A coincidência é uma ciência à espera de que a descubram.
Don DeLillo, Libra
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A coincidência é uma ciência à espera de que a descubram.
Don DeLillo, Libra
Prepararam um prato de nabos com nogada. Limparam os nabos, cortaram-nos, cozeram-nos duas vezes. Escorreram-nos e numa caçarola refogaram cebola com banha e, quando a cebola estava cozida, retiraram-na. Na gordura que sobrou puseram farinha, e, quando se dourou, acrescentaram os nabos. Fizeram a nogada à parte. Com nozes, leite, a cebola do refogado e vinho. E cozinharam pombos com salsa bruna. Depenaram-nos e retiraram os seus fígados, que picaram com migalha de pão embebido em vinho e vinagre. Cozeram três ovos, separaram as gemas e misturaram com o pão e os fígados, e depois coaram e puseram tudo numa panela e ferveram-no com mel. Assaram os pombos e, quando estavam meio cozidos, introduziram-nos na panela com o molho dos fígados. E fizeram uma mirrauste de maçãs. Com maçãs bem doces, descascadas, cortadas e sem caroço, que cozeram com água. E, à parte, prepararam o molho, com um punhado de amêndoas torradas que picaram num pilão e refogaram no caldo das mesmas maçãs, para fazer o leite de amêndoas, ao qual acrescentaram migalha de pão e mel.
Tomei conhecimento da história de John Wayne Gacy há já alguns anos, através de uma música de Sufjan Stevens que me agarrou imediatamente pelo contraste entre a beleza que trazia na forma e a dureza que trazia no conteúdo. Curioso, fui pesquisar e li com choque a história do seu protagonista. A música continuou a ser bonita e tornou-se ainda mais forte. Recentemente, ao descobrir a existência do documentário Conversas Com um Assassino: As Gravações de John Wayne Gacy (16+, 3 Episódios), não pude resistir e mergulhei novamente nesta história. Com relatos de advogados, amigos, vizinhos e gravações do próprio John Gacy, voltou a ser uma experiência intensa. Tive que regressar à música, que ganhou novamente beleza ao mesmo tempo que se revelou mais negra.
Pode o sofrimento infantil explicar uma vida adulta macabra? Creio que não. Se admito que a infância é uma fase de moldagem e deixa marcas, naturalmente, acredito também que o mundo estará cheio de tudo: adultos incríveis que passaram uma infância terrível, adultos medonhos que passaram uma infância de sonho e todas as outras combinações possíveis.
E enquanto vou repetindo a música de Sufjan, tomo especial atenção e penso nos seus últimos versos:
And in my best behavior
I am really just like him
Look beneath the floor boards
For the secrets I have hid
Seremos assim tão diferentes?
Chegamos atrasados a um compromisso, uh oh. Esquecemos alguma coisa importante, uh oh. Temos um erro ou um engano comprometedor, uh oh. Patrick Watson perdeu a voz por cerca de três meses e não conseguiu dizer apenas uh oh. Juntou algumas vozes que diz cantarem como ele próprio gostaria de cantar e decidiu fazer um disco com esse título. E não adianta negar, olhamos para as notícias e percebemos que levamos o mundo a uma situação que merece um uh oh a cada piscar de olhos.
Mas é muito às custas deste disco, lançado há menos de uma semana, que o tenho conseguido trocar por um mais reconfortante aahhh…
Quando Callahan cruzou as mãos da sua mãe sobre o seu próprio peito, pareceu-lhe que tinha acabado de fazer um círculo. Poucos anos antes, tinha estado ao lado da mulher no parto do seu filho e sentiu algumas semelhanças entre a morte e o nascimento. Uma força especial no ar, como se de uma mesma passagem se tratasse. Nas suas palavras, a mãe parecia ir para onde queria. Foi doloroso, mas teve o seu quê de belo.
Dessa sua experiência nasceu este Circles, poema lindo de morrer.
A minha vida dava um filme, costuma dizer-se. No caso de Irène Némirovsky – nascida na Ucrânia, numa família judaica ligada à banca, criada, por motivos políticos, entre São Petersburgo, França e até Finlândia, detida e deportada para Auschwitz, onde viria a falecer ainda antes dos quarenta anos – podia dizer-se o mesmo, não fosse o caso de a sua vida ter dado vários livros: os seus. Em quase todos há, entre o ficcionado, uma significativa dose do seu passado, da má relação com a pouco maternal mãe, aos negócios e vícios do pai. Vinho da solidão será seguramente o mais autobiográfico dos seus livros e, não sendo o melhor, volta a revelar uma excelente escritora.
Quando li pela primeira vez Pássaros na boca, fiquei com esse conto, que dá título ao livro, na cabeça durante dias seguidos. Descobri-o com assombro e essa sensação aumentava cada vez que pensava nele. Já o li mais umas vezes, entretanto. Depois desse contacto inaugural com a autora, já passei por Sete casas vazias e Distância de segurança (primeiro romance, neste caso). Sem conseguirem ter em mim o impacto de Pássaros na boca, continuam a ser livros que agarram e que pedem a participação ativa do leitor. Termino agora a leitura de O bom mal e, em apenas seis contos, Schweblin volta a revelar influências de Cortázar no que de estranho invariavelmente traz às suas histórias, mas confirma que tem uma voz muito própria, com assinalável capacidade de criar e manter uma tensão quase constante do início do fim dos seus contos. É daquele tipo de literatura de que sinto sempre falta, pelo que está escrito e, até mais do que isso, pelo que fica por escrever.
– Então como é sermos os melhores?
Henry encolheu os ombros.
– Há sempre alguém melhor.
– Não é isso que o Mike diz. Ele diz que és o melhor… como é que se diz? Defesa médio? Do país inteiro.
Henry pensou sobre isso por momentos.
– Não é grande coisa – replicou. – Só se nota quando fazemos asneira.
Chad Harbach, A arte de viver à defesa
A palavra principal deste jogo é errar, e se não consegues lidar com isso, não vais durar muito. Ninguém é perfeito.
Este excerto de A arte de viver à defesa, de Chad Harbach, refere-se ao basebol, mas podia referir-se a qualquer desporto. Ou à vida, melhor pensando .
A tarde aproximava-se do fim quando esbarro numa noticia que me fez recuar umas horas, até ao início da tarde, altura em que concluía a leitura de mais um livro do tão corrosivo quanto assertivo Kurt Vonnegut em que este referia, a certa altura, que os lugares de decisão e poder estão cada vez mais ocupados por personalidades psicopáticas. Definia-as resumidamente desta forma:
PPs are presentable, they know full well the suffering their actions may cause others, but they do not care. They cannot care because they are nuts. They have a screw loose! . . .
So many of these heartless PPs now hold big jobs in our federal government, as though they were leaders instead of sick. They have taken charge of communications and the schools, so we might as well be Poland under occupation.
They might have felt that taking our country into an endless war was simply something decisive to do. What has allowed so many PPs to rise so high in corporations, and now in government, is that they are so decisive. They are going to do something every fuckin’ day and they are not afraid. Unlike normal people, they are never filled with doubts, for the simple reasons that they don’t give a fuck what happens next. Simply can’t. Do this! Do that! Mobilize the reserves! Privatize the public schools! Attack Iraq! Cut health care! Tap everybody’s telephone! Cut taxes on the rich! Build a trillion-dollar missile shield! Fuck habeas corpus and the Sierra Club and In These Times, and kiss my ass!
There is a tragic flaw in our precious Constitution, and I don’t know what can be done to fix it. This is it: Only nut cases want to be president.
Vonnegut escreveu isto há já alguns anos, com George W. Bush em mente. O tempo passa e insiste em dar-lhe razão.
A música faz quase toda a gente gostar mais da vida do que seria possível sem ela.
Kurt Vonnegut, Um homem sem pátria

Inicialmente, o interesse deu-se pelo título. Intensificou-se muito rapidamente com o elogio de Franzen, estampado logo na capa. No ano passado, foi inevitável dar-se a aproximação quando surgiu numa plataforma de venda de artigos usados por 2€. Esperou na estante desde então e eis que chegou a sua hora. As primeiras páginas revelam o que a capa já prometia: um livro a gravitar em torno do basebol – e Don DeLillo já provou que se podem escrever grandes livros com este fundo temático.
Apesar de todos estes bons indicadores, faço jus ao título e espero que valha os 2€, pelo menos. É que Franzen já me enganou uma vez.
Stoner e Butcher’s Crossing. No primeiro, William Stoner, filho de camponeses, vai para a faculdade para estudar agricultura, mas acaba por se apaixonar pela literatura e seguir a vida nessa área. No segundo, o jovem Will Andrews larga Harvard para uma expedição de caça aos búfalos no oeste selvagem, depois de questionar o seu propósito de vida. Parecem obras em sentido inverso. Numa, a quase quietude do meio académico, uma ou outra intriga profissional, um ou outro problema de ordem pessoal. Na outra, a inclemência da natureza e o instinto de sobrevivência tornam tudo físico, bruto, cru.
Em qualquer dos registos, uma maravilha comum: a escrita de John Williams, capaz de dominar silêncios e violências com a mesma simplicidade.
Intervalo ou fim.