Matéria da Agência Pública de Jornalismo Investigativo sobre o VLT, projeto usado como desculpa de “mobilidade urbana” para remover as comunidades ao longo do trilho, e assim ‘valorizar’ empreendimentos e setores da construção civil e especulação imobiliária.
A MATÉRIA
Obra ameaça 5 mil famílias em Fortaleza
Construção do VLT Parangaba-Mucuripe prossegue, apesar da resistência dos moradores e de contestações do MPF, da Defensoria Pública e do TCE
Alisson da Silva acordou assustado com o barulho de motosserras derrubando as árvores em frente à sua casa na comunidade dos Jangadeiros, onde nasceu e cresceu, em Fortaleza (CE). “As pessoas saíam de suas casas apavoradas, muitas estavam chorando. Eu perguntava aos moradores se alguém tinha ouvido falar, se tinha algum comunicado sobre o que era aquilo, mas ninguém tinha”, conta o estudante de cinema, de 22 anos, ao lembrar daquele fatídico 17 de janeiro de 2013.
Como ele já sabia que sua comunidade ia ser atingida pelo VLT, obra de mobilidade urbana para a Copa de 2014, imaginou que fosse esse o motivo da intervenção. Ele e os vizinhos, foram então falar com os funcionários. “Formamos uma roda com cerca de 20 moradores para tentar conversar e entender o que estava acontecendo. Eu mostrei uma decisão judicial que a gente tinha, que impedia a realização de obras do VLT antes do reassentamento das famílias. Mas os funcionários alegavam que tinham uma autorização da própria Semace (Superintendência Estadual do Meio Ambiente). Mesmo com a ordem judicial na mão, eu não podia colocar meu braço na frente de uma motosserra. Na maior arbitrariedade, eles ignoraram a gente. Continuaram derrubando as árvores”, relata.
Um golpe para os moradores que há quase 4 anos resistem ao processo de expulsão de suas comunidades. O operador de call center, Edivan de Miranda, de 36 anos, não deixou sequer os funcionários da empresa Mosaico, contratada pelo governo estadual, realizar a medição técnica do seu apartamento. “Eles passaram aqui na frente duas vezes, ficaram observando. Bateram na porta e eu fiz de conta que não escutei, que não tinha ninguém em casa. Desistiram e partiram para a próxima casa.”
Não foi uma reação de momento. Antes de receber essa visita, Edivan já tentava convencer outros moradores do bairro a impedir as medições. “Eu dizia: ‘Olha, não temos garantia nenhuma do governo, não tem a menor segurança de um imóvel para reassentar as pessoas. Então não vamos deixar medir porque isso significa deixar eles avançarem”, argumentava. Alguns vizinhos concordaram, outros ficaram receosos, mas Edivan, manteve a posição: “Não vou deixar medir porque a minha casa não está à venda. Não estamos em uma calamidade pública, por que temos que sair a qualquer custo de um local que tem toda nossa história? Aqui a gente vive em um contexto de história, amigos, trabalho. Vivo aqui desde que nasci.”
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