Tempos terríveis estes em que o poder das imagens tende a baralhar todos os dados de todas as formas de percepção, por vezes diluindo o real num perverso sonambulismo informativo. Eis um exemplo bem diferente, do New York Times, analisando as terríveis circunstâncias em que Alex Pretti foi morto, em Minneapolis, por elementos da United States Border Patrol — bem diferente da automática acumulação de imagens, eis um jornalismo que se faz, realmente, a partir da metódica análise das imagens e dos elementos informativos que nelas se podem colher.
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sound + vision
Há alguma relação entre as três famílias? Não, mas há uma espécie de pontuação dramática, mais ou menos risonha, através de pormenores que se “repetem” de uma história para outra. Exemplo? Em todas elas alguém possui (ou possuiu) um relógio Rolex que, na primeira história, suscita aos filhos que visitam o pai, uma dúvida sobre a sua autenticidade: parece falso, mas será verdadeiro? E se é verdadeiro, porque é que o pai insiste em dizer que não passa de uma imitação barata? Seja como for, essa dúvida contamina as histórias seguintes, levando-nos a supor que os novos Rolex podem ser falsos...
Música ao vivo

sound + vision
terça-feira, janeiro 27, 2026
John Fogerty na NPR
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| [ johnfogerty.com ] |
Se dissermos que este concerto envolve memórias dos Creedence Clearwater Revival, então faz todo o sentido que a canção de fecho seja Have You Ever Seen the Rain. Dito de outro modo: John Fogerty, 80 anos, continua activo e fiel às suas raízes, agora dm ambiente de terna familiaridade, com os filhos Shane e Tyler Fogerty a integrarem a sua banda — aconteceu há dias, em cenário radiofónico, em mais um Tiny Desk Concert da NPR.
segunda-feira, janeiro 26, 2026
Celebrando as canções de Neil Diamond
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| Kate Hudson e Hugh Jackman: admiráveis! |
Song Sung Blue faz o retrato de uma dupla que se celebrizou interpretando as canções de Neil Diamond: para a alegria dos resultados, são decisivas as interpretações de Hugh Jackman e Kate Hudson — este texto foi publicado no Diário de Notícias (8 janeiro).
Apesar da distorção industrial que o cinema dos EUA tem vivido nas últimas duas décadas — primeiro, com a invasão dos “blockbusters” da Marvel & afins, depois com a brutal concorrência das plataformas de “streaming” —, Hollywood vai gerando filmes que, melhor ou pior, sabem reencontrar e revalorizar os seus valores tradicionais. Assim acontece com Song Sung Blue, uma realização de Craig Brewer, que consegue a proeza de renovar, com discreta elegância e equilíbrio formal, a tradição da “biografia de um cantor”.
Não se trata de um exemplo linear dessa tradição que, em anos recentes, deu origem a títulos como Rocketman (Dexter Fletcher, 2019), sobre Elton John, ou Elvis (Baz Luhrmann, 2022). Em Song Sung Blue, Mike Sardina, a personagem central, é um “cantor-imitador”. Entenda-se: alguém cuja vida profissional, frágil e errática, é feita de breves performances em bares ou feiras a imitar Don Ho, um cantor pop nascido no Hawai muito popular ao longo da década de 1960.
Não estamos, por isso, em sentido estrito, perante um “musical”. Claro que o filme está recheado de canções, mas a matriz narrativa de Song Sung Blue pertence a um território mitológico visceralmente made in USA, centrando-se numa personagem que se transcende porque nunca desiste do seu sonho (americano, como é óbvio). Na companhia de Claire, uma imitadora de Patsy Cline com quem virá a casar-se, Mike muda o seu “paradigma”, fundando a banda Lightning and Thunder e triunfando numa nova especialização. Ou seja: celebrando o cancioneiro de Neil Diamond — será preciso recordar que Song Sung Blue, do álbum Moods (1972), é um tema lendário de Neil Diamond?
Convém não esquecer que Mike e Claire são personagens verídicas (ele falecido em 2006, contava 55 anos; ela actualmente com 64 anos), sendo o filme de Craig Brewer inspirado num documentário de Greg Kohs sobre o casal, também intitulado Song Sung Blue (2008). O certo é que o novo Song Sung Blue evita jogar a cartada da mera duplicação das figuras retratadas, evitando também, o que seria francamente pior, reduzir-se a uma espécie de “filme-concerto” pontuado pela dramatização de algumas situações.
Para que tudo isso resulte, a composição de Mike e Claire por Hugh Jackman e Kate Hudson é absolutamente decisiva. É com eles, e por eles, que perpassam as emoções da saga dos Lightning and Thunder, numa lógica narrativa cuidadosamente controlada. Dito de outro modo: esta não é uma colagem de canções que evocam determinadas personagens, mas sim uma história de gente viva para quem as canções são matéria nuclear dos valores da sua própria existência.
>>> Cena do filme: Hugh Jackman e Kate Hudson cantam Sweet Caroline.
>>> Song Sung Blue, por Neil Diamond.
A IMAGEM: Alex Wong, 2026
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| ALEX WONG Donald Trump na Casa Branca, vendo-se as obras para o novo salão de baile através da janela The Washington Post Janeiro 2026 |
domingo, janeiro 25, 2026
Jim Jarmusch propõe uma nova psicologia
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| Vicky Krieps, Cate Blanchett e Charlotte Rampling: as famílias já não são o que eram |
O cineasta americano Jim Jarmusch está de volta com um filme tão subtil quanto enigmático sobre o mundo plural das relações familiares; chama-se Pai Mãe Irmã Irmão (sem vírgulas) e valeu-lhe o Leão de Ouro do Festival de Veneza — este texto foi publicado no Diário de Notícias (8 janeiro).
Como definir Pai Mãe Irmã Irmão, o filme de Jim Jarmusch que, no passado mês de setembro, foi consagrado com o Leão de Ouro do Festival de Veneza? De tão óbvia, a pergunta parece difícil de satisfazer com uma resposta adequada. Começando pelo mais básico, diremos que se trata, não de uma história, mas de três histórias, cada uma delas no espaço privado de numa família — a primeira centrada no pai, a segunda na mãe, a última num par de irmãos.
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| Jim Jarmusch |
Tanto basta para que acompanhemos as histórias que nos são contadas com uma pequena antologia de acontecimentos que ecoam uns nos outros, justificando alguma generalização temática. Todos os pormenores são significativos, a começar pelo facto de o título original, Father Mother Sister Brother, não colocar qualquer vírgula entre as personagens citadas (o que, felizmente, foi preservado no título português). Assim se sugere que, mesmo não pertencendo a uma única família, aquelas personagens e as suas acções existem ligadas por um labirinto secreto, porventura indecifrável, de factos objectivos e emoções subjectivas.
Evitemos, por isso, o cliché moral do “filme sobre a família”. Todas as telenovelas, com a sua avalanche de estereótipos psicológicos, são “sobre a família”, mas seria grosseiro e, mais do que isso, insultuoso considerar que a filigrana dramática de Jarmusch tem o que quer que seja de “novelesco”. O que ele filma é o sistema de ilusões inerente ao espaço social da família — enfim, das famílias que o seu filme retrata. Porquê ilusões? Porque, mesmo quando as personagens não mentem, dir-se-ia que a estrutura familiar se sustém, paradoxalmente, não através do conhecimento, mas do desconhecimento dos seus membros.
Na primeira história, as personagens de Adam Driver e Mayim Bialik visitam o pai, interpretado por Tom Waits (velho cúmplice de Jarmusch), algo receosos das consequências da sua vida quase monástica numa zona rural dos EUA — mas será que sabem realmente o que acontece nessa vida? No segundo, em Dublin, temos uma nova visita, agora de duas irmãs, Cate Blanchett e Vicky Krieps, a sua mãe, Charlotte Rampling, uma escritora de sucesso — com um misto de humor e amargura, tomam chá como marionetas tristes que, afinal, vivem na mesma cidade. No capítulo final, em Paris, Indya Moore e Luka Sabbat visitam o apartamento dos pais, recentemente falecidos na queda de um avião (nos Açores...), deparando com objectos tão inesperados como uma pequena coleção de bilhetes de identidade falsos.
Realismo e lirismo
Com um lote de actores excepcionais, Jarmusch filma tudo isso com a paciência de quem está a fazer um estudo científico, a meio caminho entre realismo e lirismo, embora sem conclusões práticas nem relatório teórico. Com alguma ironia, talvez se possa dizer que ele persegue os ritmos e as melodias de uma música íntima composta a partir das formas de solidão de cada ser humano.
Assistimos, por isso, ao nascimento de uma nova psicologia familiar cujo fundamento é o desconhecimento com que os filhos acompanham (ou julgam acompanhar) a existência dos pais. Talvez faça sentido dizer que tudo isso está latente em momentos emblemáticos da filmografia de Jarmusch, de Para Além do Paraíso (1984) até Paterson (2016), passando por Broken Flowers – Flores Partidas (2005). O certo é que agora, com a sofisticação de um admirável contador de histórias, Jarmusch aproxima as gerações para expor a verdade dos pais como algo que os filhos nunca saberão — tem a tristeza de um drama redimida pela ternura de uma fábula.
A IMAGEM: Angelina Katsanis, 2026
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| ANGELINA KATSANIS Soldados da United States Immigration and Customs Enforcement (ICE) New York Times, 25 janeiro 2026 [imagem publicada com o artigo de Opinião 'State terror has arrived', de M. Gessen] |
sexta-feira, janeiro 23, 2026
50 anos de Station to Station [3/3]
Experimentador, sempre à frente do seu tempo, David Bowie só foi um visionário porque, paradoxalmente ou não, nunca cortou relações (em boa verdade, intensificou-as) com as referências que o inspiraram, de alguma maneira moldando a sua personalidade artística. Daí o seu reencontro com uma canção como Wild Is the Wind, original de Dimitri Tiomkin/Ned Washington para o filme homónimo de 1957, com Anna Magnani e Anthony Quinn sob a direção de George Cukor; Johnny Mathis era o intérprete, aliás com enorme na sucesso na época, mas talvez não seja exagero dizer que a versão mais lendária da canção pertence a Nina Simone (editada no seu álbum Wild Is the Wind, 1966). Para Bowie, retomar Wild Is the Wind era, antes de tudo o mais, uma homenagem a Nina — o teledisco da canção, produzido alguns anos mais tarde para o lançamento da antologia Changestwobowie (1981), com direção de David Mallet, inclui uma banda fictícia cujos elementos, de facto, não participaram na gravação da canção (Tony Visconti surge no baixo).
Station to Station foi lançado no dia 23 de janeiro de 1976 — faz hoje 50 anos.
>>> Site oficial de David Bowie.
Música ao vivo
— um Top da revista Mojo
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| Savile Row, Londres (1969) |
Foi no dia 30 de janeiro de 1969: os Beatles subiram ao telhado da Apple Corps, em Londres, para um mini-concerto que, afinal, era uma despedida antecipada. O evento está incluido num curioso Top 10, proposto pela edição francesa da revista Mojo. Ou seja: os grandes momentos da história da música ao vivo. Também lá estão, por exemplo Jimi Hendrix e Bob Dylan... Vale a pena ver.
7 minutos com Kevin Spacey

No passado dia 1 de dezembro, Kevn Spacey foi convidado da Oxford Union Society. Para lá da tradicional entrevista/conversa, o actor de Os Suspeitos do Costume (1995), Seven (1995) e Beleza Americana (1999) apresentou uma fascinante reflexão sobre o que significa (ou pode significar em termos sociais) ser acusado, julgado e considerando inocente, ao mesmo tempo que a cultura dominante perverte todos os dados em jogo, ignorando a mais básica presunção de inocência e acabando por promover a acusação inicial como uma "culpa" eterna e sem remissão — com um esclarecedor exemplo histórico desse tipo de processo.
Vale a pena descobrir os 7 minutos de tal reflexão, além do mais também uma notável performance de um excepcional actor.
Goo Goo Dolls na NPR
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| [ googoodolls.warnerrecords.com ] |
Fundados em 1986, em Buffalo, Nova Iorque, os Goo Goo Dolls não precisam de "evoluir", já que a sua razão de ser está na verdade primitiva do rock que praticam. John Rzeznik (voz, guitarra) e Robby Takac (baixo, voz), os dois fundadores que mantêm a empresa a funcionar, asseguram uma contagiante evolução na continuidade, com as rugas do tempo e sem ostentação. Assim foi o seu recente Tiny Desk Concert na NPR, inevitavelmente concluído com Iris, sucesso global de 1998.
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