
Não sei se estou desiludido ou com raiva, mas acabei agora de poisar o livro “Rio das Flores”, do Miguel Sousa Tavares. Escrito no rescaldo de “Equador”, o livro trata de dois irmãos, os Ribera Flores, num período de trinta anos, entre 1915 e 45. São dois irmãos que cresceram numa quinta no Alentejo, de seu nome Valmonte, e ao longo esse tempo, vemos Portugal cair numa ditadura e Diogo, o mais velho, cada vez mais com ideias liberais e de democracia, querendo viver a sua vida longe dali, montando o seu negócio, primeiro num negócio de importação e exportação, e depois comprando uma quinta no Brasil, porque a carne é essencial para alimentar uma economia que caminha alegremente para uma guerra mundial.
Do outro lado, vemos Pedro, o mais novo, que se encantara pelo novo regime e o ajudou, dedicado à quinta, sem horizontes, mas feliz com a vida, e acreditando que o regime do homem forte era o caminho a trilhar. Pelo meio, a história da familia, desde o momento em que o pai o leva para “fazer dele um homem”, até à sua morte e a herança da quinta nas mãos dos filhos. E pelo meio, a ideologia a separá-los, apesar de nutrirem um respeito um pelo outro. Pedro chega a ir para Espanha, combater pelos nacionalistas, acabando ferido, com sequelas físicas, e cada vez mais convicto das suas opções politicas.
E depois, as mulheres, as paisagens e as vistas.
Acabado de ler as 608 páginas que contêm este livro, chego à conclusão que… é um desperdício. O final é anticlimático – embora inesperado, é certo – mas daquilo que li e vi, das personagens que apareceram, fiquei com a sensação de que poderia ter sido feito mais e melhor. O que leio é o elogio à terra, as paisagens, as comidas, tudo, de uma certa forma, importante, mas acessório. E em termos históricos, há erros de palmatória – Franco nas Baleares é a cagada mais homérica que li, porque ele estava em Tenerife, nas… ilhas Canárias – do qual, da minha parte, não tem qualquer perdão, digamos assim. Certas personagens poderiam ter sido melhor aproveitadas, e não foram, e pergunto a mim mesmo a razão pelo qual apareceram, porque a sua presença mais fazia lembrar um manequim numa loja de roupas. Se não estivesse lá, teria sido melhor.
Em resumo, para encher chouriços, acho que José Rodrigues dos Santos é melhor. E acho que, comparado com o livro que escreveu sobre esse tempo – falo de “A Vida Num Sopro” – eu creio que abordou esse assunto muito melhor do que ele. No final, mais parecia ele, de forma egoísta, a falar que adora o Alentejo, a caça, a comida, os toiros, as paisagens do Brasil, o Rio de Janeiro e o Vale da Paraíba. E nesse campo, creio que José Cardoso Pires faz um trabalho bem melhor com “O Delfim”.
“O Rio das Flores”, infelizmente, é um romance medíocre. E digo com infelicidade minha porque acredito que tinha potencial para ser fantástico.










