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NU SINGULAR: abril 2011
NU SINGULAR
apenas mais uma voz entre vós, foz onde as imagens possam desatar os nós das palavras
26 abril, 2011
25 abril, 2011
postal pascal
Cristo entrou-nos pela casa dentro.
Abrimos a porta mas não o esperávamos.
Um cristo frio que pedia o calor dos nossos lábios.
Nas mãos tínhamos cálices de vinho. Nós, alegres pagãos.
Pediram-nos para cantar aleluias.
Não sei se chegámos a calar o Prince.
Uma espécie de chuva grossa irrompeu no ar salpicando
a mesa farta e as nossas vestes.
Quase ninguém quis beijar a prata.
Para além da janela, um corrupio de gaivotas animava
os telhados do casario vizinho.
No rio de ouro, um barco rabelo cheio de turistas atingia o arco
da ponte. O céu lá longe era muito negro.
No vidro da sala caíam gotas gordas de chuva.
Brincámos que era deus a chorar pelo nosso país.
O barca velha encorpando o nosso tédio pascal.
Buda era a imagem da serenidade...

© 2011
Abrimos a porta mas não o esperávamos.
Um cristo frio que pedia o calor dos nossos lábios.
Nas mãos tínhamos cálices de vinho. Nós, alegres pagãos.
Pediram-nos para cantar aleluias.
Não sei se chegámos a calar o Prince.
Uma espécie de chuva grossa irrompeu no ar salpicando
a mesa farta e as nossas vestes.
Quase ninguém quis beijar a prata.
Para além da janela, um corrupio de gaivotas animava
os telhados do casario vizinho.
No rio de ouro, um barco rabelo cheio de turistas atingia o arco
da ponte. O céu lá longe era muito negro.
No vidro da sala caíam gotas gordas de chuva.
Brincámos que era deus a chorar pelo nosso país.
O barca velha encorpando o nosso tédio pascal.
Buda era a imagem da serenidade...
© 2011
publicada por francisco carvalho às
01:57
1 Comentários
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23 abril, 2011
este espaço, este silêncio, estes passos sem (a)deus
Por vezes digo: tentemos ser alegres,
e parece-me prudência a minha,
tão escavada é agora a deserta medida
à qual foi prometido o grão.
Por vezes digo: tentemos ser graves,
não se diga nunca que jorra para mim
sangue de vitelo gordo:
e ainda me parece prudência a minha.
Mas mesmo sem culpa a quem assim enche
de hipóteses o deserto,
de imagens a noite escura, alma minha,
a este será dito: tiveste o que era teu.
e parece-me prudência a minha,
tão escavada é agora a deserta medida
à qual foi prometido o grão.
Por vezes digo: tentemos ser graves,
não se diga nunca que jorra para mim
sangue de vitelo gordo:
e ainda me parece prudência a minha.
Mas mesmo sem culpa a quem assim enche
de hipóteses o deserto,
de imagens a noite escura, alma minha,
a este será dito: tiveste o que era teu.
poema sem título de Cristina Campo
em "O Passo do Adeus" (ed. Assírio & Alvim,
tradução de José Tolentino Mendonça)
em "O Passo do Adeus" (ed. Assírio & Alvim,
tradução de José Tolentino Mendonça)
publicada por francisco carvalho às
23:56
0 Comentários
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10 abril, 2011
02 abril, 2011
as palavras dela, sempre, em socorro desta casa
O tempo fecha.
Sou fiel aos acontecimentos biográficos.
Mais do que fiel, oh, tão presa! Esses mosquitos que não
largam! Minhas saudades ensurdecidas por cigarras! O que faço
aqui no campo declamando aos metros versos longos e sentidos?
Ah que estou sentida e portuguesa, e agora não sou mais, veja,
não sou mais severa e ríspida: agora sou profissional.
em "A teus pés" de Ana Cristina César
Sou fiel aos acontecimentos biográficos.
Mais do que fiel, oh, tão presa! Esses mosquitos que não
largam! Minhas saudades ensurdecidas por cigarras! O que faço
aqui no campo declamando aos metros versos longos e sentidos?
Ah que estou sentida e portuguesa, e agora não sou mais, veja,
não sou mais severa e ríspida: agora sou profissional.
em "A teus pés" de Ana Cristina César
publicada por francisco carvalho às
17:52
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