A pilha de livros não tinha sido construída de uma só vez. Crescera ao longo dos anos, livro a livro, como cresce uma casa feita de hábitos. Havia volumes grossos, de lombadas gastas, que sustentavam tudo com paciência, e livros mais finos, colocados ao lado, quase tímidos, mas indispensáveis para manter o equilíbrio. Na base, a pequena porta parecia demasiado discreta para algo de tão importante. Ainda assim, era por ali que tudo começava.
Ao abri-la, sentia-se o cheiro misturado de papel, tinta fresca e café acabado de fazer. O chão era feito de frases esquecidas, aquelas que ninguém sublinhou, mas que ficaram gravadas na memória sem se saber bem porquê. As escadas surgiam logo à direita, em espiral suave, com corrimões talhados em palavras repetidas tantas vezes que se tornaram lisas ao toque.
Naquela tarde de outono, Paula caminhava apressada pelas ruas empedradas da cidade, segurando uma pequena pilha de livros contra o peito. O casaco de lã grossa, de tons quentes, envolvia-a como um abraço, protegendo-a do vento cortante. O seu olhar mantinha-se atento ao caminho, mas a mente encontrava-se já noutro lugar, presa à promessa silenciosa das páginas que levava consigo.
Vinha do alfarrabista da Rua das Oliveiras, um espaço estreito e antigo, onde o tempo parecia ter abrandado por acordo tácito. O cheiro a papel envelhecido misturava-se com o pó fino das prateleiras mais altas. O senhor Álvaro, sentado atrás do balcão de madeira escura, observava-a com a mesma curiosidade discreta.
— Hoje levas um pouco de tudo, Paula — comentara, enquanto empilhava os livros com cuidado. — Um romance, um livro de botânica… e este diário de viagens que chegou há pouco.
O vento dançava entre as árvores, roçando de leve as folhas soltas antes de as deixar cair, num movimento quase ensaiado. Algumas pousavam no banco de madeira, outras seguiam viagem, levadas pela brisa.
Inês abriu o livro devagar, como quem desdobra um segredo, e deixou os olhos perderem-se nas primeiras palavras.
Gostava de ler assim, ao ar livre, cercada pelo murmúrio das folhas, e pelo chilrear dos pássaros que ainda não haviam partido para longe do inverno prestes a chegar. Ali, no meio da natureza, as palavras pareciam respirar, ganhar forma, misturando-se com o vento e com os troncos altos das árvores que a cercavam.
O livro que segurava era um velho romance que encontrara na casa da avó, certamente comprado num alfarrabista.
Antônio já sabia ler sozinho, mas queria compartilhar sua leitura com outra pessoa. Pegou seu livro favorito e saiu procurando alguém para ler com ele.
Antônio perguntou à mãe dele:
— Quer ler um livro comigo?
— Não posso agora, estou ocupada — disse a mãe. — Mas, hoje à noite, leremos juntos.
Antônio saiu para rua. Havia um senhor muito velho sentado em frente de sua casa. Mas ele era cego.
Então Antônio não perguntou se aquele senhor queria ler o livro com ele.
Antônio entrou na padaria abaixo de seu apartamento e perguntou ao padeiro:
Na maior parte dos dias, George sentava-se num banco, no limite da floresta, a olhar para as montanhas distantes.
E ali matutava sobre o sentido da vida.
“Oh! A vida é maravilhosa”, pensava ele. Trá-lá-lá e tudo o mais!
“Mas será só isto?”, interrogava-se. “Não haverá nada mais?”
George estava aborrecido. Já não se contentava em fazer as coisas costumeiras que qualquer urso fazia. Queria fazer outras, bem diferentes. “Mas quais?”, interrogava-se ele.
Os seus irmãos nunca se questionavam. Sentiam-se perfeitamente felizes a conversar, a pescar — a fazer as coisas normais para um urso — e a contar vezes sem conta as mesmas histórias.
**
Num belo dia, estava George a passear pela floresta quando encontrou um livro aos pés de uma árvore.
A ideia de que a leitura pode contribuir para o bem-estar é muito antiga, e os seus poderes reparadores têm sido notados ao longo dos séculos.
A leitura foi para mim o remédio soberano contra os desgostos da vida, não tendo nunca existido uma dor que uma hora de leitura não afastasse de mim, escreveu Montesquieu.
Mais perto de nós, no século XX, pensemos no papel que a leitura ou a lembrança de textos lidos desempenharam para tantos deportados nos campos de concentração nazis, ou para aqueles que resistiram ao degredo estalinista. Primo Levi recitava Dante ao seu amigo Pikolo, em Auschwitz, e os companheiros de Robert Antelme lembravam-se de poemas que transcreviam em pedaços de cartão, encontrados no depósito da fábrica.
Lembro-me de como gostava de sentir a pele macia das mãos da minha avó quando me lia uma história… A paz que sentia junto dela, o som suave da sua voz, enquanto percorríamos as páginas, com uma luz suave a iluminar-nos nas longas noites de inverno.
E agora, quando, junto do meu neto, leio um livro e ele me afaga as mãos, sinto uma profunda emoção ao ver as nossas histórias a desenrolar-se e a descobrir, a cada página virada, uma surpresa.
Era uma vez uma biblioteca. E também era uma vez a Luísa que foi à biblioteca pela primeira vez. A menina andava devagar, puxando uma mochila de rodinhas enoooorme. Ela olhava tudo muito admirada: estantes e mais estantes recheadas de livros. Mesas, cadeiras, almofadas coloridas, desenhos e cartazes nas paredes.
— Eu trouxe a foto — disse timidamente para a bibliotecária.
— Ótimo, Luísa! Vou fazer sua carteira de sócia. Enquanto isso pode escolher o livro. Você pode escolher um livro para levar para casa, tá?
Lá fora, o mundo estava coberto por um silêncio branco. A neve caía em flocos etéreos, que dançavam devagar sobre as árvores adormecidas, como notas de uma melodia ancestral. Cada floco parecia ter uma intenção, um destino próprio — pousar suavemente e desaparecer, deixando atrás de si apenas um vestígio de pureza.
As ruas estavam desertas, e o ar, quase imóvel, parecia conter a respiração do tempo. Havia uma paz misteriosa naquela quietude, como se o mundo tivesse sido devolvido à sua infância, antes do ruído, antes da pressa.
Dentro de casa, o lume crepitava no coração da lareira, as sombras dançavam nas paredes tingidas de âmbar, e o ar tinha o cheiro doce e reconfortante da lenha e da canela — o perfume discreto das horas tranquilas.
Naquela tarde fria de dezembro, a casa parecia suspensa no tempo. Lá fora, a geada cobria os ramos despidos e o vento arrastava folhas secas pelas ruas silenciosas. Mas, no interior, a cozinha fervilhava de vida: o cheiro do pão acabado de cozer misturava-se ao aroma doce da canela, da casca de laranja e do vinho quente que repousava ao lume, libertando lentamente a promessa de um Natal aconchegante.
A mesa estava já preparada na sala, coberta com uma toalha branca bordada há muitos anos pela avó, agora guardada como tesouro de família. Sobre ela, dispunham-se ramos de azevinho, pinhas apanhadas no bosque e maçãs brilhantes, misturadas com romãs e uvas que davam ao conjunto a cor de uma festa antiga. Ao centro, três velas altas ardiam, lançando uma luz trémula que dançava nos rostos reunidos.
Num recanto escondido do bosque, vivia uma menina misteriosa, de cabelo cor de cobre e asas de cristal. Chamava-se Lia. Ninguém sabia de onde ela vinha, mas os animais da floresta diziam que nascera da névoa de uma manhã tranquila, junto ao riacho.
Sentava-se habitualmente numa pedra lisa, com os pés mergulhados na água fresca. O seu vestido azul, salpicado de flores miudinhas, dançava ao sabor da brisa. E o cabelo, solto e leve, escondia sempre pequenos segredos: pétalas, sementes e sorrisos de borboletas.
O riacho onde vivia chamava-se Água Clara, e era o coração da floresta. Todos bebiam da sua frescura: os veados, as raposas, os ouriços, e até os pássaros mais pequeninos.
Mas, um dia, as águas começaram a perder o brilho.
O vento de outono arrastava folhas douradas pela calçada, ondulando-as pelo ar como se estas hesitassem entre ficar ou deixar-se ir. Margarida aconchegou mais o casaco, mas, ao contrário de outras vezes, não foi por sentir frio. Era um hábito. Um reflexo antigo de quando ele a atraía a si e lhe dizia que o vento era demasiado forte, e que ela devia abrigar-se. Como se fosse uma pessoa frágil. Como se precisasse de ser protegida de tudo.
Até ao dia em que percebeu que as suas escolhas já não eram suas. Que, quando dizia que queria café em vez de chá, ele teimava em impor a sua vontade. Primeiro, como simples sugestão.
A biblioteca era um universo em expansão, um labirinto intemporal de estantes, onde cada prateleira transbordava de cores e de texturas, e cada livro aguardava em silêncio o momento de ser lido. Algumas capas prometiam viagens misteriosas, mundos a explorar, emoções à flor da pele. Outras, mais discretas, ofereciam a quietude necessária à reflexão.
Inês sentou-se no soalho de madeira, cruzando as pernas entre desalinhadas pilhas de livros. A organização não importava — pelo menos não a convencional. A única ordem era a que a sua imaginação ia desenhando, como um trilho invisível que serpenteava entre as páginas, ligando narrativas que nunca se haviam encontrado antes.
Há dias em que julgamos que todo o lixo do mundo nos cai em cima depois ao chegarmos à varanda avistamos as crianças correndo no molhe enquanto cantam não lhes sei o nome uma ou outra parece-se comigo quero eu dizer:
Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.
Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore.
Não que não lhe apetecesse continuar a lê-lo, antes pelo contrário, quando gostava muito de um livro, ela fechava-o de quando em vez e ficava quietinha. Era como se as palavras que acabara de ler fossem como chuva miúda que se vai entranhando lentamente no corpo, refrescando-o.
Ela sempre fora apreciadora de chuva de palavras, daquelas palavras que ficam horas, dias e mesmo para sempre, a bailar cá dentro.
A Escola da Cabeça d’Águia era uma casa com uma porta, duas janelas e mais nada. No primeiro dia em que me levaram até lá, fiquei feliz porque ia encontrar crianças da minha idade. Elas lá estavam, divertidas, barulhentas, grandes olhos, faces magras. Também era a primeira vez que me colocavam na mão uma caneta de tinta de molhar e ela escorregou-me da mão, borrou a folha, e rebolou pelo chão. Tive de gatinhar debaixo das carteiras para a encontrar.
Tita, a ratita, tem mãos de fada. Ela faz maravilhosas roupas a partir de quase nada. Mas, agora, já todos os ratinhos das redondezas estão servidos com as roupas de que precisam. Por isso, Tita ficou sem trabalho.
— Tenho de ganhar a vida! — exclama ela, muito preocupada.
Então, resolve percorrer o campo, em busca de novos clientes. Enfrentando vento, chuva e neve, ela bate de porta em porta. Que pouca sorte! Nenhum ratinho precisa de roupa nova.
— Tu fizeste-nos um formidável guarda-roupa, no ano passado. Ainda serve perfeitamente para passar outro Inverno.
— Porque é que só fazes roupas para ratinhos? — pergunta-lhe Heitor, o senhor toupeira. — Porque não fazes roupas para os outros animais?
Há um restolhar dormente entre troncos e ramos (…) O ar cheira a peras. A casa dos avós. O bafo preguiçoso do burro encostado ao poço. O cesto de ameixas luzidias como bolas de vidro amarelas e vermelhas.
Os bons escritores são aqueles que conseguem colocar os leitores na pele do outro. Creio ser essa a maior virtude da leitura. Ao entrar na pele de diferentes narradores, ao sentir-se parte de outras vidas, o leitor vai-se percebendo também parte da restante Humanidade. Tenho para mim, e atrevo-me a partilhar com vocês esta convicção — ingenuidade, dirão os cínicos —, que os grandes leitores tendem a ser menos inclinados à violência. Primeiro, porque a violência é sempre um recuo do pensamento. Depois, porque a leitura, enquanto exercício de alteridade, aproxima as pessoas.
Digo muitas vezes que a minha primeira biblioteca foi a minha avó materna.
A minha avó não sabia ler e a única palavra que, com imensa dificuldade, conseguia escrever era o seu próprio nome. Nada mais do que isso.
Mas tinha dentro da cabeça um inteiro reportório do cancioneiro oral com os seus contos, os romances tradicionais, as múltiplas formas da lírica popular, que não se cansava de transmitir.
Vivemos numa época de especialização do conhecimento, causada pelo prodigioso desenvolvimento da ciência e da técnica, e da sua fragmentação em inumeráveis afluentes e compartimentos estanques. A especialização permite aprofundar a exploração e a experimentação, e é o motor do progresso; mas determina também, como consequência negativa, a eliminação daqueles denominadores comuns da cultura graças aos quais os homens e as mulheres podem coexistir, comunicar-se e sentir-se de algum modo solidários.
Todos os dias atravessamos a mesma rua ou o mesmo jardim. Todas as tardes os nossos olhos batem no mesmo muro avermelhado, feito de tijolos e tempo urbano.De repente, num dia qualquer, a rua dá para um outro mundo, o jardim acaba de nascer, o muro fatigado se cobre de signos. Nunca os tínhamos visto e agora ficamos espantados por eles serem assim: tanto e tão esmagadoramente reais.
Há muitos e muitos milhares de anos, a poesia aproximou-se do homem e tão próximos ficaram, que ela se instalou no seu coração. E começaram a ver o mundo conjuntamente estabelecendo uma inseparável relação que perdurará para sempre.
Poesia e homem criaram assim uma cúmplice e indissociável relação por todo o mundo, embora a História pouco se tenha disso apercebido.
Na primeira semana de aulas, a nossa professora anunciou que iríamos aderir a um programa especial de leitura no decorrer do ano letivo. Como a professora Mary acha que a leitura é a melhor atividade a que nos podemos dedicar, prometeu encontrar um livro adequado para cada um de nós. A nossa escola tem de ler 1000 livros até 12 de junho. Mr. Wiggins, o diretor, até prometeu tingir o cabelo de púrpura e dormir no telhado da escola se conseguíssemos ler esses livros todos. Mas eu tenho um pequeno problema… DETESTO LER.
No sítio onde se guarda a lenha há teias de aranha, enormes: lembram uma toalha de renda!
O musgo cresce junto à nora, e o céu, ali, é um céu verde, feito da folhagem da maior nogueira que deve existir na terra. Porque o milagre maior é, realmente, esta nogueira.
Na horta há ainda outra coisa espantosa! Uma coisa que maravilha e não me canso de olhar: uma velhinha, a dona de tudo aquilo.
Quando acabo de ler um livro há dois momentos que me dão um particular gozo. O primeiro, voltar a ler as páginas iniciais para me lembrar de como tudo começou. Daí a expressão: a aventura da leitura.
E como não sou pessoa para ler um livro de uma assentada, acabo por associar vários momentos do livro às situações do quotidiano. Talvez seja por isso que dizemos que um determinado livro é muito bom (e, por vezes, até juramos a pés juntos que é genial), porque encontramos as respostas que procuramos precisamente durante a leitura desse livro.
Começar a ler foi para mim como entrar num bosque pela primeira vez e encontrar-me, de repente, com todas as árvores, todas as flores, todos os pássaros. Continuar a ler →
A minha família e eu vivemos num sítio pertinho do céu. A nossa casa fica situada num local tão alto que quase nunca vemos ninguém, a não ser falcões a planar e animais a esconder-se por entre as árvores. Chamo-me Cal e não sou nem o mais velho nem o mais novo dos irmãos. Mas, como sou o rapaz mais velho, ajudo o meu pai a lavrar e a ir buscar as ovelhas quando, às vezes, elas se escapam. Também me acontece trazer a vaca para casa ao pôr-do-sol, e ainda bem que o faço. É que a minha irmã Lark passa o dia todo a ler. Continuar a ler →
A literatura para crianças é como uma semente de palmeira que, há mais de seis meses, um africano me vendeu, ali, para os lados do Martim Moniz. Num cesto pequenino tinha dez sementes ovais, duras, quase esquecidas. Era o seu negócio, tudo o que possuía, possivelmente o que lhe restava do seu país de sol e florestas onde talvez não regresse mais. Afagava as sementes, tocava-lhes e garantia:
Na vitrina lê-se Livros Raros e Usados sob o azul inclinado de um toldo – mesmo em frente à glacial cafetaria de franchise onde o dia destrata o desejo e não se pode fumar. Subo aos pequenos gabinetes mergulhados no doce bafio da literatura e percorro de A a Z as espinhas estreitas
Nunca a terra assim se disse na beleza calma das águas na melopeia frágil dos seixos raiados de azul e prata e nos meus olhos que ulcerados de aparente sem sentido devagarinho pousam nas raízes dos lírios adormecidos
Encantei-me com as nuvens, como se fossem calmas locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo eram frontes do universo deslumbrantes. Em silêncio via-as deslizar num gozo obscuro e luminoso, tão suave na visão que se dilata.
Os livros. A sua cálida, terna, serena pele. Amorosa companhia. Dispostos sempre a partilhar o sol das suas águas. Tão dóceis, tão calados, tão leais, tão luminosos na sua branca e vegetal e cerrada melancolia. Amados como nenhuns outros companheiros da alma. Tão musicais no fluvial e transbordante ardor de cada dia.
Não devíamos ter medo de ler de mais ou de menos.
Seria aconselhável entregarmo-nos à leitura da mesma forma que nos alimentamos ou que fazemos exercício.
Ler e imaginar são duas das três portas principais — a curiosidade é a terceira — por onde se acede ao conhecimento das coisas.
Sem antes ter aberto de par em par as portas da imaginação, da curiosidade e da leitura — não esqueçamos que quem diz leitura diz estudo—, não se vai muito longe na compreensão do mundo e de si mesmo.
Desejas um tapete mágico que, num abrir e fechar de olhos, te leve aos confins da Terra? Uma máquina de viajar no tempo, para o futuro a haver, desconhecido, para o passado histórico ou para aquele em que os animais falavam?
Pode-se deixar de escrever, mas não de ler. Quando se lê, há sempre qualquer coisa mais para acrescentar ao nosso entendimento do mundo – ainda que também a experiência da leitura mude com o tempo.Continuar a ler →
Não viajo sem livros, nem na paz, nem na guerra… pois não se pode dizer o quanto eu me repouso e demoro nessa consideração de que eles estão ao meu lado para me darem prazer quando preciso e em reconhecer quanta ajuda eles me trazem à vida.
Escrevo porque tenho uma crença pueril na imortalidade das bibliotecas e na forma como os meus livros assentam na prateleira. Escrevo porque é entusiasmante transformar todas as belezas e riquezas do mundo em palavras. Escrevo para ser feliz.
Era uma vez um livro triste. E não era triste pelo que contava nas suas páginas e ilustrações, mas sim porque tinha um desejo imenso de ser lido e muito poucas pessoas pareciam ter vontade de o ler. Por isso, era um livro triste, e não se envergonhava de o ser, perguntando mesmo com frequência:
— Se um livro existe para ser lido e a mim não me leem, como posso eu andar contente da vida? Continuar a ler →
Vou chamar-lhe Walter, embora esse não seja o seu verdadeiro nome.
Walter era uma criança esperta que não se empenhava muito nos estudos.
Um dia, a sua vida mudou radicalmente. O pai abandonou-o e aos irmãos, deixando a mãe com três rapazes para cuidar. Como o Estado não fornecia qualquer tipo de apoio a mães trabalhadoras, a mãe de Walter trabalhava em vários lados a fim de assegurar o sustento dos filhos. À medida que as férias grandes se aproximavam, começou a preocupar-se com os perigos a que os filhos estariam sujeitos ao vaguear pelas ruas enquanto ela trabalhava.
Yacoub era pobre, mas despreocupado e feliz, livre como um saltimbanco, sonhando sempre cada vez mais alto. Em boa verdade, estava apaixonado pelo mundo. Porém, o mundo à sua volta parecia-lhe sombrio, brutal, seco de coração, de alma obscura, e sofria com isso.
Abstrair-se do mundo e ficar agarrado a uma boa narrativa já é, por princípio, uma vantagem sem igual. Mas também há recompensas físicas para quem lê, redução de stress incluída.
Ler um livro não é mais importante que ver, por exemplo, um filme, é apenas diferente. Só que é nessa “diferença” que está tudo, ou quase tudo.
Não só a liberdade de leres o livro como quiseres, de trás para diante ou de diante para trás, de voltares ao princípio ou de o fechares e recomeçares a lê-lo no dia seguinte, mas também a liberdade de te leres a ti mesmo nele, de imaginares tu (por mais pormenorizadamente que o autor os descreva) cada personagem, cada lugar, cada acontecimento.
E de, nele, viajares, na companhia das palavras do escritor, por mundos reais e imaginários, dentro e fora de ti, que só a ti pertencem, indo e vindo como e quando quiseres entre esses mundos e o teu mundo de todos os dias.
Porque, num livro, só aparentemente é o escritor quem conduz a história, na realidade tu é que vais ao volante, a história ou poema que lês é mais teu e dos teus sentimentos e tuas emoções que dos do escritor.
De tal modo que, se voltares a ler o mesmo livro passado muito tempo, o livro já se transformou, já é outro, só porque tu também já te transformaste e já és também outro.
É por isso que se diz que todos os livros são sempre muitos, diferentes livros, tantos quantos as pessoas que os lerem, ou tantos quantas as vezes uma mesma pessoa os ler.
E isso é uma coisa maravilhosa, descobrir que nós, com a nossa imaginação e o nosso coração, é que estamos a escrever os livros que lemos.
O escritor moçambicano Mia Couto fala sobre sua experiência com a escuta de narrativas e sobre o valor que atribui a isso para a infância.
Em entrevista dada à Revista Brasileiros, o consagrado escritor chama atenção para o valor da escuta de histórias pelas crianças, especialmente quando narradas por outras pessoas. Dentre as razões para isso, o autor salienta a importância da relação interpessoal que se estabelece quando alguém conta uma história a uma criança, algo que a tecnologia não tem como substituir.
Falamos em ler e pensamos apenas nos livros, nos textos escritos.
O senso comum diz que lemos apenas palavras. Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo.
Nós lemos emoções nos rostos, lemos os sinais climáticos nas nuvens, lemos o chão, lemos o Mundo, lemos a Vida. Tudo pode ser página. Depende apenas da intenção de descoberta do nosso olhar.
Queixamo-nos de que as pessoas não leem livros. Mas o deficit de leitura é muito mais geral. Não sabemos ler o mundo, não lemos os outros.
Eu poderia ter o mesmo pai, a mesma mãe, ter frequentado o mesmo colégio e tido os mesmo professores, e seria uma pessoa completamente diferente do que sou se não tivesse lido o que li.
A vontade de se evidenciar foi sempre muito forte nos adolescentes, que se divertem com o perigo e com a transgressão. De lamentar que não se lembrem de que, para muitos, isso levou à doença e à morte. A atitude de desobediência face às orientações dos professores costuma ter como resultado a falta de aproveitamento e consequente ignorância. O que é igual a um futuro sem perspetivas.
Clara vive no Brasil.
Não possui quase nada. Tem pele de âmbar e cabelos pretos. Veste uma t-shirt grande e, nos pés, traz sandálias de borracha, faça chuva ou sol.
Clara tem doze anos. Trabalha num orfanato. A sua função é limpar a cozinha e, de vez em quando, pode fazer de mãe dos mais pequeninos. E gosta muito disso.
À quinta-feira, é o dia de descanso de Clara. É então que sai…
A cinquenta metros, perto de um banco que está fechado, estão todos juntos à espera dela. Olham uns para os outros, sorriem, regalam- se de antemão.
São os seus amigos: Lúcia, Ângelo e Ana. Não têm casa e dormem onde calha, nas ruas do Rio.
Lúcia tem oito anos. Os seus cabelos são como ninhos de andorinha. Está sempre a rir e a mexer as mãos e os pés.
Ângelo é pequeno mas muito forte para os seus onze anos. Um dia, conseguiu mesmo levantar uma bicicleta. Está sempre descalço. Caminha sem dificuldade sobre as pedras. Canta as canções escritas por aqueles que viajaram e viram muitos países. Canta muito bem, o Ângelo.
Ana é a mais bem-comportada. Não fala muito. Tem doze anos, tal como Clara, que conheceu há muitos anos naquele sítio, diante do banco.
Por vezes, Lúcia, Ângelo e Ana vão trabalhar na produção do algodão. Outras vezes, varrem as ruas. Ou então, os pescadores chamam-nos à praia para puxarem as redes. Depois, encontram-se, sonham em conjunto, com o nariz no ar, a olhar para as nuvens e a contar os dias até quinta-feira.
Ângelo, Lúcia e Ana têm muitos amigos na rua. Alguns respiram uma cola contida em garrafas de plástico, o que os faz sorrir sem razão nenhuma.
Quando Clara encontra os amigos, vão todos a correr para a praia. Atiram areia à cara uns dos outros. Cantam a cantiga Pescadores dos Três Mares e comem o pão que os turistas lhes dão. Lúcia, Ângelo e Ana não querem daquela cola que faz esquecer os problemas.
Eles têm Clara. Clara é a mercadora de sonhos. Não é que os venda realmente; em vez disso, dá-os de prenda.
Clara sonha muito alto com lugares maravilhosos. Praias compridas e douradas, barcos, papagaios de papel e papagaios de verdade.
Montanhas encantadas cobertas de gelo e criaturas estranhas, onde sopra um vento mágico, do norte. Um vento que te adormece e te acorda cem anos mais tarde.
Cidades futuras cheias de luz. De carros que voam e de parques de estacionamento floridos. E de um fogo de artifício feito de pequenos comboios brilhantes, de pizarias e de arranha-céus espelhados.
E Clara fala-lhes de um Rio sem adultos, onde só há crianças gentis e alegres, que têm os dentes todos. Que saltam sobre os carros e invadem as lojas de bombons.
Ela oferece-lhes vales inteiros de árvores carregadas de frutos, com quatro sóis amarelos no meio do céu e com camponeses ricos, vestidos de comerciantes.
E Clara transforma os monumentos antigos da cidade em palácios das Mil e Uma Noites, e os gatos que passam em tigres da Malásia.
Clara conta os seus sonhos durante horas.
Ela estudou quatro anos na escola e lê todos os livros que encontra.
Agora, é tarde. Clara levanta-se, sacode a areia das mãos e volta para o orfanato. Os amigos escutaram-na, boquiabertos. Riram e choraram. E os olhos deles arregalar-se-ão de novo na próxima quinta-feira.
Para eles, não há cola.
Eles têm Clara.
E muitos sonhos bons para viverem ainda…
Béatrice Alemagna Le trésor de Clara Paris, Autrement Jeunesse tradução e adaptação
És terno quando mostras afecto pelas pessoas e pelos animais
e tomas cuidado para não magoar ninguém
com palavras ou atitudes desagradáveis.
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Era uma vez um violino. Tinha música azul. Tocava-o um músico de cabelo muito negro e longo e mãos longas e brancas. Pegava no arco e todo o azul se desenrolava no ar. Quando a música era mais triste, o azul ia ficando roxo e depois vermelho cor de sangue. Se a música era mais alegre, o azul ficava claro, verde, às vezes até amarelo.Continuar a ler →
De vez em quando, procura um espaço de silêncio. O barulho excessivo é prejudicial.
Um lugar tranquilo
Por vezes, uma pessoa precisa de um lugar tranquilo. Um sítio para descansar os ouvidos de campainhas a tocar, de apitos a silvar, de adultos a falar, de motores a roncar, de buzinas a apitar, de rádios a tocar, de adultos… Bom, até os adultos precisam de um lugar tranquilo. Mas encontrar um pode ser difícil. Tens de saber onde procurar.
Podias procurar por baixo de um arbusto, de um lilás, no teu quintal. Debaixo deles, todos os sons do mundo parecem abafados e distantes. E podes ser um pirata numa ilha deserta, à procura de um tesouro enterrado!
O teu lugar tranquilo podia ser um arbusto.
Até que alguém te chama para ires limpar o teu quarto. Então…