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- Comecei já há alguns anos a ligar as palavras e as imagens, hoje sei que é isso que desejo fazer. Este padrão de fundo formado por pequenos corações é o mesmo que está nas guardas do livro que inicia esta fase editorial. Se tudo correr bem, estará presente nos outros livros que hão-de vir. Sendo as guardas o que está colado nas costas, dentro de um livro, a ideia dos corações surgiu para substituir a função de guarda costas para guarda corações. Assim vos deixo com os corações que espero consigam guardar o que de melhor soubermos sentir. Até breve, joão
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Poeta de bom encontro tenho as mãos vazias como um príncipe de uma história que li. Tenho sentido o desfazer como a inevitável alegria de dar espaço ao que continua e se reconhece. Não sei porquê lembrei-me de ter perdido um lenço e um chapéu em diferentes e distintas ocasiões. Foram para outra vida e alegrei-me a inventar histórias, onde libertas desta vida que tínhamos, se recolocaram noutro estar. De cada vez se faz e nem sempre parece certa a concretização. Fino fio que nos cabe em revelação, onde avança sempre a construção do céu. Linhas de crochet que ancoram em velhas toalhas de mesa, algumas sem nódoas de sonhos, imaculadamente tristes.
Assim. Digo. Avança a vida.
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Hoje lembrei-me e cantarolei. O meu pai cantava isto quando eu era muito criança de idade, e ele trabalhava como locutor “na rádio”. Não sei se por brincadeira só por si, ou porque com duas filhas e uma mulher, de algum modo lhe fazia sentido. Guardo na memória cantar com ele. E isso ultrapassa o julgamento que possa ter agora sobre a letra.
Talvez brincasse com ele e connosco. Se é uma marcha é decerto um desabafo, ironia com o próprio e festa aberta, que ainda não se filtrava.
Eu vomitava no carro. E apesar de haver um penico que já sabíamos para o que servia, cantávamos entretanto.
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Mas eu faço-me na mão ao te tocar. E fomos nós agora, a replicar o infinito.
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Tenho as mãos frias, pensou a Mãe que de tão jovem apenas a preocupava querer tocar o Menino.
É a minha lã que ao condensar o Caminho se dá agora em calor, pensou o pequeno Burro do Presépio.
Estranhava a lentidão com que dentro de mim ruminava as ervas. Agora acertou-se o Tempo. Disse a vaca do Presépio.
Chorei ao se ter quebrado a flauta, com ela conseguia subir ao céu. Depois ouvi o vento, a chuva e neles a Esperança da ante voz da Primavera. Disse o Pastor
O pequeno Riacho, por um breve instante, olhou pela primeira vez a Fonte.
O Céu moveu-se e suspirou, dando às estrelas a consciência da Luz.
José sentou-se com a delicadeza de um junco. E muitos reconheceram o Silêncio que a todos serviu de Fundo.
Uma rã coaxou enquanto pássaros cantaram. E não foi assinalada a estranheza do Momento mas a Beleza do Encontro.
Uma unha de um felino escolheu não avançar.
O barro tornou-se em si Possibilidade e o Céu desceu.
” Se o meu Pai ainda fosse capaz de inventar as tardes
todos os médicos seriam curados.”
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Penso que os mortos não lavam os dentes, não medem as palavras e sem cortarem as unhas seguem em frente. Não sei se descansam como eu desejava que acontecesse. Mas de tanto do que se passou e do que deveria ter acontecido, tomam disso a sua clara forma.
E só sei que seguem.
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Sentado a meio da escadaria, ao lado de um líquen amarelado e de uma pequena flor azul, abre e fecha os olhos.
Contrai a cara quando um mosquito o toca de passagem. Reage estremecendo. Depois dedica-se de novo ao pensamento que por dentro surge como um insecto a esvoaçar na sala com a precisão de um desenho que pestaneja sincopado.
-Talvez eu não tenha conseguido conversar com os vivos.
De cada vez que me lembro, recordo uma ou duas ocasiões em que o contacto foi directo. De resto houve sempre muitos encontros à volta de mesas; jantares, vinho, cervejas e fumo.
Ofereceram-me há muitos anos uma roseira de flores cheias, pétalas dobradas, cor de veludo macio de vermelho profundo até rosa escuro.
As flores são anunciadas por folhas avermelhadas, que a seu tempo se tornarão verdes, logo depois de empurrarem o tom carmesim até ao lugar onde o botão se enforma.
Estas rosas de mão cheia são tão belas que não sei descrevê-las, embora saiba o toque e lhes sinta o cheiro quente e único.
Gosto de ter apenas este pé de roseira. Assim, para cada flor, tenho a devida atenção podendo apreciá-la.
Quando o casal que me ofereceu a roseira morreu, no intervalo de poucas semanas, também a estaca central da roseira secou.
No ano seguinte duas hastes fortes nasceram e hoje uma delas encimada por uma rosa aberta olha em frente e faz companhia a um botão que aponta o céu com firmeza.
Agora, enquanto a descontração das folhas ao vento acena a quem passa, ouço a zunir por dentro que em breve se desfolharão as flores.
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Aquela que espero que me aconteça.
A tal a que me possa permitir dar o que por si mesma me inclua, e maior do que eu consigo ater. Espero por ela. Desenvolvo o verbo insoniar. A assistir ao tempo que passa, sem dormir, pensando que vou de viagem numa camioneta, junto à janela (tenho sorte).
Na parede as sombras ondulam pois o estore não fecha totalmente a passagem da luz, e se tenho roupa pendurada lá fora e se houver nesse dia vento, escrevem-se poemas na parede a que assisto. Escreve-se e apaga-se, perante os olhos, e apresenta-se uma parte do que o movimento é capaz. E é por vezes belo e apesar de tudo nunca, porque varia em pequenas subtilezas que quem pinta sabe que é mesmo assim… fica o olhar mais preciso de se ser capaz de distinguir tonalidades.
Quando estou assim, não tenho um caderno por perto, e então aparecem palavras que dizem ser de muita importância… Elas sabem que o são assim por não haver um caderno. E eu não me levanto para as escrever. Porque não lhes quero estragar o valor da importância e porque já o fiz de outras vezes e elas ficam registadas com outa voz. À noite deixem-se as palavras ficarem sábias, são-no em si e eu sei, elas sabem.
Poemas maravilhosos de árvores altas a dizerem que tudo fica mais extremo.
Ainda não foi desta vez.
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Este ano, no presépio, a casa ao fundo tem no pequeno quarto uma criança sentada numa cadeira a escrever em folhas soltas à luz de um candeeiro que já foi de uma avó. Rangem madeiras do soalho, e fica imóvel, esta alma das almas todas, que sem ela saber apresenta, na sua ainda breve passagem de existir. Está muito frio e a morte está sentada ao seu lado mas aos pés da cama. Não existem mais cadeiras e a morte gosta ou habituou-se aos colchões e ao cheiro dos lençóis. A morte gosta de se sentar perto das crianças, pode ficar a assistir sem a obrigação de intervir e agrada-lhe a companhia dos que não têm medo dela.
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Há uma oficina que fica dentro de uma casa de pedra com uma porta de madeira que está quase sempre aberta. É, para quem lá dentro trabalha, uma forma de emoldurar a paisagem, e uma passagem de um espaço para o outro.
O escultor saiu, as peças ficaram no lugar onde ele as tocou, onde lhes deu a forma conforme o seu gesto. São de barro, como os corpos. Movimentam-se no devagar do pó. Parece tudo demasiado silencioso, mas elas conversam baixinho.
Agradecem a canção que os dedos lhes inscreveram e guardam o som do sopro.
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As palavras antes de se fixarem nos livros eram nómadas.
Ouvir e dizer eram as vezes de ler.
Estavam inscritas numa direcção e dois sentidos.
A memória interna apreendia a coincidência com a eterna.
O tempo, a consciência de estar vivo agora, fazia do corpo o instrumento aberto,
onde a música, transversal à existência, seguia perpétua,
na voz que é em cada ser.
Fixaram-se as palavras e a humanidade.
Para conforto,
construíram-se micro-mundos em quintais,
desviaram-se rios, cruzaram-se e desenraízaram-se espécies,
violou-se a sabedoria.
E assim tornou-se mais claro que ela existia.
Mas ao violentá-la e ao fazer o corte de a aceitar tal como é,
ela que habitava o centro de cada ser, fugiu para o céu.
Mas seguiu-se cegamente o valor da delimitação,
pela posse da breve assinatura de uma vida.
Em vez de se procurar o alimento,
achou-se o direito de trazer para si,
o que convinha ao desejo do momento.
A Humanidade fez da Vida Una, a violência de se estilhaçar em indivíduos,
capazes de se matarem e matar, para adquirirem o poder do monólogo.
E assim escrevem-se livros,
à procura da coincidência que se perdeu.
E apenas ficou mais definido,
o espaço onde se deve enterrar os mortos.
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