca de uma dezena de queixas.
De tudo isto nada reza a história. Macedo é ainda Ministro da Administração Interna, os resultados do IGAI são aparentemente nulos e o MP arquiva todos os processos na fase de instrução, por falta de provas, todos à excepção daquele contra mim. A PSP atacou uma manifestação em dia de greve geral, o Ministro da Administração Interna defende-a e responde politicamente no parlamento; as várias queixas apresentadas contra polícias, tanto no penal como junto do IGAI, são arquivadas e esquecidas, sobrando um processo contra uma pessoa que, como milhares de outras desde o último mandato de Sócrates, têm participado e organizado várias manifestações. É disto que fala, em específico, a ideia de que a história é sempre a história dos vencedores.
Junto algumas ligações de Internet.
As audiências serão sempre às 14h, no 5º Juízo Criminal de Lisboa, 1º Secção (edifício “B” do Campus de Justiça, na Expo)
Agradeço divulgação em blogues e fb pois não os tenho. Que a denúncia seja por ora a nossa arma. Se alguém quiser produzir opinião com mais folêgo sobre esse dia/julgamento posso enviar documentação vária do processo, nomeadamente o despacho de acusação e a nossa contestação.
Abraços e beijinhos
Miguel Carmo
Ligações:
https://versaletes.blogspot.pt/2012/03/miguel-macedo-brinca-com-o-fogo_27.html
https://entreasbrumasdamemoria.blogspot.pt/2012/03/carga-policial-de-22-de-marco-mocao-de.html
https://jsgphoto.blogspot.pt/2012/03/22-de-marco.html
https://passapalavra.info/2012/03/54758
https://portugaluncut.blogspot.pt/2012/03/no-chiado-ordem-dos-factores-nao-foi.html
https://portugaluncut.blogspot.pt/2012/03/provocacoes-policiais-versao-uncut-em.html
https://portugaluncut.blogspot.pt/2012/03/um-acto-desproporcional-da-policia.html
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A.C.A.B.
]]>Elogio de la culpa, por Juan Gelman:
¿Hubo que ser “inocente” para tener acceso a la categoría de “víctima de la dictadura militar”?
Mi hijo no lo fue. No fue “inocente”, sí víctima. Marcelo Ariel Gelman tenía 20 años cuando fue secuestrado en su casa por un comando militar, el 24 de agosto de 1976. También fue secuestrada su esposa Claudia, encinta de 7 meses. Los restos de Marcelo fueron hallados a fines de 1989, gracias a la abnegada labor del Equipo Argentino de Antropología Forense. Fue asesinado de un tiro en la nuca disparado a medio metro de distancia. Ahora tiene sepultura y es éste un hecho sumamente importante para un padre huérfano de hijo, como soy, porque el rescate de sus restos fue el rescate de su historia. Brevemente, es la que sigue:
Marcelo tuvo inquietudes políticas desde su niñez. A los 9 años me sorprendía con preguntas turbadoras –y pertinentes– sobre el Che y su consigna de crear varios Vietnam en América latina. Sé por compañeros de escuela de Marcelo que ya en la primaria ejercía la protesta. Le molestaba la injusticia. Molestar es palabra muy suave para lo que sentía: indignación. Sé también que a los 14 años estaba en la Juventud Peronista de la resistencia, poniendo caños contra las transnacionales. Como miles de jóvenes, confió en Perón. Tenía 16, 17 años y se desilusionó profundamente cuando Perón volvió al gobierno y apoyó a la fascista Triple A y calificó de “jóvenes imberbes” a los que habían luchado por su retorno. La desilusión no lo confinó en la pasividad. Se fue de la Juventud Peronista por la izquierda, con la Columna Sabino Navarro. Desilusionado otra vez, merodeó por el ERP, que tampoco lo convenció. Cuando lo secuestraron no tenía militancia partidaria, pero sí la suficiente historia militante como para que la dictadura militar lo considerara un enemigo. Encontraron su dirección en la libreta de anotaciones de una muchacha del ERP.
Estoy orgulloso de la militancia de mi hijo. A veces pienso que algo tuve que ver yo con ella y eso redobla mi orgullo y mi dolor. Mi hijo no era un “inocente”. Le dolían la pobreza, la ignorancia, el sufrimiento ajeno, la estupidez, la explotación de los poderosos, la sumisión de los débiles. Nunca se sintió portador de una misión, pero quiso cambiar el país para que hubiera más justicia. Hizo lo que pudo, callada, humildemente. De todo eso fue “culpable”. ¿Y no fue por eso víctima de la dictadura militar? Repito la pregunta: ¿Hubo que ser “inocente” para tener acceso a categoría de “víctima de la dictadura militar”?
Es verdad que hubo muchas víctimas inocentes de la dictadura militar. Por ejemplo, niños con vida y niños no nacidos todavía. Hombres y mujeres sin militancia alguna que sólo pertenecían a esa secreta intimidad llamada pueblo y que fueron también asesinados. La dictadura militar consideró “culpables” a decenas de periodistas que no pensaban como ella. A centenares de intelectuales que no pensaban como ella. A sacerdotes, abogados y a miles de obreros y estudiantes que no pensaban como ella. A los familiares de personas que no pensaban como ella. Y también a muchos que deseaban cambiar la vida, como pidió Rimbaud, y lo intentaban por distintos caminos.
¿Y por eso no son “inocentes”? Todos ellos, sea que canalizaran su voluntad de cambio por escrito, desde el púlpito, la cátedra, los sindicatos, centros estudiantiles, organizaciones populares, partidos políticos, o por las armas, ¿no son acaso víctimas de la dictadura militar? ¿Fueron encarcelados o fueron secuestrados, torturados y alojados en campos clandestinos de detención? ¿Tuvieron un juicio imparcial o fueron brutalmente asesinados? ¿Se les permitió ejercer su derecho dedefensa o les pegaron un tiro en la nuca desde medio metro de distancia? ¿Se notificó su paradero a los familiares o se los “desapareció”, creando una angustia que para muchos dura todavía? ¿Pudieron ejercer su derecho de pensamiento y expresión o fueron amordazados con la muerte más atroz, la muerte anónima? ¿Por qué no entrarían en la categoría de “víctimas”? ¿Porque querían cambiar la vida? ¿Se piensa acaso que los militares asesinaron inocentes “por error”? ¿Que son locos sueltos y no la expresión más despiadada de los intereses que quieren que la vida siga como está?
Y quienes hoy pretenden que todos los asesinados fueron “inocentes” o que sólo los “inocentes” son defendibles y aun reivindicables: ¿En qué sombrío negocio consigo mismo están? ¿Quieren borrar la historia con un trapo? ¿Piensan que la dictadura era mala cuando mataba inocentes –los “excesos”– pero que hacía bien en matar a los otros? ¿Son las gentes que bajo la dictadura decían “por algo será” cuando alguien, hasta un ser querido, desaparecía? ¿Y ahora otorgan diplomas de inocencia para que ningún asesinado los moleste y puedan “condenar” a la dictadura militar en olor de legalidad?
Esa hipocresía declarada encubre una infamia sin nombre: condona el asesinato de quienes no fueron inocentes y afirma la “inocencia” del hambre, la pobreza, la explotación de millones de seres humanos, su humillación y marginalidad. Da la razón a la dictadura militar y deja amplios espacios para que la infamia persista, victoriosa.
El 14 de octubre se cumplieron 2 años del hallazgo de los restos de Marcelo Gelman que, mezclados con cemento y arena, fueron arrojados al río Luján.

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