Literacia dos media: o guia essencial para o século XXI

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1. Introdução à literacia no século XXI

As tecnologias de informação e comunicação evoluem a um ritmo que, frequentemente, ultrapassa a nossa capacidade de definir as competências necessárias para as navegar com segurança. No atual ecossistema mediático, a clareza terminológica não é apenas uma questão académica, mas uma necessidade estratégica para quem desenha políticas públicas. Este documento foi concebido como um glossário pedagógico e rigoroso para apoiar decisores políticos e defensores da causa na promoção de mudanças legislativas. O objetivo é claro: impulsionar uma reforma educativa que garanta a literacia dos media a todos os alunos do ensino básico e secundário, preparando-os para os desafios de uma sociedade digitalizada.

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2. O que é a literacia dos media

A literacia dos media deve ser entendida como o “termo chapéu” ou o conceito guarda-chuva que abriga diversas competências críticas. Define-se pela capacidade de descodificar mensagens mediáticas e os sistemas complexos onde estas operam; avaliar como tais mensagens influenciam os nossos pensamentos, comportamentos, saúde e a própria sociedade; e criar conteúdos para informar ou expressar ideias de forma ponderada, ética e segura.

A definição tem evoluído de uma visão puramente funcional para uma perspetiva de participação democrática:

A literacia dos media é a capacidade de aceder, analisar, avaliar, criar e agir utilizando todas as formas de comunicação. (National Association for Media Literacy Education – NAMLE)

Recentemente, jurisdições como Connecticut expandiram esta visão para sublinhar o papel cívico destas competências:

A literacia dos media significa a capacidade de aceder, analisar, avaliar, criar e participar nos media em todas as formas, compreendendo o seu papel na sociedade e desenvolvendo competências de investigação e autoexpressão essenciais para a participação e colaboração numa sociedade democrática. (Connecticut House Bill 6762, 2023)

3. Literacia da informação e literacia noticiosa: os pilares da verdade

Estes subdomínios da literacia dos media são fundamentais para a triagem da qualidade e da veracidade do que consumimos diariamente.

Literacia da informação Baseada nos princípios da American Library Association, esta competência permite identificar quando a informação é necessária e como localizá-la e avaliá-la eficazmente. Um cidadão literato nesta área sabe distinguir fontes legítimas de fontes enviesadas. Por exemplo, saberá determinar se o site oficial do Bureau of Labor Statistics é a fonte mais fidedigna para consultar dados sobre o emprego no setor agrícola, em vez de confiar em informações de fontes secundárias ou não verificadas.

Literacia noticiosa Este subdomínio foca-se no conhecimento profundo da prática jornalística e da indústria dos meios de comunicação social. O objetivo é capacitar o indivíduo a julgar a credibilidade da informação factual. De acordo com o News Literacy Project:

A literacia noticiosa é a capacidade de determinar a credibilidade das notícias e outras informações e de reconhecer os padrões do jornalismo baseado em factos para saber no que confiar, partilhar e agir.

O uso destas competências implica questionar a independência da fonte, a verificação de factos por profissionais e a fiabilidade da informação para a tomada de decisões na vida pública.

4. O ecossistema digital: literacia digital, redes sociais e inteligência artificial (IA)

No ambiente digital, a competência técnica é insuficiente se não for acompanhada pelo pensamento crítico.

Literacia digital Embora muitas vezes confundida com a mera destreza no uso de dispositivos (como tablets ou computadores), a literacia digital de cariz crítico foca-se na criação e consumo de informação através destas plataformas. É um domínio onde o contexto político é vital: o Departamento de Educação dos EUA sublinha que o pleno entendimento deste âmbito é essencial devido ao financiamento público em jogo.

A literacia digital refere-se às competências necessárias que, ao utilizar a tecnologia digital, permitem aos utilizadores encontrar, avaliar, organizar, criar e comunicar informação; e, ainda, desenvolver a cidadania digital e o uso responsável da tecnologia.

Complementarmente, a UNESCO define-a como:

A capacidade de aceder, gerir, compreender, integrar, comunicar, avaliar e criar informação de forma segura e adequada através de tecnologias digitais para o emprego, empregos dignos e empreendedorismo.

Literacia das redes sociais Esta é a aplicação da literacia mediática especificamente nas plataformas sociais. Dado que estas redes são hoje o principal veículo de consumo e partilha de informação, esta literacia engloba as vertentes digital, noticiosa e da informação. Exige que os alunos compreendam que a facilidade de publicação traz uma responsabilidade acrescida na disseminação de conteúdos e na gestão dos impactos destes na saúde mental e na segurança coletiva.

Literacia para a inteligência artificial (IA) A IA não é uma literacia nova, mas sim uma componente da literacia dos media. Envolve o uso do pensamento crítico perante a “média sintética” (conteúdos gerados por IA). Embora existam definições legislativas recentes, é necessário um olhar crítico sobre as mesmas:

A literacia em Inteligência Artificial (IA) significa o conhecimento, as competências e as atitudes associadas ao funcionamento da inteligência artificial, incluindo os seus princípios, conceitos e aplicações, bem como a forma de utilizar a inteligência artificial, incluindo as suas limitações, implicações e considerações éticas. (Estatutos da Califórnia, 2024)

Como especialistas, notamos que esta definição da Califórnia de 2024 apresenta uma lacuna crítica: ela omite a aplicação explícita de competências de pensamento crítico no consumo de media — como a investigação rigorosa da fonte — e a necessidade de reflexão consciente durante a criação de conteúdos com IA.

5. Cidadania e bem-estar: o impacto na sociedade e na saúde

As literacias mediáticas são o motor para uma participação saudável e ativa na vida pública.

Cidadania digital Este é o resultado prático da literacia mediática aplicada à esfera pública. Segundo Anne Collier, a cidadania e os direitos humanos não podem ser plenamente exercidos sem as literacias que o ambiente mediático atual exige. No Texas, a legislação define este conceito com clareza:

A cidadania digital refere-se à aplicação dos padrões de comportamento online apropriado, responsável e saudável, incluindo a capacidade de aceder, analisar, avaliar, criar e agir em todas as formas de comunicação digital.

Bem-estar digital Esta área aborda os impactos físicos e emocionais do uso dos media. Com o apoio do Digital Wellness Lab da Harvard Medical School, definimo-lo como:

Um estado intencional de saúde física, mental e social que ocorre com o envolvimento consciente com o ambiente digital e natural.

O foco reside no desenvolvimento de um uso equilibrado da tecnologia que sirva os objetivos de saúde e vida do indivíduo, prevenindo o consumo passivo ou prejudicial.

6. Conclusão: a convergência das literacias

A capacidade de navegar no século XXI depende da convergência de todas estas competências. Elas não são isoladas; interligam-se para formar um cidadão resiliente, capaz de distinguir o facto da ficção, proteger a sua integridade mental e participar de forma construtiva na economia e na democracia. A literacia mediática é o alicerce indispensável para garantir que o sistema de educação pública assegura a todos os alunos as competências de literacia do século xxi de que necessitam para a sua saúde, bem-estar, participação económica e cidadania.

O sexo, a sátira e o som: a revolução “Pop” da lírica medieval

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Introdução: O Despertar de uma Identidade Poética

Entre os séculos XII e XIV, a Península Ibérica não era apenas um tabuleiro de xadrez para cavaleiros e cruzadas. Enquanto as espadas cruzavam na Reconquista, nos bastidores das cortes e nas margens dos rios ocorria uma revolução literária sem precedentes. As cantigas galego-portuguesas não são meras relíquias de museu; foram o “Spotify” e as “diss tracks” de uma era vibrante. O que estes poetas cantavam sobre o desejo proibido, a traição política e o insulto descarado de há 800 anos permanece, de forma fascinante, incrustado no nosso ADN cultural.

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1. Quando os Reis eram as Estrelas do Rock (O Espetáculo Trovadoresco)

Esqueça a imagem do poeta solitário com uma pena. A lírica medieval era um espetáculo multissensorial que unia música, dança e poesia. No topo da hierarquia estava o Trovador, o fidalgo culto que compunha texto e melodia por “galantaria e deleite estético”. Contudo, o palco era partilhado: o Segrel, um fidalgo de menor linhagem, interpretava as suas próprias obras, enquanto o Jogral, de classe popular, era o músico profissional que executava as peças. A presença feminina era garantida pelas Soldadeiras (ou jogralesas), dançarinas e cantadeiras a soldo — como a lendária Maria Balteira — que muitas vezes enfrentavam o estigma social pela sua “arte” provocadora.

O prestígio deste movimento era tão avassalador que atraiu monarcas. D. Dinis, o “Rei-Poeta”, não foi apenas um mecenas; foi o primeiro monarca português verdadeiramente alfabetizado, assinando o seu nome completo e elevando a língua ao estatuto de arte suprema.

“D. Dinis I de Portugal […] foi o Rei-Poeta devido à sua obra literária. […] Cultivou as Cantigas de Amigo, de Amor e a sátira, contribuindo para o desenvolvimento da poesia trovadoresca na península Ibérica. […] Pensa-se ter sido o primeiro monarca português verdadeiramente alfabetizado, tendo assinado sempre com o nome completo.”

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2. A Cantiga de Amigo e o “Fingimento” Masculino

Cantiga de Amigo é a joia mais original da nossa lírica. Trata-se de um género autóctone onde o trovador (homem) assume a voz de uma dona virgo (donzela). Esta jovem, descrita como velida (bela) ou bem-talhada (de corpo bem feito), exprime a sua coita — o sofrimento amoroso — pela ausência do seu “amigo” (namorado).

A ironia é profunda: estamos perante um universo “pretensamente feminino” construído sob medida para o prazer auditivo masculino da corte. Nestas composições, a natureza não é um cenário estático; o mar de Vigo, as fontes e os arvoredos tornam-se interlocutores e confidentes da donzela. Este “fingimento poético” permitia aos homens explorar uma sensorialidade e um erotismo que a rigidez das cantigas de amor, de influência provençal e focadas na “senhor” inalcançável, raramente permitia.

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3. A Arte do Insulto: O Escárnio e Maldizer como Arma de Combate

Se pensa que a Idade Média era apenas “amor cortês”, as Cantigas de Escárnio e Maldizer são o seu choque de realidade. Representando mais de um quarto do património preservado, estas sátiras eram autênticas armas de combate usadas para ridicularizar rivais ou denunciar peripécias sexuais e corrupção política.

A distinção técnica era o segredo da eficácia:

• Escárnio: A crítica é indireta e velada, recorrendo ao equívoco (ou hequivocatium), palavras “cobertas” com duplo sentido que exigiam uma audiência astuta.

• Maldizer: É o ataque frontal. Sem filtros e com recurso a palavrões e obscenidades, o trovador “dizia mal” de forma aberta e ostensiva.

O riso e a paródia eram ferramentas de coesão social e de ataque político, provando que o poder das palavras para destruir reputações já existia muito antes das redes sociais.

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4. Galego-Português: A Língua que Uniu Reinos antes das Fronteiras

Antes de Portugal e Espanha serem o que são hoje, existia uma unidade linguística que ignorava fronteiras políticas. O Galego-Português era a língua literária por excelência de toda a faixa ocidental da península, usada inclusivamente por monarcas de Castela e Leão, como Afonso X, o Sábio.

A investigadora Carolina Michaëlis de Vasconcelos descreveu-o como uma “afinidade primitiva de lusitanos e galaicos”, visível na uniformidade da língua desde a Galiza até ao Algarve. Contudo, foi a visão estratégica de D. Dinis que mudou o curso da história ao instituir o português como língua oficial da chancelaria. Esta decisão política transformou o falar poético num instrumento de soberania, marcando a transição definitiva para o português moderno e a afirmação de uma identidade nacional autónoma.

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5. O Milagre dos Cancioneiros e a Salvação Italiana

Como é que 1680 cantigas sobreviveram oito séculos? A resposta é digna de uma investigação de arqueologia cultural. O património que hoje estudamos deve-se ao “trabalho de detetive” do humanista italiano Angelo Colocci, que no século XVI encomendou cópias de manuscritos medievais que acabariam por desaparecer.

Chegaram até nós três grandes monumentos:

1. Cancioneiro da Ajuda: O mais antigo, que permanece como um fóssil fascinante: está inacabado, com iluminuras apenas desenhadas e espaços vazios onde deveriam estar as pautas musicais.

2. Cancioneiro da Biblioteca Nacional e Cancioneiro da Vaticana: As cópias italianas que salvaram cerca de 80% do legado que conhecemos.

A música, que se julgava perdida para sempre, foi recuperada através de milagres: o Pergaminho Vindel e o Pergaminho Sharrer (com cantigas de D. Dinis), fragmentos de pergaminho encontrados por acaso em encadernações de livros antigos, devolvendo-nos a sonoridade original do século XIII.

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Conclusão: O Eco dos Trovadores no Presente

O legado trovadoresco não morreu com o fim da Idade Média; ele sobrevive no conceito de contrafactum — a reutilização de melodias — e na alma da nossa música. De Amália Rodrigues a Zeca Afonso, a lírica moderna portuguesa bebeu diretamente da fonte medieval para cantar a saudade, o amor e a revolta.

A necessidade humana de transformar a emoção em canto permanece inalterada. Hoje, quando ouvimos uma canção de intervenção ou uma balada sobre a ausência, estamos a ouvir o eco de uma pastora junto à fonte ou o veneno de um segrel na corte. Na música contemporânea que ouve hoje, consegue identificar o “fingimento” de uma cantiga de amigo ou a agressividade de um maldizer?

O Império da Mediocridade e o Triunfo da Incompetência

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A ascensão do império dos medíocres

A contemporaneidade parece sucumbir a uma vaga implacável e silenciosa: a “pandemia da mediocridade”, tal como diagnosticada por Esther Peñas. Sob esta égide de nivelamento por baixo, assistimos à consolidação do “império dos medíocres”, um ecossistema social onde o talento, o virtuosismo e a destreza intelectual deixaram de suscitar assombro para se tornarem elementos de fricção. Vivemos a inversão absoluta do ideal platónico da Aristocracia — o governo dos melhores — em prol de uma estrutura que repele o brilho.

Neste novo paradigma, as ideias fulgurantes são remetidas ao ostracismo e o carisma pessoal carece de audiência. Como lapidarmente se afirma no texto de apoio, no império da mediania, “o seu talento, o seu virtuosismo, a sua destreza para qualquer disciplina não pontuam, nem assombram, nem fascinam: é a sombra da mediocridade”. Esta desvalorização do mérito não é um mero desvio estético, mas uma reconfiguração da própria autoridade política.

O princípio de Peter e a mecânica da incompetência

A suspeita de que os medíocres detêm as rédeas do mundo encontra o seu fundamento teórico no “princípio de Peter”, hipótese formulada pelo pedagogo Laurence J. Peter nos anos sessenta. A mecânica deste fenómeno é de uma simplicidade inquietante: «com o tempo, todo o posto acaba por ser desempenhado por alguém incompetente para as suas obrigações».

Este processo de degradação institucional ocorre porque o sucesso num determinado cargo é recompensado com a promoção para uma função de maior responsabilidade, para a qual o indivíduo pode não possuir as competências necessárias. O ciclo repete-se até que cada agente alcance o seu nível máximo de incompetência, onde permanece estagnado. O resultado é um sistema bloqueado, gerido por uma elite que, por definição, já não é capaz de exercer as funções que lhe foram confiadas, transformando a incompetência na norma de governação global.

Mediocracia: a conformidade como passaporte para o poder

O filósofo Alain Deneault, no seu ensaio Mediocracia: quando os medíocres tomam o poder, argumenta que a ascensão ao topo não depende da sabedoria, mas da mestria em navegar na mediania. Segundo Deneault, a esfera do poder é hoje reservada a quem adota uma de duas posturas: o acatamento acrítico das normas para salvaguardar a sua posição ou a manipulação invisível das regras que não se tem capacidade de cumprir.

Esta “mediocracia” infiltra-se em todos os poros da sociedade — do meio académico ao económico — garantindo que os argumentos que confirmam o status quo prevaleçam invariavelmente sobre a originalidade. A mediocridade triunfa pelas seguintes razões:

• Validação do existente: Favorecem-se argumentos que confirmem teorias e estruturas já estabelecidas.

• Aversão ao risco: Evitam-se sistematicamente críticas profundas ou soluções que possam comprometer a estabilidade do sistema.

• Esvaziamento espiritual: As propostas perdem a sua “relevância espiritual”, tornando-se meros instrumentos de manutenção burocrática.

• Neutralização do dissenso: O triunfo pertence a quem não questiona, garantindo que soluções originais e potencialmente desestabilizadoras nunca cheguem a ser implementadas.

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Donald Trump e o dilema da história: acidente ou mudança estrutural?

A figura de Donald Trump serve de catalisador para a análise de José Ignacio Torreblanca sobre a natureza do poder contemporâneo. O debate divide-se entre uma visão estrutural, que interpreta o giro populista como uma resposta orgânica dos “perdedores da globalização” — trabalhadores do Rust Belt fustigados por perdas salariais —, e uma visão acidentalista, que atribui a sua vitória de 2016 a uma conjunção anómala de fatores, como a desinformação russa e o uso fraudulento de dados pela Cambridge Analytica.

A eleição de 2020 deveria ter funcionado como o “desempate” entre estas teorias. Contudo, os resultados mantiveram-se numa ambiguidade desesperante para os analistas. Apesar de enfrentar um escrutínio marcado por “20.000 mentiras documentadas” e um desrespeito frontal pela ética institucional, Trump obteve 71,3 milhões de votos. A fragilidade do sistema é evidenciada pelas margens ínfimas nos estados-chave, onde a presença da libertária Jo Jorgensen poderia ter alterado o destino do mundo se os seus votos tivessem sido canalizados estrategicamente.

Estado-chaveMargem em 2016 (Votos)Margem em 2020 (Votos)
Michigan10.794 (Vitória Trump)
Wisconsin22.738 (Vitória Trump)20.000 (Vitória Biden)
Pennsylvania44.292 (Vitória Trump)45.000 (Vitória Biden)
Arizona15.000 (Vitória Biden)
Geórgia11.000 (Vitória Biden)

A perversão do sistema: cultura, economia e uniformidade

A hegemonia do medíocre é sustentada por uma perversão económica e cultural. Deneault alerta para o facto de o dinheiro perverter a mente humana, obliterando a “consciência sensorial da diversidade do mundo”. Esta uniformização atinge o seu ápice na reflexão de Herbert Marcuse sobre o sistema onde patrão e operário consomem os mesmos conteúdos. A falha não reside apenas na dissolução das classes, mas no facto de ambos passarem a legitimar os princípios que sustentam o próprio sistema que os nivela.

Somerset Maugham captou a essência desta condição com uma ironia mordaz: “solo una persona mediocre está siempre en su mejor momento” (apenas uma pessoa medíocre está sempre no seu melhor momento). Este paradoxo explica por que a mediocridade é tão resiliente: ao não agir, o medíocre nunca erra; ao não contradizer, evita o conflito; e ao não julgar, limita-se a obedecer, mantendo uma performance constante de funcionalidade sem nunca atingir a excelência.

O perigo de destacar-se numa distopia de iguais

A sátira de Kurt Vonnegut, Harrison Bergeron (1961), oferece o espelho distópico desta realidade. Num futuro onde a Constituição impõe que ninguém seja mais inteligente, forte ou belo que o próximo, o Estado utiliza a violência para garantir a “igualdade”.

O exemplo de George é paradigmático: detentor de uma inteligência acima da média, é forçado a usar um dispositivo que, a cada vinte segundos, emite ruídos agudos para estilhaçar o seu pensamento. O objetivo é impedir que George — ou qualquer outro — tire “partido injusto” das suas capacidades. Esta narrativa ilustra a pressão contemporânea para a uniformidade, onde o destaque individual é visto como uma ameaça ao conforto da coletividade medíocre.

Conclusão: a absolvição da mediocridade

A mediocridade transcendeu a falha individual para se tornar o padrão de triunfo e o motor de preservação do sistema. Aqueles que recusam o pensamento original e abraçam a conformidade são os novos eleitos de uma estrutura que pune o brilho para proteger a sua própria incompetência.

Perante este cenário de resignação intelectual e política, resta-nos uma imagem melancólica. Se uma voz divina ressoasse hoje sobre o mundo, não clamaria pela excelência perdida nem pela reforma dos costumes. Em vez disso, num tom de aceitação resignada perante o triunfo definitivo do comum sobre o extraordinário, proferiria apenas a absolvição final: «Medíocres do mundo, eu vos absolvo!».

Tempo de ecrã na educação infantil: equilibrar a balança digital | Banco Mundial

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1. O dilema digital na primeira infância

Na última década, o ecrã tátil tornou-se o “pacote padrão” e o pacificador predefinido para milhões de crianças com menos de cinco anos. O que antes era uma raridade transformou cada sala de estar, fila de autocarro ou sala de espera num potencial centro de entretenimento digital. Esta mudança é impulsionada por uma conectividade sem precedentes: nas economias da OCDE, as assinaturas de banda larga móvel saltaram de 54 por 100 habitantes em 2012 para 115 por 100 em 2024.

Contudo, esta omnipresença criou um fosso preocupante. Enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda um limite máximo de uma hora de ecrã para crianças de 2 a 5 anos, a média atual já atinge as duas horas diárias. O objetivo deste artigo, enquanto especialistas em desenvolvimento infantil, é transformar a “oportunidade digital” num aliado estratégico, garantindo que o tempo de ecrã não substitua as experiências biológicas fundamentais que moldam o cérebro nesta janela crítica.

2. A realidade global em números

Os dados globais indicam que exceder os limites recomendados não é a exceção, mas a regra. A análise de diversas geografias revela que a maioria das crianças pequenas vive imersa em estímulos digitais muito além do aconselhável:

• Selangor, Malásia: 91% das crianças excedem o limite de 1 hora diária.

• Ceará, Brasil: 69% das crianças ultrapassam as recomendações da OMS.

• Adis Abeba, Etiópia: 62% das crianças em contextos urbanos excedem o limite, contrastando drasticamente com apenas 15% em zonas rurais, onde o acesso e os espaços de lazer diferem.

• Istambul, Turquia: 49% das crianças entre os 25 e 36 meses ultrapassam as diretrizes.

• Estados Unidos: 47% das crianças excedem as 2 horas de lazer digital diário.

A pandemia de COVID-19 acelerou estas tendências, estabelecendo um “novo normal” de dependência digital que persiste mesmo após a reabertura de espaços físicos, exigindo agora uma intervenção consciente.

3. O fenómeno do “babysitter digital”

O uso de dispositivos como “babysitter digital” — entregar um telemóvel para substituir a atenção de um adulto — é uma resposta pragmática a realidades complexas. Pais exaustos utilizam os ecrãs para acalmar crianças em filas de supermercado ou para conseguir concluir tarefas domésticas e profissionais.

É essencial encarar esta prática com empatia. Muitas vezes, o ecrã é o único recurso disponível perante a falta de redes de apoio, o cansaço extremo ou a escassez de espaços de lazer seguros e programas de educação precoce acessíveis. No entanto, esta conveniência imediata colide com a necessidade biológica de exploração prática e interação social. O desafio não é demonizar a tecnologia, mas criar guardas-corpos que protejam as trocas humanas insubstituíveis.

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4. O que a ciência diz sobre o impacto no desenvolvimento

A exposição excessiva aos ecrãs nos primeiros cinco anos de vida altera a trajetória do desenvolvimento de formas mensuráveis e profundas:

Tecnoferência: o ruído nas interações humanas

Este termo descreve como a tecnologia interrompe as trocas de “serviço e retorno” (interações de ida e volta) entre cuidadores e crianças. Quando os pais estão “absorvidos” pelos seus próprios dispositivos, a qualidade do contacto visual e a resposta emocional diminuem, prejudicando o vínculo seguro e a aprendizagem social.

Aquisição da linguagem: a arquitetura do cérebro em risco

Estudos de neuroimagem indicam que o tempo excessivo de ecrã está associado a uma menor integridade da substância branca, especificamente nos tratos que suportam as competências emergentes de literacia. O ecrã desloca as oportunidades de conversação real, resultando numa redução direta do vocabulário expressivo.

Atenção e autorregulação: o impacto dos estímulos acelerados

O ritmo frenético dos conteúdos digitais pode condicionar o sistema de recompensa do cérebro. Estudos revelam que crianças que excedem duas horas de ecrã têm uma probabilidade cinco vezes maior de apresentar problemas de comportamento e uma probabilidade quase seis vezes maior de sofrer de problemas de atenção (Tamana et al., 2019). O uso de media interativos ativa vias dopaminérgicas e esquemas de recompensa variável que tornam a sala de aula real, com o seu ritmo natural, menos estimulante e mais difícil de tolerar.

Arquitetura do sono: o efeito persistente da luz azul

A luz azul suprime a melatonina de forma mais potente em crianças do que em adultos. Em crianças de 3 a 5 anos, essa supressão pode atingir os 99%. Crucialmente, este efeito não desaparece assim que o ecrã se desliga; a supressão da melatonina pode persistir por 50 minutos após o fim da exposição (Akacem et al., 2018), atrasando o início do sono e prejudicando a consolidação da memória.

5. A ciência dos hábitos: porque é que a informação não basta

Saber que o tempo de ecrã é excessivo raramente conduz à mudança. Existe o chamado “fosso entre intenção e ação”: as intenções explicam apenas 20% a 30% da mudança real de comportamento. Os hábitos são ciclos automáticos de Pista (gatilho), Rotina e Recompensa, muitas vezes gravados por gratificações imediatas.

A ciência dos hábitos ensina-nos que comportamentos novos demoram, em média, 66 dias para se tornarem automáticos. A mudança exige substituir a rotina digital por alternativas prontas a usar, retirando o peso da decisão da força de vontade, que é um recurso limitado.

6. Cinco princípios para uma mudança sustentável

Para transformar a teoria em rotina, propomos cinco princípios práticos:

1. Identificação e substituição de pistas: Mapeie os momentos de gatilho (ex: tédio no restaurante) e tenha sempre preparado um “kit de espera” com livros, autocolantes e pequenos brinquedos.

2. Intenções de implementação: Utilize planos “Se… então”. Exemplo: “Se começar a preparar o jantar, então tiro o tapete de puzzles para o chão da cozinha”. Esta técnica duplica a probabilidade de sucesso.

3. Reestruturação ambiental: Torne a escolha saudável a mais fácil. Crie zonas livres de tecnologia (mesa de jantar, quartos) e mantenha os ecrãs num posto de carregamento central fora da vista imediata.

4. Metodologia de pequenos hábitos: Comece com mudanças minúsculas, como dois minutos de dança após desligar a TV ou uma leitura curta após o pequeno-almoço.

5. Responsabilidade social: Crie sistemas de compromisso com outros pais. O apoio de grupo aumenta significativamente a persistência nos novos padrões digitais.

7. Estratégias práticas e tecnologia aliada

Intervenções baseadas em evidências mostram caminhos eficazes para as famílias:

• Kits de jogo e bibliotecas de brinquedos: O ensaio clínico PLUMS na Índia demonstrou que o uso de “PlayKits” (kits de jogo) associado a coaching parental reduz significativamente o tempo de ecrã.

• Leitura dialógica (Método PEER): Não se limite a ler. Use a sequência Sugerir (pedir para identificar algo), Avaliar (confirmar a resposta), Expandir (adicionar informação) e Repetir. Esta ferramenta clínica é uma das formas mais potentes de acelerar o desenvolvimento da linguagem.

• Acordos de media familiar: Documentos visíveis e co-criados que definem regras claras para todos os membros da família, incluindo os adultos.

A tecnologia também pode ser parte da solução. Assistentes de parentalidade via inteligência artificial (em plataformas como o WhatsApp) podem fornecer apoio personalizado no momento exato da decisão, enquanto sistemas operativos concebidos com princípios de desenvolvimento ajudam a terminar sessões de forma natural e menos stressante.

8. Conclusão: um apelo à ação coordenada

O objetivo final não é a eliminação total dos ecrãs, mas sim o estabelecimento de padrões saudáveis. Os primeiros cinco anos de vida são uma janela crítica para a arquitetura cerebral que não pode ser recuperada.

Proteger este período é uma responsabilidade partilhada. Decisores políticos, educadores, profissionais de saúde e criadores de tecnologia devem colaborar para garantir que as interações humanas, o jogo livre e o sono reparador permaneçam no centro da infância. Ao equilibrar a balança digital, estamos a construir os alicerces para o bem-estar duradouro das gerações futuras.

Catalogação, metadados e inteligência artificial generativa: o novo paradigma documental | Gino Roncaglia

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1. Introdução: o despertar do oráculo no mundo dos metadados

O campo bibliotecário enfrenta actualmente uma transformação sem precedentes, impulsionada pela ascensão da inteligência artificial generativa (IA). Segundo a perspectiva de Gino Roncaglia (2026), esta tecnologia não constitui apenas uma ferramenta incremental, mas um catalisador que redefine a convergência entre a criação de metadados e as arquiteturas formais de organização do conhecimento.

Durante a redacção do seu estudo fundamental, o autor adoptou a IA como um “sparring partner”, interagindo com modelos de linguagem de grande escala (LLMs) como o ChatGPT (nas versões 4o e o3 com Deep Research), o Manus (plataforma baseada no Claude Sonnet 4) e o modelo chinês Kimi K2. Contudo, Roncaglia destaca uma observação crucial para a prática profissional: o uso destas ferramentas não resultou num ganho de tempo. Pelo contrário, a exigência de uma verificação humana rigorosa e a necessidade de validar cada sugestão tornaram o processo mais moroso do que os métodos tradicionais. O objectivo deste texto é analisar como estes LLMs podem suportar a catalogação perante as exigências de rigor das estruturas bibliográficas, equilibrando a inovação com a responsabilidade técnica.

2. A evolução dos paradigmas: da rigidez do MARC à fluidez dos dados ligados

A história da catalogação é marcada pela transição de sistemas de regras estritas para ecossistemas de dados interconectados. Este percurso consolidou-se no século XIX com as 91 regras de Antonio Panizzi (1839/1841). É neste período que Giuseppe Fumagalli (1887) introduz uma visão epistemológica essencial, definindo as fichas catalográficas como “segni rappresentativi dei libri” (sinais representativos dos livros), estabelecendo a base para o entendimento do carácter semântico dos metadados.

A revolução informática chegou em 1966 com o formato MARC (Machine-Readable Cataloguing), criado por Henriette Avram na Library of Congress, transpondo a lógica da ficha para o registo digital. Todavia, a rigidez do “registo” isolado cedeu gradualmente lugar a modelos semânticos baseados em entidades e relações, um movimento impulsionado pela tese de Barbara Tillett (1987) e pela posterior aprovação do modelo FRBR (1998). A modernização bibliográfica actual fundamenta-se nos seguintes pilares:

• Resource Description Framework (RDF): Modelo que utiliza triplas (sujeito-predicado-objecto) para formalizar metadados no ambiente da Web Semântica.

• Linked Open Data (LOD): Paradigma que preconiza a abertura e interconexão de dados, permitindo a integração de ontologias e o reuso global da informação.

• Library Reference Model (LRM) da IFLA (2017): Consolidação conceptual que substitui definitivamente a visão do registo individual por uma rede de dados semanticamente ricos.

3. O conflito epistemológico: o arquiteto versus o oráculo

Para descrever a tensão entre os sistemas tradicionais e a IA, Roncaglia propõe a metáfora do “Arquiteto” contra o “Oráculo”.

Arquiteto representa os sistemas de organização do conhecimento herdados da tradição biblioteconómica: determinísticos, baseados em regras formais explícitas e rigorosamente estruturados. Em oposição, o Oráculo personifica a IA generativa, cujo funcionamento assenta em redes neurais profundas e processos probabilísticos. Esta natureza oracular é intrinsecamente “obscura” e não-determinística, o que gera um conflito directo com a necessidade de precisão bibliográfica. O risco de “alucinações bibliográficas” — a invenção plausível de referências, autores ou datas — constitui o desafio central na integração destas tecnologias em fluxos de trabalho que exigem verdade factual e autoridade documental.

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