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reVISÕES
Jaime Nogueira Pinto considera que António José Seguro é o candidato do “Centrão” preferido por parte da direita, até porque é, nas suas palavras, “um espécimen raro, numa classe política onde um político honesto tende a aparecer, aos olhos do povo, como um bem escasso”. Destaca ainda a composição “curiosa” do eleitorado de Seguro, que inclui “socialistas moderados e centristas, mas também, a contragosto, a esquerda do PS, mobilizada pelo ‘anti-fascismo’ e pelo argumento de ‘salvar a democracia’”, bem como todos os eleitores afetados pelo que designa por SDAV - Síndrome Disfuncional Anti-Ventura -, “fenómeno que, como se viu na noite eleitoral, pode gerar reações descontroladas até nos comentadores mais moderados”.
reVISÕES
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
Ventura: um teste psicológico, mais do que político
Quando um sistema inteiro entra em pânico por causa de um homem, fingir que ele é secundário é mentira consciente
Há políticos que dividem opiniões. E há políticos que desorganizam sistemas.
André Ventura pertence claramente à segunda categoria. E é precisamente por isso que quase ninguém consegue falar dele com seriedade. A esmagadora maioria dos que dizem “saber quem Ventura é” não sabe coisa nenhuma. Limita-se a projectar nele as suas pulsões — entusiasmo ou repulsa — e a chamar a isso análise política.
Não é. É psicologia barata embrulhada em retórica cívica.
O que se pode fazer com honestidade intelectual não é dissecar a “pessoa”, nem as suas intenções íntimas, nem a sua vida privada. Isso é território de tablóide, café e comentador militante. O que se pode fazer é observar padrões públicos repetidos, ao longo do tempo, sob pressão e sem ela, em debate, em conflito, em vitória e em derrota — e perceber o que esses padrões revelam sobre o fenómeno político.
E o fenómeno é este: Ventura é o único actor político deste ciclo que obriga o sistema inteiro a reagir.
Ele não responde à agenda. Ele impõe-a.
Tudo o resto — candidatos, comentadores, editoriais, manifestos de “salvação da democracia”, apelos à moderação e súbitos acessos de virtude republicana — surge depois, como reflexo condicionado. Ventura é a causa. Os outros são a resposta. Fingir o contrário é uma encenação pobre.
A reacção que provoca diz tudo. Raramente se discute o que ele propõe. Discute-se o que ele “é”. Em vez de argumentos, rótulos. Em vez de discordância, patologização. Em vez de confronto político, alarmismo moral.
Não se diz “está errado”. Diz-se “é perigoso”.
Isto não é debate democrático. É mecanismo defensivo. Serve para proteger um ecossistema confortável, habituado à alternância sem ruptura, à mudança cosmética vendida como progresso e à ausência total de fricção real. Uma classe política e mediática que vive bem dentro da moldura e entra em pânico quando alguém a desloca um centímetro.
O mais revelador é que esta reacção vem sempre travestida de superioridade ética. Mas não há ali ética nenhuma. Há autopreservação. Há medo de perder o controlo do discurso, das regras implícitas, do consenso artificial que permite governar sem pensar demasiado.
Convém sublinhar — antes que os devotos do antifascismo automático entrem em convulsão — que isto não santifica Ventura. Não o torna estadista, nem garante competência governativa, nem absolve excessos, contradições ou oportunismos. Identifica algo muito mais incómodo para o sistema: Ventura funciona como detonador de posicionamento.
Num país treinado para confundir estabilidade com virtude, alguém que introduz conflito real não é tratado como concorrente. É tratado como ameaça existencial. E ameaças existenciais não se enfrentam com ideias. Tentam-se neutralizar, isolar, deslegitimar.
É por isso que esta eleição — especialmente na segunda volta — é sobre Ventura, quer se queira quer não.
A figura que lhe faz frente poderia chamar-se outra coisa qualquer. O seu papel manter-se-ia intacto: oferecer uma saída emocionalmente confortável, uma promessa de anestesia política, um regresso ao ruído branco institucional onde nada muda de facto, mas tudo parece muito responsável.
Ventura faz o contrário. Obriga a escolher tensão em vez de conforto. Conflito em vez de consenso encenado. Verdade incómoda em vez de linguagem higienizada.
Quem vota em Ventura prefere disrupção à anestesia. Quem vota contra Ventura, muitas vezes, não escolhe o outro por convicção — escolhe-o para não ter de pensar no que Ventura obriga a enfrentar.
Por isso não há debate sério. Por isso os media aceitam, sem protesto, a recusa de discutir ideias. Por isso a moral substitui o argumento.
Esta eleição não mede programas. Mede a capacidade colectiva de suportar fricção.
É um teste psicológico, não político.
E quando um sistema inteiro se organiza em função de um homem, fingir que ele é secundário já não é ingenuidade. É má-fé.
Notas
1. Fenómeno vs. pessoa: este texto analisa padrões públicos e reacções sistémicas; não pretende inferir intenções íntimas nem vida privada.
2. Fricção: uso aqui “fricção” como o choque que obriga actores e instituições a explicitarem posições, interesses e limites — algo raro na alternância cosmética.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
A direita útil do PS e o antifascismo de aluguer
Quando o medo substitui a política e a salvação da democracia passa a significar a exclusão do eleitor
Há um velho reflexo condicionado na política portuguesa que reaparece sempre que o Partido Socialista se vê ameaçado: uma parte da direita corre em seu auxílio, convencida de que está a salvar o regime quando, na verdade, está apenas a reciclar o poder socialista. Não é novo. Mas raramente foi tão explícito, tão mal justificado e tão politicamente contraproducente como no recente manifesto dos chamados “não-socialistas”.
O pretexto é conhecido: travar, impedir o “populismo”, salvar a democracia. O efeito real é outro: legitimar novamente o PS, reabilitar o seu espaço político e oferecer-lhe uma vitória moral que não conquistou nas urnas nem no debate público. Em nome de um antifascismo abstracto, entrega-se poder concreto a um partido com responsabilidades directas no empobrecimento, na desestruturação social e no bloqueio político do país.
A direita que não acredita em si própria
O manifesto dos “não-socialistas” não é um exercício de lucidez democrática; é um acto de desistência estratégica. Ao apelar ao voto, os seus signatários assumem implicitamente que a direita portuguesa é incapaz de se organizar, de se reformular ou de disputar o poder sem tutela moral do PS.
A contradição é evidente. Muitos dos subscritores conhecem bem o historial político de Seguro, os governos que apoiou e as políticas que viabilizou. Sabem — e disseram-no durante anos — o que o PS fez ao país. Ainda assim, assinam. Não por convicção, mas por medo: medo de perder o controlo do campo político, medo de um eleitorado que já não obedece às antigas mediações, medo de um actor político que não pede licença.
O antifascismo como arma de intimidação
A segunda operação em curso é ainda mais perigosa: a tentativa de transformar uma escolha eleitoral legítima num acto moralmente condenável. Chamar “fascista” a Ventura tornou-se um automatismo retórico e uma estratégia deliberada de desqualificação do eleitor. Já não se combate uma candidatura; combate-se o direito de a escolher.
A história recente devia ter ensinado alguma coisa. Em 1986, a retórica antifascista foi usada contra Freitas do Amaral. Noutras paragens europeias, foi usada contra candidatos que chegaram ao poder sem que a democracia colapsasse. O alarmismo falhou sempre. Mas insiste-se nele, como se a repetição pudesse substituir a realidade.
Linhas vermelhas contra eleitores
A democracia não se protege excluindo eleitores, mas integrando-os no jogo político. As chamadas “linhas vermelhas” não defendem o regime; congelam o sistema. Funcionam enquanto os partidos visados são marginais. Colapsam quando passam a representar uma parte significativa da sociedade.
A experiência europeia é clara: partidos rotulados como “populistas” entraram e saíram de governos sem destruir a democracia. Governaram bem ou mal. Foram julgados. E substituídos. Exactamente como manda o regime democrático.
O verdadeiro risco
O risco para a democracia não está num voto. Está numa elite que se recusa a aceitar que o eleitorado mudou. Está na criminalização simbólica do dissenso e na tentativa de impor uma ortodoxia política pela intimidação moral.
Ao ajudar o PS em nome da salvação do regime, esta direita “responsável” não protege a democracia. Protege um sistema que já não sabe reformar-se e que reage à perda de controlo com moralismo e histeria retórica. No fim, quem agradece é o PS. E, ironicamente, também Ventura.
domingo, 25 de janeiro de 2026
51 anos de memória e de lições ignoradas
Em 25 de Janeiro de 1975, no Palácio de Cristal do Porto, o primeiro Congresso do Centro Democrático Social (hoje CDS – Partido Popular) foi interrompido por um cerco de militantes e simpatizantes da extrema-esquerda. Durante mais de doze horas, manifestantes rodearam o edifício, condicionaram a realização dos trabalhos e, segundo testemunhos da altura, houve feridos e constrangimentos graves antes que as Forças de Segurança pudessem repor a ordem. (arquivos.rtp.pt)
Esse episódio — que passou para a história política portuguesa como um sinal da radicalização e intolerância que marcou o Processo Revolucionário em Curso — constituiu uma ameaça direta à livre organização e expressão de um partido político recém-nascido, numa fase em que a democracia portuguesa ainda se debatia com forças políticas que recusavam regras e pluralismo. (TSF)
Hoje, 51 anos depois, é recorrente ouvir-se — nas palavras de alguns cronistas e comentadores — que se vive um “cerco” semelhante, desta feita dirigido ao PARTIDO CHEGA. Não se fala de barricadas nem de bloqueios físicos, mas de uma pressão política, mediática e institucional que procura limitar o espaço de um partido que desafia a ortodoxia política vigente. Trata-se, como bem argumenta o texto no Blasfémias, de uma resistência dos chamados “partidos estruturais” — PSD, CDS e outros — a uma força que, vindo “de dentro” do sistema, põe em causa pactos informais, equilíbrios de bastidores e redes de influência entranhadas no aparelho estatal e corporativo. (BLASFÉMIAS)
O cerco ao CDS em 1975 foi físico e explícito: manifestantes bloquearam a entrada ao congresso, criaram uma situação de tensão direta e forçaram uma interrupção dos trabalhos. Foi um exemplo claro de intolerância política que, numa sociedade livre, se só por si deveria ter sido decisivamente condenado por todos os defensores da democracia plural. (arquivos.rtp.pt)
Já o “cerco” ao Chega no presente não é feito com corpo, mas com linguagem e práticas políticas e mediáticas. Não é a violência nas ruas, mas a violência do discurso: a construção de uma narrativa que tenta associar o partido e o seu líder a periculosidades latentes à democracia. Esta narrativa, muitas vezes difundida e amplificada por setores dos media e do establishment político, baseia-se explicitamente no medo — medo de mudança, medo de perda de poder, medo de ruptura com práticas consensuais que, apesar de duramente criticadas por muitos, se tornaram parte do “modus operandi” da política tradicional. (BLASFÉMIAS)
O medo como instrumento político
No texto de Blasfémias, a autora desmonta a versão oficial difundida por muitos comentadores: segundo esta narrativa dominante, o Chega seria um “risco para a democracia”. Mas, como argumenta, esta explicação é insuficiente para justificar a hostilidade constante que se observa — não apenas contra ideias, mas contra o próprio espaço político que o Chega ocupa. O que verdadeiramente se teme, sugere-se, não é a perda da democracia, mas a perda de um controlo que partidos como o PSD e o CDS mantêm há décadas nas engrenagens do poder. (BLASFÉMIAS)
Esta leitura não é teoria da conspiração: é, antes, uma análise crua de como funcionam muitas vezes as relações de poder num regime que se orgulha de «democracia» mas que, no concreto, tende a favorecer a perpetuação de elites e de práticas discretas de influência, redes clientelares e acordos tácitos. Um partido que se recusa a entrar nesses jogos e que expõe essas dinâmicas torna-se instintivamente um alvo. (BLASFÉMIAS)
Comparar o cerco físico que o CDS sofreu em 1975 com a atual pressão política ao Chega não é equiparar literalmente situações diferentes. O contexto sociopolítico de 1975 — num país ainda marcado pelo PREC, por confrontos ideológicos e por uma transição recente da ditadura para a democracia — não é o mesmo que o de 2026. O cerco ao CDS aconteceu no quadro de uma luta aberta entre forças que, em muitos casos, rejeitavam a própria noção de pluralismo democrático. (Wikipedia)
O “cerco” ao Chega, no entanto, manifesta-se em múltiplas frentes: debates acalorados, tentativas de deslegitimar nas urnas ou nos media, apelos à contenção e à exclusão política e social. É um cerco de natureza simbólica e discursiva, mas não menos relevante — porque molda percepções, influencia decisões e tem impactos reais na vida política do país.
há que aprender com a história para não repetir o silêncio
A memória histórica do que aconteceu no Palácio de Cristal, há 51 anos, não deve ser um simples anedotário de datas e efemérides. Deve servir de alerta: quando uma sociedade tolera a exclusão de vozes políticas em nome de discursos de medo, corre o risco de criar um ambiente em que a própria democracia se torna frágil — não por falta de instituições, mas por falta de pluralismo e coragem para enfrentar ideias divergentes sem recorrer à marginalização e ao reduzido espaço parlamentar.
Hoje, como ontem, é essencial defender que todas as correntes políticas possam apresentar as suas propostas e debater as suas ideias. A história do CDS em 1975 ensina-nos que o cerco, seja físico ou simbólico, é sempre um sinal de fragilidade democrática — e que a resposta deve ser, não mais cerco, mas mais diálogo e mais verdade política.
Entre o espantalho e o espelho: Ventura, o jornalistado e a tentação activista
Há textos que valem menos pelo alinhamento partidário que recusam do que pela lucidez com que desmontam um automatismo mental instalado. O brilhante texto de André Abrantes Amaral inscreve-se nessa categoria rara. Não é um texto de apoio a André Ventura — e é precisamente por isso que merece ser levado a sério. O seu alvo não é o líder do Chega, mas a estratégia discursiva daqueles que dizem combatê-lo e acabam, sistematicamente, por o reforçar.
Essa estratégia é hoje demasiado familiar. Consiste em transformar Ventura no espantalho moral do regime, colando-lhe rótulos máximos — “fascista”, “antidemocrata”, “ameaça existencial à democracia” — numa inflação verbal que dispensa análise e substitui o argumento pelo anátema. O efeito é perverso: quem acusa perde credibilidade, quem é acusado ganha centralidade, e o debate público degrada-se num teatro de exorcismos.
Convém dizê-lo sem rodeios. Chamar fascista a André Ventura não é apenas intelectualmente preguiçoso; é politicamente contraproducente. Pode — e deve — discutir-se o seu populismo, a demagogia das suas promessas, a elasticidade ideológica do seu discurso, a pressão retórica que exerce sobre instituições e comunicação social. Tudo isso pertence ao campo normal da crítica democrática. Mas reduzir o fenómeno Ventura a um regresso do fascismo histórico é um erro de diagnóstico que apenas revela a incapacidade de compreender o país real.
E é aqui que o texto de Amaral toca num ponto essencial, que no ReVisões tem sido reiteradamente sublinhado: Ventura não cresce no vazio. Cresce num país com salários estruturalmente baixos, acesso cada vez mais difícil à saúde, uma crise de habitação que atinge já várias gerações e reformas que prometem pouco mais do que sobrevivência. Cresce depois de três décadas de “consensos responsáveis” que, vistos à distância, produziram imobilismo, captura partidária do Estado e uma democracia cada vez mais formal e cada vez menos substantiva.
O erro da esquerda — acompanhada por uma parte significativa do centro-direita mediático — é duplo. Primeiro, tratar o descontentamento social como um problema moral, não político. Segundo, acusar os eleitores de desvio democrático sempre que recusam alinhar num candidato apresentado como “o único aceitável”. Quando se encosta uma parte do país à parede, não se está a defender a democracia; está-se a corroê-la.
Há um erro estratégico mais fundo: alinhar na lógica de divisão que se diz combater. Dividir o país entre “democratas” e “antidemocratas” não é substancialmente diferente de o dividir entre “bons” e “maus” portugueses. É aceitar o terreno do adversário e jogar com as suas regras. É, no fundo, dar-lhe vantagem à partidaA experiência recente em França deveria servir de aviso. A demonização sistemática da direita populista pelo centro-direita e pelos socialistas não resolveu problema algum. Agravou-os. Consolidou clivagens, cristalizou ressentimentos e deixou o sistema político refém de alianças negativas, feitas mais por medo do que por projecto. A convicção portuguesa de que somos moralmente imunes a esse percurso é uma ilusão recorrente — até ao dia em que se bate na parede. E, como a história ensina, com estrondo.
Há ainda um factor geracional que o jornalistado insiste em ignorar. A democracia portuguesa tem mais de cinquenta anos. Para uma parte significativa do eleitorado, o “fantasma do fascismo” não é memória vivida, mas narrativa herdada — frequentemente instrumentalizada. Usá-la como arma absoluta num combate político quotidiano é esvaziá-la de sentido. Quando tudo é fascismo, nada o é.
Nada disto implica absolver André Ventura de críticas sérias, nem subscrever o seu discurso identitário ou as suas soluções fáceis. Implica apenas recusar a histeria moral como método político e denunciar o activismo disfarçado de jornalismo. Um jornalismo que não explica, não contextualiza e não escuta; que se limita a distribuir certificados de virtude democrática, abdica da sua função essencial. Torna-se actor político, ainda que continue a fingir neutralidade.
Talvez esteja aqui a ironia maior: ao transformar Ventura no eixo moral do regime, o jornalistado e o comentariado não o combatem — legitimam-no. Fazem dele o espelho deformado de um sistema que prefere insultar os seus críticos a reformar-se. E enquanto assim for, continuará a falhar onde mais importa: na compreensão do país que diz representar.
Agulhadas finais
— Quem chama fascista a tudo o que incomoda acaba, invariavelmente, a fazer campanha pelo incómodo.
— O activismo mediático não substitui política pública nem resolve descontentamentos reais.
— Um sistema que só se sabe defender por exorcismos morais já desistiu de se reformar.
sábado, 24 de janeiro de 2026
jornalistado e comentariado!
"Chamar a isto jornalismo é um insulto aos verdadeiros jornalistas. Se eu fosse o Dr Ventura daria entrada com um processo contra o activista da RTP. Pode não dar em nada, mas quem não se sente!
( Regina Cunha )
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
Proibir, sanear e prender: a velha tentação de chamar “democracia” à exclusão
Quando a esquerda confunde pluralismo com limpeza política — e, depois, pede votos à direita com ar ofendido
Há frases que regressam como um cheiro antigo numa casa fechada. Não porque sejam “nostálgicas”, mas porque descrevem um mecanismo que nunca desapareceu: o impulso de baptizar “democracia” aquilo que é, na prática, uma operação de exclusão.
Em 1974, António José Saraiva — professor, ensaísta, historiador da cultura, homem de esquerda heterodoxa e de inteligência rara — citado por Rui Ramos (Observador 23Jan26) tentava explicar um facto elementar a uma esquerda que, de repente, descobrira que “democratizar” podia significar proibir, sanear e prender a direita. A advertência era simples: um regime que assenta na exclusão de uma parte importante do país nunca poderá ser uma democracia. O que se estava a viver não era “a abertura”, mas a tentação de um monopólio moral: quem manda decide o que é “democrático”; quem discorda é “reaccionário”; e, portanto, dispensável.
O problema não é histórico. É estrutural. O vício não morreu com o Verão Quente; apenas mudou de gravata e de vocabulário. Hoje já não se diz “fascista” com a mesma facilidade de 1975 (embora o reflexo persista). Diz-se “inaceitável”, “anti-democrático”, “discurso de ódio”, “ameaça institucional”, “extremismo”. A embalagem é nova; o gesto é o mesmo: reduzir o pluralismo a um corredor estreito onde só passam os que rezam o catecismo certo.
A política como limpeza: o método, não o acidente
Quem viveu 1974–75 (e não o viveu por interpostas memórias de sofá) sabe o que significaram os saneamentos: a pressa moral convertida em procedimento administrativo; a ideia de que a nova legitimidade dispensava garantias; o gosto pela lista, pelo carimbo, pela expulsão, pelo “afastamento preventivo”. Houve normas, houve comissões, houve justificações. E houve, sobretudo, uma convicção intoxicante: “agora somos nós — e isso basta”.
A literatura académica descreve com frieza o que, para muitos, foi vida quotidiana: entre 1974 e 1975, os saneamentos tornaram-se prática intensa, com regras que iam sendo criadas à medida que a realidade se radicalizava. (Redalyc)
E, ao lado do saneamento, a detenção, o medo, a intimidação social, a fronteira móvel do “permitido”. O PREC não foi apenas um “período de transformação”; foi também o laboratório de uma tentação totalitária — com idas e vindas, com facções, com resistências, com minorias responsáveis que impediram o pior. (defesa.gov.pt)
É aqui que Saraiva é útil. Porque Saraiva não fala como folhetinista; fala como alguém que sabe que democracia não é um prémio para os vencedores — é um método para conviver com os vencidos sem os tratar como inimigos a abater.
O 25 de Novembro e a condição mínima da democracia
A democracia liberal portuguesa — com todos os seus defeitos, e são muitos — nasce quando se fecha a porta à ideia de “democracia” como purga. O 25 de Novembro foi, nesse sentido, uma vacina amarga: não contra a esquerda democrática, mas contra a esquerda que queria tornar-se a própria definição de democracia.
Esse capítulo não é um detalhe historiográfico. É a chave para perceber a chantagem moral contemporânea: a de que a direita só é “aceitável” quando se ajoelha, quando pede licença, quando promete não tocar nos dogmas. A direita, para certos sectores, é tolerada como se fosse um parente pobre: pode entrar na sala, desde que não fale alto e não mexa nos móveis.
Os “neo-seguristas” e o truque de segunda volta
E aqui entramos no presente — onde o passado regressa, com filtro e maquilhagem.
Os “neo-seguristas de segunda volta” (usemos o nome sem pejo) descobriram, como por milagre, uma súbita paixão pelo pluralismo. Ontem, a direita era um problema. Hoje, a direita é um reservatório de votos que convém seduzir com apelos à “união”, à “moderação” e à “responsabilidade democrática”.
O que mudou? A doutrina? A visão do país? O respeito pela dissidência?
Não. Mudou a aritmética.
E é por isso que a frase de 1974 morde: porque revela a contradição central do moralismo político. Quem ontem usava “democracia” como arma de exclusão, hoje quer que a direita aceite o papel de figurante no filme da virtude. Querem o voto da direita — mas não querem a direita. Querem a soma — mas não querem a substância.
Há qualquer coisa de obsceno nesta coreografia: durante anos, o espaço mediático e político repetiu que certas posições eram “inadmissíveis”; agora, pede-se a quem foi tratado como intruso que se comporte como convidado grato. É o mesmo gesto antigo: primeiro, desumaniza-se politicamente; depois, exige-se civilidade ao desumanizado.
O mínimo que se deve exigir (e o máximo que convém recusar)
A democracia não é “o regime em que vence quem eu aprovo”. É o regime em que o adversário pode vencer sem ser expulso do país moral. É o regime em que o voto do outro não precisa de autorização ética para existir.
Se os neo-seguristas perceberam isto, óptimo: é uma conversão tardia, mas sempre é conversão. Só há um problema: conversões de segunda volta têm prazo de validade. Passado o dia da eleição, regressa o velho impulso de “purificar” o debate — e de declarar indigno tudo o que não caiba na moldura.
E é por isso que convém repetir, sem sentimentalismos: quando um campo político acredita que a democracia é a sua propriedade, o resultado não é democracia. É hegemonia com urnas.
Notas de fim
- A esquerda que ontem confundia “democratizar” com “limpar” quer hoje ser salva por quem tentou varrer. Chamem-lhe pluralismo; eu chamo-lhe necessidade.
- Quem só descobre a virtude do adversário quando precisa do seu voto não aprendeu tolerância: aprendeu cálculo.
- Uma democracia onde a direita só é “aceitável” quando está calada não é democracia — é apenas um saneamento adiado.
- António José Saraiva (1917–1993), professor e ensaísta, figura central da história da cultura e literatura portuguesas. (instituto-camoes.pt)
- A formulação “democratizar = proibir, sanear e prender a direita” circula frequentemente atribuída a António José Saraiva; a confusão é alimentada pela proximidade nominal com José António Saraiva (1948–2025), autor de uma crónica política publicada em 1974 (Do Estado Novo à Segunda República). (idl.pt)
- Sobre a intensificação e enquadramentos dos saneamentos no pós-25 de Abril, ver sínteses académicas sobre o tema. (Redalyc)
- Enquadramento geral do PREC e do seu período crítico, incluindo a tensão entre pluralismo e tentação hegemónica. (defesa.gov.pt)
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
“O confronto não é entre democratas e anti-democratas"
Para o politólogo e escritor Jaime Nogueira Pinto, o que está em jogo nesta segunda volta é uma clara bipolarização entre a direita nacional conservadora e popular e aquilo a que chama “o resto”: a direita consentida, a “direita da esquerda”, o “Centrão”, o centro-esquerda e a esquerda radical, que considera hoje residual, valendo menos de 4%. Na sua leitura, a direita não-socialista está com André Ventura e este poderá ainda atrair eleitores dos candidatos que ficaram pelo caminho na primeira volta.
Jaime Nogueira Pinto considera que António José Seguro é o candidato do “Centrão” preferido por parte da direita, até porque é, nas suas palavras, “um espécimen raro, numa classe política onde um político honesto tende a aparecer, aos olhos do povo, como um bem escasso”. Destaca ainda a composição “curiosa” do eleitorado de Seguro, que inclui “socialistas moderados e centristas, mas também, a contragosto, a esquerda do PS, mobilizada pelo ‘anti-fascismo’ e pelo argumento de ‘salvar a democracia’”, bem como todos os eleitores afetados pelo que designa por SDAV - Síndrome Disfuncional Anti-Ventura -, “fenómeno que, como se viu na noite eleitoral, pode gerar reações descontroladas até nos comentadores mais moderados”.
Em síntese, para o politólogo, "porque António José Seguro pertence a uma esquerda moderada e é pessoalmente respeitável, desta vez será fácil contar com a direita claramente anti-socialista mas mais difícil contar com a direita que não se identifica com a direita nacional conservadora ou que ainda não consegue votar em Ventura".
Jaime Nogueira Pinto rejeita a ideia de que a polarização em curso seja entre socialismo e populismo autoritário, ou entre democráticos e anti-democráticos, como muitos defendem. Recorda que as autocracias “são poderes não democráticos por herança, sem limites e derivados da força ditatorial”, enquanto André Ventura é, segundo afirma, “essencialmente, um fenómeno democrático que vive em democracia, da democracia e do voto popular”. Sublinha ainda o crescimento rapidíssimo do Chega, que em seis anos multiplicou por vinte o seu eleitorado, acrescentando que António José Seguro “também não é tão socialista como isso”.
Na sua perspetiva, estes candidatos “não têm grande necessidade, nem interesse, em radicalizar excessivamente” a campanha. Na opinião do politólogo, André Ventura poderá “aproveitar a sua visão de direita para denunciar o estado de um país governado pela esquerda há meio século, com exceção dos períodos do primeiro cavaquismo e do governo de Passos Coelho”. Já António José Seguro poderá “deixar a radicalização para os anti-fascistas e surgir como uma figura conciliadora”.
Nogueira Pinto sublinha ainda a importância da abstenção, que considera potencialmente decisiva, observando que, “de certo modo, foi essa a recomendação implícita deixada por figuras e forças políticas que ficaram de fora, como Cotrim de Figueiredo, Gouveia e Melo e o PSD”.
Em conclusão, Jaime Nogueira Pinto afirma que o “Centrão” e os seus eleitores estão a ser “forçados a uma definição clara”. E admite um cenário em que ambos os candidatos podem sair a ganhar:
“André Ventura como líder incontestável da direita e António José Seguro como Presidente da República”.
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