Uma palavrinha para explicar a minha ausência nos últimos dias. Tenho estado doente. É. Os médicos também adoecem. Aliás, não sei como é que não adoecemos mais com toda aquela bicharada a pairar à nossa volta. Febre, tosse, expectoração. E uma letargia muito pouco saudável. Aguardam-se melhores dias para voltar a refogar.
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[terapêutica] pessoal & transmissível
Gosto tanto de ouvir o Carlos Vaz Marques a entrevistar gente no Pessoal & Transmissível na TSF. Arrisco até a dizer que pouca gente sabe falar tão bem com outras pessoas. Quando não ouço na rádio, ouço em Podcast.
[momento lexotan] dia dos namorados é quando um homem e uma mulher quiserem. todos os dias?
Espaço criado para quem, como eu, não suporta o dia dos namorados, o halloween e outras americanices que nos têm sido impostas nos últimos anos e que não têm qualquer relação com a tradição portuguesa. Qualquer dia estamos a festejar o thanksgiving, também. Por isso, desabafem à vontade.
[estetoscópio] raposas
Às vezes, os grandes álbuns passam-nos ao lado. Não dei o devido valor a isto quando me apareceu pela frente. Agora, meus amigos, estou um bocado viciado.

[exame objectivo] bem receber
É bom quando amigos descobrem o nosso blog. E é muito bom quando gostam do que está escrito e voltam. Por isso, obrigado, Susana(inha), Baeta, Ricardo e Leonor. Fazem-me continuar por aqui.
[exame objectivo] livrário
Sempre tive uma relação muito boa com os livros. Em criança era um desses devoradores de páginas de pernas cruzadas em cima da cama ou cabeça encostada ao braço do sofá. Nunca saía de casa sem um livro, fosse para férias, fosse para ir ao supermercado com os meus pais. Aproveitava todos os períodos mortos para avançar umas páginas.
Desde que sou médico, sinto-me a embrutecer. Os dias de banco e os dias a seguir não me deixam ler. Nos outros dias adormeço ao fim de uns míseros parágrafos. Os capítulos arrastam-se, os livros eternizam-se na mesa de cabeceira. Tenho que voltar atrás para me situar na história. E isto desgosta-me.
Queria prometer que vou passar a ler um livro por mês. Para mim, é o mínimo admissível. Quando me ponho a pensar na quantidade de livros que não vou ler na minha vida, angustio-me. Tenho que recuperar o tempo perdido.
Starting now.
[estetoscópio] 1001 canções que têm que ouvir antes que seja tarde (16)
16. The Streets – Dry Your Eyes
Oh meu deus, que música tão boa. Isto podia muito bem ser a banda sonora da vida. Pois podia.
[história clínica] na saúde e na doença
Sabemos que vemos o verdadeiro amor, aquele amor de bodas de prata a caminho do ouro, o amor dos bons e maus momentos, da saúde e da doença. Sabemos que o vemos quando o velhote a quem dizemos que a mulher irá ficar internada, quando esse velhote não se contém e rebenta num pranto incontrolável com os óculos embaciados e o lenço nas mãos. E dizemos que vai correr tudo bem e ele acena que sim a fungar como uma criança triste.
[terapêutica] notas de alta e de música

Nestas tardes, em que vou ficando pela enfermaria, o melhor acto terapêutico é juntar os relatórios e notas de alta que tenho que fazer ao som debitado pelo iPod. Neste momento, Anthony & the Johnsons e um avc coabitam em perfeita simbiose.
[raio x] papelinhos amarelos

A saga dos papelinhos amarelos continua. Aqui.
[história clínica] as quatro vidas
São 3 da manhã e não há silêncio neste serviço de urgência. Continuamos por aqui a tentar resolver problemas, a tentar deixar tudo pronto para amanhã. Daqui a poucas horas vamos embora, para o banho, para o pequeno almoço, para casa.
Internei hoje uma senhora que vivia sozinha. Sem filhos, sem marido, apenas com uma vizinha por perto. Uma vizinha que desconfiou quando ela não atendeu o telefone uma vez. Duas vezes. As vezes suficientes para se perceber que alguma coisa se passava. Estava há dois dias caída no chão, sem reacção. Dois dias sem comer, sem beber.
Estava desidratada como poucas vezes vi uma desidratação. A frequência cardíaca demasiada baixa, as tensões impossíveis de medir. Vieram as análises e os valores estavam fora do que os livros dizem que pode ser compatível com a vida. Investimos em força. Era nova, era independente antes de tudo isto acontecer.
Sobreviveu à primeira paragem cardíaca. Sobreviveu à segunda e à terceira. Entubada, colocado catéter venoso central, fármacos em doses altas. Mas a instabilidade era constante. A quarta foi a última. Não podia mais, ela. Não podíamos mais, nós. O esforço físico e psicológico de quatro reanimações. Imenso.
Custa muito. Custa estar uma tarde inteira a tentar dar vida a uma doente e não ver nada. Ver uma doente cada vez mais doente, uma viva cada vez menos viva.
Ultimamente, os nossos bancos têm sido assim. Éramos uma equipa de urgência pacata. Mas ultimamente somos inundados pela gravidade dos doentes.
[raio x] lar doce lar

Hoje, tarde de estudo acompanhada de chá. E música. E conforto.
[estetoscópio] 1001 canções que têm que ouvir antes que seja tarde (15)
15. Cat Power – The Greatest
Dedicated to my lovely wife. The Greatest.
[medicina desportiva] porto de recreio
Depois de ver o Sporting – Porto, ninguém me tira da cabeça que o Porto perdeu propositadamente. E eu juro que nunca tinha visto uma equipa perder de propósito. Jogou com a segunda equipa e substiuiu-a por júniores. Dois penalties estúpidos, dos quais nem reclamaram. Até vieram de comboio até à capital, em jeito de turismo, depois de ameaçarem que nem vinham.
Moral da história. Borrifo-me para isso. A mim, soube-me bem esta vitória.
[raio x] post (it)

Ainda vão havendo pingos de genialidade pela blogosfera. Aqui. Desabafem em tons de amarelo.
[história clínica] depois da tempestade, as ondas
Ontem.
Um banco de 24 horas. Esta semana vou passar mais tempo no hospital do que gostaria. Vinte e quatro horas com adrenalina quanto baste. Quatro reanimações com a primeira a exigir muito de nós. Entubação, massagem cardíaca, desfibrilhação, mais massagem cardíaca, olhos pregados no monitor, dedos na carótida, acalmia. Em sucessão. A sensação de ter recuperado uma vida. O passar o dia de volta dele e dos outros, mas mais dele porque não queríamos deitar tudo por terra. Deixámo-lo vivo, entregue aos que entram.
Hoje.
De volta à enfermaria. A ver a chuva e as ondas, entre alguns dedos de conversa com os nossos doentes.

[estetoscópio] 1001 canções que têm que ouvir antes que seja tarde (14)
14. Antony and the Johnsons – Hope There’s Someone
Uma música de perfeição para um domingo descansado.
[história clínica] o bom e o mau
Vi-a mal na enfermaria. Tinha lá sido chamado para a observar porque tinha febre e estava prostrada. Diagnostiquei-lhe uma sépsis e foi começado antibiótico adequado. Dez dias depois, por coincidência, fui de novo chamado para a ver. Não porque estava mal, mas porque se achou que estava tão bem que já não precisava de toda aquela medicação.
Estava, de facto, muito bem. Conversava comigo, disse-me que não se lembrava de nada mas que sim, que estava óptima. Queria conversar e recuperar o tempo perdido. Retirou-se o catéter venoso central, parou-se o antibiótico, pensei que os meus colegas lhe iriam dar alta brevemente.
Mas o mal voltou. Desta vez, mais implacável. Em forma de choque séptico. Febre, tensões arteriais não mensuráveis, urina nada. A estaca zero. Tudo foi recomeçado. Os antibióticos, novo catéter, fármacos potentes. Disse a todos que aquela era uma doente que merecia tudo. Uma doente com toda a vontade de viver possível.
Morreu-me ontem, após uma hora de reanimação com direito a desfibrilhação, os meus braços a latejar e a testa coberta de suor. Foi tudo comigo, o bom e o mau. Tinha que se despedir ao pé de mim, também. E eu demorei-me a despedir dela. No silêncio da desistência de uma reanimação, demorei-me a olhar para ela.
Raras vezes uma morte me custou tanto. Agora vou para casa, depois de 24 horas na urgência. As últimas dela.
[história clínica] a vida, para variar
Agrada-me quando a conversa com o doente passa da trivialidade clínica
[como é que se sente hoje? está melhor? ainda tem falta de ar?]
e resvala para a vida propriamente dita. Nem sempre se tem tempo para a conversa. Mas às vezes consegue-se falar dos filhos, da infância, de futebol e de como fazer favas guisadas com entrecosto. E isto assume-se como um acto terapêutico. Vejo os seus olhos brilharem mais um bocadinho e acabam a conversa com um rosto mais feliz do que a começaram.
E eu fico a saber como se fazem as ditas favas.
Filed under história clínica
- crónicas, excertos, pinceladas da vida de um médico. medicina mas principalmente além-medicina. música, compassos e notas soltas. livros, parágrafos e frases. filmes, grandes planos e imagens avulso. algum futebol (em tons de verde e branco) e pontapés na bola. tudo refogado com um aroma a hortelã
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