Que desilusão!

carview.php?tsp=

Não sei se estou desiludido ou com raiva, mas acabei agora de poisar o livro “Rio das Flores”, do Miguel Sousa Tavares. Escrito no rescaldo de “Equador”, o livro trata de dois irmãos, os Ribera Flores, num período de trinta anos, entre 1915 e 45. São dois irmãos que cresceram numa quinta no Alentejo, de seu nome Valmonte, e ao longo esse tempo, vemos Portugal cair numa ditadura e Diogo, o mais velho, cada vez mais com ideias liberais e de democracia, querendo viver a sua vida longe dali, montando o seu negócio, primeiro num negócio de importação e exportação, e depois comprando uma quinta no Brasil, porque a carne é essencial para alimentar uma economia que caminha alegremente para uma guerra mundial.

Do outro lado, vemos Pedro, o mais novo, que se encantara pelo novo regime e o ajudou, dedicado à quinta, sem horizontes, mas feliz com a vida, e acreditando que o regime do homem forte era o caminho a trilhar. Pelo meio, a história da familia, desde o momento em que o pai o leva para “fazer dele um homem”, até à sua morte e a herança da quinta nas mãos dos filhos. E pelo meio, a ideologia a separá-los, apesar de nutrirem um respeito um pelo outro. Pedro chega a ir para Espanha, combater pelos nacionalistas, acabando ferido, com sequelas físicas, e cada vez mais convicto das suas opções politicas.

E depois, as mulheres, as paisagens e as vistas.

Acabado de ler as 608 páginas que contêm este livro, chego à conclusão que… é um desperdício. O final é anticlimático – embora inesperado, é certo – mas daquilo que li e vi, das personagens que apareceram, fiquei com a sensação de que poderia ter sido feito mais e melhor. O que leio é o elogio à terra, as paisagens, as comidas, tudo, de uma certa forma, importante, mas acessório. E em termos históricos, há erros de palmatória – Franco nas Baleares é a cagada mais homérica que li, porque ele estava em Tenerife, nas… ilhas Canárias – do qual, da minha parte, não tem qualquer perdão, digamos assim. Certas personagens poderiam ter sido melhor aproveitadas, e não foram, e pergunto a mim mesmo a razão pelo qual apareceram, porque a sua presença mais fazia lembrar um manequim numa loja de roupas. Se não estivesse lá, teria sido melhor.

Em resumo, para encher chouriços, acho que José Rodrigues dos Santos é melhor. E acho que, comparado com o livro que escreveu sobre esse tempo – falo de “A Vida Num Sopro” – eu creio que abordou esse assunto muito melhor do que ele. No final, mais parecia ele, de forma egoísta, a falar que adora o Alentejo, a caça, a comida, os toiros, as paisagens do Brasil, o Rio de Janeiro e o Vale da Paraíba. E nesse campo, creio que José Cardoso Pires faz um trabalho bem melhor com “O Delfim”.

“O Rio das Flores”, infelizmente, é um romance medíocre. E digo com infelicidade minha porque acredito que tinha potencial para ser fantástico.

Agosto

carview.php?tsp=

Normalmente, é um mês de férias, mas neste ano estranho, dediquei-me completamente à escrita. E não escrevi um livro, antes acabei por escrever dois, e comecei hoje um terceiro. Pelo menos, comecei a escrever o primeiro capítulo, digamos assim.

Como escrevi em papel, sem passar por um computador, achei o processo bem mais produtivo que pensava. Sem levar o computador comigo, não havia distrações que isto costuma me dar porque abro outras janelas para ver outros sites, e com isso, o programa atrasa-se. É austero, mas eficaz.

No final, guardei os dois livros em dois montes de papel, para mais tarde passar a limpo. Como não há prazos, é para fazer com mais calma. Mas depois de os fazer, pensei, mais no que fiz, é o que sinto quando escrevo. Coloco em papel toda a minha imaginação? Certo. Combato o aborrecimento de um mês mais parado que o habitual? Também. É mais produtivo que um dia na praia? Verdade. Poderá ter impacto mais tarde na vida? Se estiver bem escrito, certamente.

Uma coisa é certa: eu tirei um grande prazer nisto, neste verão anormal. Que consequência é que terá, não faço ideia. Por agora. Espero que leiam o que escrevi num futuro próximo.

Somos os beneficiados

carview.php?tsp=

Não podemos negar que estando na periferia da Europa, Portugal foi um dos que tinha a janela aberta quando o resto da Europa se viu obrigado a fechar devido à pandemia. Hoje é dia de recebermos a final da Liga dos Campeões, em Lisboa, numa competição possível, com jogos a uma mão e uma final perante um estádio vazio porque somos obrigados a isto, mas algumas horas antes, fez-se história na MotoGP devido à vitória do Miguel Oliveira, a primeira de um português na categoria raínha do motociclismo, e logo na corrida numero 900 da história, na Áustria, num Red Bull Ring totalmente vazio porque ainda não nos saímos desta.

Mas o que me espanta por estes tempos nem é a vitória do Miguel Oliveira ou ver no Estádio da Luz Neymar e Lewandowski a jogar pelo troféu clubistico mais importante do mundo. É ver como um lugar rectangular, com 800 quilómetros de uma ponta a outra, a que 10,5 milhões de pessoas a chama de casa e outros milhões suspiram por ela porque trabalham longe, porque não podem lá estar, ou porque queriam ganhar mais e melhor, irá receber, com quatro semanas de diferença, a Formula 1 e a MotoGP, sem gastar rios de dinheiro que outros gastariam para receber.

E mais: é provável que ambas as provas tenham público a assistir…

E mais do que receber gente, este é o ano onde alguns pilotos que carregam o escudo armilar nas costas e põem-se em sentido quando ouvem A Portuguesa no lugar mais alto do pódio estão em destaque. Temos um campeão do mundo de Formula E, a competição elétrica mais importante do automobilismo. O António Félix da Costa bateu-se bravamente contra um pelotão equilibrado na melhor máquina, que é o da DS Techeetah, vencendo três corridas e conseguindo mais três pódios e três pole-positions. E já foi comparado com Ayrton Senna por causa de uma coincidência: falava português, tinha 28 anos e chegara no primeiro ano a bater um francês, seu companheiro de equipa, que tinha dois títulos mundiais no bolso. Só não ganhou em Suzuka depois de uma má partida que o relegou para a 16ª posição no final da primeira curva…

Mas para além de António Félix da Costa, também temos Filipe Albuquerque, que a bordo de uma máquina LMP2, vence corrida atrás de corrida no Mundial de Resistência, a poucas semanas das 24 Horas de Le Mans, que como todas as outras provas, foi adiada e acontecerá sem público. É certo que torceremos por ele para um triunfo na categoria, mas numa corrida tão longo como esta, tudo é possivel.

Em suma, é uma tempestade perfeita, no bom sentido. Não temos muitos casos, temos andado a controlar a progressão da doença, as nossas fronteiras tem estado abertas, as pessoas seguem as recomendações, todos sabem que usar a máscara na rua é uma questão de bom senso, ninguém é obrigado a tal. Mas ainda há os que querem mandar tudo para o ar, como que pensando que já estamos curados. Não, não estamos. Não é uma gripezinha, é para ser levado a sério, se apanhar corre um risco sério de morte. É isso que as pessoas tem de entender.

carview.php?tsp=

Mas esta tarde, é de celebração. Para o Miguel Oliveira, espero que seja o primeiro de muitos triunfos. E o título mundial, numa competição aberta como esta, pode ser uma realidade.

O havaiano veloz

carview.php?tsp=

Lewis Hamilton não foi o primeiro negro na Formula 1. Certo, venceu corridas e foi campeão, e vai a caminho dos recordes mais relevantes, e nisso é o primeiro. Mas Willy T. Ribbs não foi o primeiro a sentar o rabo num carro de Formula 1, numa manhã fria de 1985 no Autódromo do Estoril. Muito tempo antes, também na América, um piloto que nascera no Hawaii e crescera na California se apaixonara pela velocidade e se tornava vencedor nas pistas americanas, adquirindo admiração e respeito por mais de duas décadas, com uma passagem discreta na Formula 1. Tão discreta que é pouco falada, mas aconteceu.

Antes de Hamilton e Ribbs, aconteceu Danny Ongais.

Nascido a 21 de maio de 1942 em Kaluhui, no Hawaii, começou a correr em motos aos 14 anos, mas depois de ter passado pelo exército americano e regressado à sua ilha, passou para os dragsters, onde até ao final da década se tornou num dos melhores da competição. Venceu o American Hot Rod Association AA Gas Dragster Championship em 1963 e 64, ganhou o National Hot Rod Association AA Dragster Championship em 1965 e em 1969 venceu o NHRA Spring Nationals e o NHRA U.S. Nationals na classe Funny Car, a bordo de um Ford Mustang preparado pela equipa de Mickey Thompson.

Os seus feitos atrairam a atenção de um jovem herdeiro de um império de comunicação social, de seu nome Ted Field, que tinha a paixão pelos automóveis. Criou a Interscope Racing – mais tarde, iria criar a editora de discos com mesmo nome, com muito mais sucesso – e ele corria na IMSA com Porsches 935. E viu em Ongais o piloto veloz que queria para colocar o seu nome na lista de vencedores. E deu sucesso. Em 1976, já um pouco avançado para a idade – tinha 34 anos – ele vai para a USAC, onde em 1978, vence cinco corridas e cria uma reputação de “win or wall”. Se não ganhava, ia contra o muro.

Mas um ano antes, Field acha que não seria má ideia de tentasse a Formula 1. Adquire um Penske PC4, que a ATS não tinha usado, e vai correr as provas americanas. Em Watkins Glen, parte de último e abandona por acidente na volta 13, e em Mosport, está perto do pontos ao acabar em sétimo. E quase não acabava porque umas voltas antes, o motor do Lotus de Mário Andretti tinha rebentado e largara óleo numa determinada curva, onde fez despistar os carros de Riccardo Patrese e Vittorio Brambilla. Ongais também caíra nesse óleo, mas foi capaz de continuar. Irónicamente, Brambilla, que não continuou… pontuou na sexta posição!

Em 78, correu nas duas primeiras corridas do ano, em Buenos Aires e Jacarépaguá, a bordo de um Ensign, onde não terminou qualquer prova. Para Long Beach, adquirem no Shadow DN9, que tinha sido o carro de desenvolvimento da marca, mas não se qualificou. Tentou de novo em Zandvoort, na Holanda, em agosto, mas o destino foi o mesmo.

A partir dali, Ongais concentrou-se na América, especialmente a nova CART. Vence as 24 Horas de Daytonas em 1979, num Porsche da Interscope, ao lado de Ted Field e Hurley Haywood, mas em 1981, entra nas noticias pelas piores razões. Durante as 500 Milhas de Indianápolis desse ano, bate fortemente no muro da curva 3, enquanto saia das boxes. Fica gravemente ferido, com fraturas nas pernas, no braço direito e ferimentos internos. Fica meses em recuperação, e só volta a correr só em 1983. Em 1987, outro acidente durante a qualificação para as 500 Milhas de Indianápolis daquele ano faz com que comece a correr mais ocasionalmente. Curiosamente, o seu substituto nesse ano, Al Unser Sr., pegou no seu lugar… e venceu a prova!

Contudo, em 1996, nove anos depois da última corrida, e com 54 anos de idade, pedem-lhe para que volte a colocar o capacete para pedir um favor. Dias antes, Scott Brayton, que tinha feito a pole-position nas 500 Milhas daquele ano, morrera num acidente quando praticava para a prova. Ongais aceitou, partiu de último, e numa prova sólida, contornou os obstáculos e levou o carro até ao sétimo lugar final.

Era um piloto concentrado no automobilismo, mas muito privado em relação a ele mesmo. Sabe-se que é casado, tem um filho e pouco mais. Contudo, os seus feitos foram suficientes para entrar no Motorsports Hall of Fame os America, no ano 2000. um homem discreto, muito veloz, mas que também marcou a história, em muitos aspectos.

Fui lido, mais uma vez

carview.php?tsp=

Já faz três anos que publiquei aquele que, até agora, é o meu único romance publicado – tenho escrito mais, é certo, mas falta o resto – mas de vez em quando há quem leia e melhor, faz uma resenha critica do meu livro.

A Fátima, dona do blogue Insustentável Leveza, decidiu ler por estes dias “O Ano da Morte de Ayrton Senna”, e disse de sua justiça – caso queiram ler, segue o link: https://sabine77.wordpress.com/2020/08/15/leituras-o-ano-da-morte-de-ayrton-senna-de-paulo-alexandre-pereira/?fbclid=IwAR0vDsUBGsrWWMaJS_BlqFnYY-bWnvohfjp6229LcNh1oB0MIFZ-5M1s7o8

É uma critica pequena, mas agrada-me. Sendo auto-critico em relação ao que escrevi em 2017, o livro é mais para mostrar a mim mesmo que sei escrever um romance. Claro, tem uma história e a ideia é mostrar um “coming of age”, mas não tanto no sentido “young adult” do termo, embora pode ser colocado por ali. Não me importo.

O que mais me surpreendeu foi, mais do que o sentimento de nostalgia que cabe neste livro – e não o escondo – foi que ela tenha ficado agradado com o final. Não vou falar dela, mas o facto de alguém ter ficado feliz com isso, já bastou para receber como um elogio. Afinal de contas, mais do que saber que fiz um bom trabalho, é saber que consegui surpreender o leitor. Se conseguir tirar reacções do leitor, se conseguir prendê-lo à narrativa, então sei que vou no bom caminho. E mesmo que tivesse reações negativas, só poderia encarar isso como uma maneira de melhorar nas próximas vezes que escrevesse um romance.

Em suma, gostei. É um incentivo. Agora queria ver como irei publicar alguma coisa de novo, nos próximos tempos. Este é um espaço, mas falta mais. A única coisa que tenho ao meu alcance é escrever, nada mais. Corrigir e aperfeiçoar, também.

Noticias de uma ditadura

carview.php?tsp=

Há semanas que falamos da Bielorússia, e todos nós sabemos porquê, e também porque não reagimos a isto. Sabemos que é uma ditadura, o seu presidente está no poder há 26 anos, e tudo o que anda a fazer é mostrar ao seu povo que os tempos da União Soviética eram bons. Tanto que a bandeira e o escudo são remanescentes dos seus tempos em que eram uma república soviética, do qual deixaram em 1991.

Se é um ditador, porque faz eleições, então? É um pouco a velha frase do Karl Marx que quando a História se repete, primeiro é uma tragédia, e a seguir vem as farsas. As eleições são para estrangeiro ver que cumpre as regras democráticas. Há oposição, mas dentro de certos limites. E ele é o salvador da pátria porque sem ele, é o caos. Claro, quem o contestar, ou exila-se, ou vai para a prisão.

Então porque desta vez o povo decidiu gritar “basta”? Bom, porque vivemos no meio de uma pandemia, e nessas alturas de crise, tudo está a ser contestado. Os nossos lideres são contestados se não fizerem um trabalho bem feito, e o povo quer respostas. Se a reação do Estado é prender-te, bater-te ou pior, outros saberão e ficarão indignados, e virão mais à rua. Se o Estado reagir da mesma maneira, torna-se num circulo vicioso até ao momento em que o Ditador não tem outra opção que prender a todos.

E pode: chama-se “lei marcial”.

Quando se viu as eleições, e quem era a candidata da oposição, uma mulher cujo marido fora preso por ter feito videos no Youtube denunciando o Ditador, sabia-se mais ou menos como isto iria acabar. Já vi isto na História, até na história do meu país. Vi isto em 1958 quando um candidato, um militar chamado Humberto Delgado, resolveu candidatar-se, mobilizou o país e disse que se fosse eleito, iria demitir o primeiro-ministro. Claro, o regime não iria deixá-lo ganhar “fair and square” e houve uma fraude massiva. E foi o que aconteceu no passado domingo. Achariam que, depois de dezenas de milhares de pessoas a manifestarem o apoio à candidata da oposição, e o presidente ser eleito com 80 por cento dos votos, não veriam ali uma autêntica fraude à frente dos nossos olhos.

Claro, agora é a revolta aberta. Tudo é contestado, o povo rejeitou o regime. E é totalmente o regime. Até o escudo e a bandeira de Lukashenko, o “último ditador da Europa” foram rejeitados. Todos andam com a bicolor bielorrussa, branca, vermelha e branca, a exibir na ruas, apesar de carrinhas a aparecerem e espancarem pequenas multidões que tentam defender-se apenas com os seus corpos. E os milhares que foram presos e enchem as cadeias, pouco se sabe o que foram feitos deles. Mas continuam a manifestar-se. Corajosos? Não, apenas seres humanos sedentos de liberdade.

Mas resta saber se eles serão vitimas das forças vindas de fora. A Rússia quererá alguém a virar a face nas suas fronteiras? Viram o que aconteceu com a Ucrânia em 2014, e depois acabou com parte do seu território ocupado por forças estrangeiras. Não tem a Crimeia, o Leste está debaixo de “separatistas” que, no dia em que Putin sair do poder, cairão como castelo de cartas, e agora com nova rebelião em mais um país fronteiriço, provavelmente poderá fazer com que Putin fique em alerta a ver o que o Ditador fará para controlar a revolta. Porque do outro lado, uma revolta nas fronteiras da União Europeia – Polónia e Lituânia fazem parte da UE e faem fronteira com a Bielorússia – não dá muito jeito. A candidata da oposição exilou-se em Vilnius, na Lituânia, e não se sabe como isto acabará. Há reuniões de emergência, e haverá quem queira uma reação energética contra o Ditador, mas apoio moral não é suficiente. A história não é só apoios morais.

carview.php?tsp=

Está tudo por saber como isto terminará. Pode acabar bem ou não. Neste momento, o povo resiste, revolta-se, deseja mudança. Mas o Ditador não sai, e temo que estejamos a horas de mandarem atirar a matar contra pessoas desarmadas.

Redescobrir

carview.php?tsp=

Tenho andado calado por estes dias, é verdade. Mas é por um bom motivo. É que ando a escrever, e estou a fazer à mão.

Nestes tempos de tecnologia, onde estamos escravos das redes sociais e quase nos esquecemos de como é a tua letra, porque já nem te lembras da última vez que escreveste, num dia à noite, algo aborrecido, decidi escrever algumas páginas em folhas de papel quase vegetal, porque estava num café e não tinha trazido nada. Foi como se a minha inspiração tivesse chegado inesperadamente. Isso foi há quase duas semanas, e desde então que, sempre que saio de casa, levo umas remas de papel num saco, num dossier, e vou para um sitio calmo, sem levar qualquer computador, perco quatro horas por dia, sossegado, sem querer saber do mundo lá fora, sem distracções, construindo o meu próprio mundo, que é melhor do que ler o mundo dos outros, embora o faço com todo o prazer.

Nestes últimos dias, o papel e a caneta me fizeram escrever entre 15 a 20 páginas por dia. Ando quase a acabar o esqueleto de uma história, creio que deve faltar uns dez por cento. Sei perfeitamente que quando acabar, vou passar para o computador, e depois guardar para melhores tempos, mas como ando a gostar do que faço, sou bem capaz de repetir a façanha dentro em breve.

Em suma, é uma redescoberta. Aliás, são algumas. Algumas horas fora do mundo e voltar a escrever de caneta perante folhas de papel está a fazer bem para a minha imaginação.

Um país quebrado

carview.php?tsp=

Os eventos de ontem no Líbano, com a sua capital totalmente destruída depois uma explosão de 2700 toneladas de nitrato de amónio guardadas num armazém desde 2014 no porto de Beirute, é o espelho de uma nação quebrada. Ou se preferirem, é a tempestade perfeita de uma nação que vivia a crise do coronavirus, um governo ingovernável, uma crise financeira que viu 85 por cento da sua moeda desvalorizada, e a crescente contestação de todo um regime. De uma certa maneira, foi o cúmulo de todas as desgraças que aquela pequena nação está a sofrer.

Há uma cratera no lugar do armazém onde estava o nitrato de amónio. Ao lado, o silo guardava 85 por cento dos cereais do país, e tudo volatilizou. O porto, o mais importante da região, está inutilizado. E todas as casas nos 20 quilómetros à volta do “ground zero” estão destruídas, os vidros estilhaçados. Há centenas de pessoas soterradas debaixo de escombros, e as imagens da explosão fazem lembrar as bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki, que vão fazer 75 anos por estes dias.

Aliás, esta é uma das maiores explosões não atómicas da história. É que o nitrato de amónio, um fertilizante, é explosivo, em contacto com outros materiais. Aliás, tudo isto aconteceu, aparentemente, após uma primeira explosão com material de fogo de artificio.

A explosão é um sinal do fracasso do estado libanês. A sua paralisia, incapacidade de resolver problemas, aliada à corrupção, deu nisto. Já tinha dado noutros problemas, mas isto poderá ter sido demais, num país que já viveu nos últimos 45 anos uma guerra civil e duas invasões por parte de Israel, em 1982 e 2006.

Mais do que limpar os escombros e reconstruir, também as pessoas vão querer reconstruir a sociedade.

Hoje não morreu ninguém

carview.php?tsp=

Pela primeira vez desde o dia 15 de março, não houve mortes devido ao coronavirus. É um feito, sem dúvida, mas as mortes parecem ser já menosprezadas, estando mais interessados nos casos que são contaminados. Apesar destes estarem um pouco acima dos cem casos – o que é significativo – é uma tendência que está a acontecer desde fins de junho, que aumenta e diminui com o passar dos dias. Mas é aquilo que falei noutro dia: as pessoas andam fartinhas e só andam de máscara porque são obrigados a tal. E se forem das descartáveis, então já se pode imaginar a poluição que veremos no chão e do qual não é recolhido, com pena minha.

Mas o meu “hoje não morreu ninguém” nas minhas bandas combina também com os poucos novos casos que tem aparecido na minha região, e com o facto de vivermos o verão, do qual sempre imaginei que iria ser um forte factor para a diminuição de casos. Isso e o distanciamento social e a educação que as pessoas tem de ter para que o número de novos casos se mantenha baixo.

Mas depois do verão vêm o outono, e claro, os casos aumentarão. Ali, acho que as pessoas se lembrarão do que têm a fazer e seguirão os conselhos, se não querem voltar ao estado de emergência, ver encerrar os negócios e paralisar a economia, e encher os hospitais. Acho que ninguém quer voltar a isso. Mas a maneira como as pessoas encaram tudo isto não me enche de esperança. É melhor aproveitar o momento, porque sei que amanhã, é provável que haja mais mortes. E claro, esperar para ver qual das vacinas que andam a experimentar é a mais eficaz.

Já agora, sobre o outono que aí vêm, recomendo que leiam o que o Público escreveu hoje sobre esse assunto.

Isso só vai lá com vacina

carview.php?tsp=

Ultimamente tenho saído à noite. É verão e o calor dentro de casa procura a frescura das noites. E claro, tenho de levar a máscara comigo para não ter problemas à entrada de qualquer estabelecimento. Aliás, até tenho ido à biblioteca por estes dias, e andei a conversar com o meu pai sobre as regras que eles lá tem, com ele a comentar “que estavam a ser mais papistas que o Papa”. É certo que, se disse a ele que ao tocar num livro, este entra numa quarentena de dez dias, ele pode ficar espantado com esse rigor, mas nem lhe disse que as marcações tem de ser antecipadas – agora largaram isso por causa das vagas que existem por lá, só aparecem três ou quatro no máximo – ou temos de andar com máscara o tempo todo, sem excepções.

E é por isso que, quando saio à noite e vejo as pessoas, nas esplanadas dos restaurantes e a conversar em grupos de vinte ou trinta pessoas, depois das 23 horas, começo a convencer-me que, isto só vai lá com a vacina. É que quando entramos no estabelecimento, tiramos pouco depois a máscara e andamos ali como se fosse… normal. Estamos em grupos e falamos normalmente, sem distanciamento. E fora do lugar, quando se circula entre as pessoas das esplanadas, não se vê ninguém de máscara. Só quando é num lugar estritamente obrigatório, e é por momentos, não é o tempo inteiro.

É verdade que por estes dias, os casos na minha região praticamente não aparecem, mas tenho a sensação que todos pensam que o mal já passou, que o verão vai ser calmo, e só temos de usar quando nos obrigarmos a tal. É mais “para ver que cumprimos a lei“. Eu ando de máscara na rua, por toda a cidade, onde circulam centenas de pessoas, ora a pé, de bicicleta ou a correr, sentados à espera de algo, a fazer exercícios físicos, e só tiro quando sei que não há ninguém à minha volta. Tenho medo do vírus? Sim, claro. E mesmo quando estou dentro de qualquer estabelecimento comercial e há gente à minha volta, só tiro a máscara quando vou tomar algo. É simples.

Mas acho que isto só se acalma quando aparecer a tal vacina e começarmos todos a levar a dose necessária. Quando a maioria de nós já a tiver, alguma massiva campanha que o governo vai montar, e do qual andaremos em filas à entrada dos centros de saúde – com a distância de segurança e máscara na cara, espero eu – acho que começarei a ficar mais aliviado. Mas isso posso ser eu, apenas eu.