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Fundo de Mim
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- A Síndrome
- Meu Querido Pênis
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- Cala-te Boca!
- Escândalo
- Trem Doido!…
- OVNI?…
- O Caso do Pinto
- Vestida para matar-se
- O Pajé
- Beryllo
- Poetas a Passarinho
- Sutilezas do Poder
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- A Bunda
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- Perfume de Mulher
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- Sozinho…
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- Das Amarras
- Agonia e (quase) êxtase…
Beryllo
Alguns anos após a morte do meu avô italiano, minha avó voltou a se casar. Desta feita com um gaúcho, nascido em Bagé. Um homem que jamais esquecia suas origens. Em todas as comemorações de que me lembro, ele estava sempre vestindo bombachas, o lenço vermelho ao pescoço, o chapéu pampeiro, a guaiaca, as botas com esporas, como se o cavalo estivesse bem ali, em qualquer esquina da cidade grande. Seu dia-a-dia de aposentado reservava as manhãs para o chimarrão, a tarde para os livros e os discos, e a noite para o cigarrinho, pitado com muito gosto enquanto dava asas à imaginação.
Parecia ser um homem feliz, orgulhoso da vida que levara, muito caseiro e apegado á família. Era também um exímio pianista, e gabava-se de haver tocado durante algum tempo com Carlos Gardel, quando ele ainda não era conhecido. Tocava tangos como ninguém. Com uma técnica muito sua, – de um jeito que jamais vi alguém tocar.
Convivi com esse homem desde os quatro anos de idade. E era fascinada por ele. Alguém que me contava histórias muito diferentes das que eu estava habituada. Esse avô postiço me ensinou a ler, muito antes que eu entrasse para uma escola. Me falava de suas viagens ao redor do mundo. Dos diferentes povos e seus costumes, das coisas boas e ruins com as quais temos que conviver. Esse homem que não tinha o mesmo sangue que o meu mostrou-me sempre como o mundo real poderia ser tão ou mais interessante que o mundo de fantasias importadas no qual minha infância estava mergulhada antes de conhecê-lo. Era uma pessoa muito especial que falava comigo, apesar da minha tenra idade, de igual para igual. Sem as concessões que normalmente se faz a uma criança. E apesar do misto de firmeza e ternura com que o fazia, Dora, minha avó materna, uma mulher doce, simples, de pouca instrução, ficava assustada.
– Beryllo, arranje uma outra conversa. Ela é só uma criança. Você acha mesmo que ela está entendendo?…
Meu avô endereçava a ela o seu olhar de veludo, o sorriso tranquilizador, e continuava a discorrer sobre o assunto.
Se vivo fosse, já teria muito mais de 100 anos. E está tão presente, tão vivo na minha memória (que embora não pareça já não é lá essas coisas…) que não posso deixar de dedicar a ele pelo menos um post, para dar-lhe a vida possível após a morte. Aproveito para republicar aí abaixo um conto que escrevi, baseado em nossa convivência, algum tempo após a sua partida.
Tomara que exista mesmo, como ele acreditava, uma vida para além desta. E que ele esteja vendo e constatando que eu não o esqueci, – que ele vive em mim desde que nos conhecemos e só se terá ido quando chegar a minha vez. Tomara mesmo houvesse reencarnação e, com toda certeza, voltaríamos com o mesmo sangue correndo em nossas veias – os corações no mesmo compasso. Que saudade!…
“No princípio era o verbo.”
Esta foi a primeira frase que consegui decodificar inteira, (por conta de um exemplar da Bíblia Sagrada), embora sem compreendê-la na essência, quando fui alfabetizada. Isso aconteceu de forma doméstica, bem antes da escola, e por um esforço particular de meu avô, leitor compulsivo, amante das palavras que provavelmente por sua condição de “velho” já não encontrasse interlocutores com a mesma facilidade que lhe permitiram os verdes anos. Fazia-o também porque, sendo eu sua neta, via a possibilidade de perpetuar seu gosto pelas letras, suas idéias, – de experimentar através de mim o frescor de uma nova geração, tão distante da que ele viveu.
Apesar da pele enrugada, do pigarro que desencadeava crises assustadoras de tosse, da coluna já ficando torta, ele não desistira.
Fui crescendo encafifada com o significado dessa primeira frase que conseguira ler. E só quando ele acreditou que eu poderia entendê-la dispos-se a, finalmente, falar a respeito daquele mistério. Pediu-me, um dia, que o acompanhasse. Lá fora, apontou a linha do horizonte e iniciou mais uma de suas inúmeras “parábolas”.
– O princípio pode estar lá. Ou aqui. (estendeu a mão com seus longos dedos de pianista para o chão). O princípio é o começo de tudo; o princípio é o fim de tudo…
– Não gosto da palavra fim, vô… Fim sempre lembra morte!, – interrompi aflita, e ainda confusa.
– Nascer e morrer são atos tão próximos… Quando se fala em fim há sempre uma associação à morte física. Na verdade, a vida é uma sucessão de mortes. Não devemos temer aquilo que nos mantêm vivos. Pense nos campos! Se não forem ceifados para que haja alimento no próximo ano, a fome nos ceifará. Em todo esse princípio vive o princípio de que falo.
O vento, antes agradável, começou a soprar com mais intensidade e ele abotoou o casaco antes de continuar:
– Tal como a vida é uma sucessão de mortes, o verbo é uma sucessão de vidas. É sabedoria eterna. Enquanto verbo somos imortais.
Ele falava e o vento frio cantando forte, dobrando árvores e arbustos, desfolhando no ar pétalas de flores maturadas, e impondo uma estranha coreografia aos seus ralos e brancos cabelos.
– Quando o vento começa a soprar ainda é quase uma brisa, mas todo ser vivo já sabe que logo, logo, terá que curvar-se, proteger-se. Entretanto, aqueles que não assimilam a experiência do vento, sucumbem a ele.
Tossiu antes de prosseguir.
– Assim é a palavra. Poderosa. Domine a palavra através dos bilhões de palavras alheias que preenchem um sem-número de livros e vai sentir-se muito mais forte e muito mais sensível. Domine-a e controlará o mundo, – o seu próprio mundo que é o que interessa controlar. Domine-a e seja infeliz sendo feliz, porque o conhecimento dará a você uma tal capacidade para discernir e selecionar que, a cada dia, ficará mais difícil encontrar amigos, amores, e conviver em família. Mas, ainda assim, e mesmo que às vezes sinta-se sozinha, sem alguém que compreenda o que precisa ser compreendido, domine-a. Lembre-se: o verbo é o princípio, é o agora e é o sempre. No verbo está a luz.
– Sentimento é mais importante, arrisquei.
– Sentimentos vivem ou morrem através da palavra.
Ainda ficamos uma boa hora ouvindo a canção e observando a dança imposta pelo vento à paisagem. Depois, sugeriu que entrássemos, pois estava começando a sentir muito frio.
Essa pessoa inacreditável viveu ainda por muitos anos, e deixou-me sem palavras no dia em que mudou-se para a outra vida. Um dia estranho, em que houve sol e chuva fina. Mas o vento… Ah! O vento era constante.
A natureza mandava-me um último e importantíssimo recado do meu queridíssimo vô Beryllo. Realmente,… uma pedra preciosa em minha vida.
ju rigoni (1990)
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Fiquei muito emocionada com sua história.
Que beleza recuperar em nós esses afetos.
bjs.
JU Gioli
Gostei… e tenho a certeza que ele também!
Identifico-me com o seu avô, mas ele sem dúvida é bem mais calmo do que eu. Foi essa calma que atravessou em mim enquanto lia o seu texto, de certo era ele!