Como acreditar numa notícia falsa

O modelo básico das Fake News é aquele, da rede social, no qual alguém põe fotos de mulheres bonitas e inventa um nome qualquer de mulher.

Tudo é falso, mas não importa: sempre aparece uma multidão de paspalhos predispostos àquela fantasia.

Pobre Sul

Há muitos anos não deixo de ter a impressão de que o sul do Brasil tem sido a região que menos evoluiu e mais saiu comprometida com tudo, da pandemia aos eventos climáticos.

Tudo, no sul, precarizou: as mudanças climáticas são mais drásticas, não há investimento em melhoria urbana, o emprego está precaríssimo e via de regra informal, os preços aumentaram muito em todos os quesitos (combustível, imóveis, comida), as relações cotidianas se deterioraram (houve grande perda do senso de solidariedade e as pessoas se recolhem em nichos e bolhas), perdeu-se certa bússola sobre como se conduzir…

E o sul mantêm os mesmos políticos de sempre. E os mesmos slogans, muitos deles flertando com os piores preconceitos racistas e xenófobos, do tipo “AQUI se trabalha”. Os índices são falsos, mas autoreferentes e inflados (“educação da Finlândia”, “melhor nisso e naquilo”, sem que o dado seja fidedigno), as palavras também (“porque lá pra cima é pior”, “lá no nordeste…”, “aquele povo que não trabalha”…).

A ultradireita afetou demais a percepção do sulista sobre o mundo. Há ali um anarcocapitalismo difuso, uma guerra velada ou muitas vezes explícita de todos contra todos, uma espécie de refugismo em pequenos apartamentos regados a netflix ou em bolhas identitárias das coisas mais fúteis.

Pobre sul… Quando vai despertar e voltar a ver sua exuberante mata atlântica, seus rios e a natureza ainda não atingida por seus agrotóxicos? Quando voltará a comer seu pinhão na chapa com chimarrão em manhãs frias? Quando voltará a ter aquela frieza que era só ressabiada, sem ser tão agressiva?

Pagerank

Nos anos 2000 eu rodava o blog Catatau no Blogsome.com, e o blog chegou a ter Pagerank google 7 ou 8.

Significava que o blog, apesar de estar num subdomínio, tinha importância de conteúdo tão bem valorizada que estava acima de 70% das outras páginas do mundo. E era em português.

Acho que os owners do blogsome jamais souberam ou se importaram com isso. E em 2011, resolveram cancelar o site inteiro.

Foi um grande choque, e precisei trazer tudo para o wordpress. Mas a onda do momento começava a ser a das redes sociais e todo o Pagerank acumulado se perdeu, apesar de ser o mesmo conteúdo…

Mas desde então, não foi mais com o conteúdo que a internet se importou.

O blog segue aqui, entre idas e vindas.

Dar parabéns à IA

Outra modalidade de analfabetismo digital, mas com grandes consequências políticas (seguindo o post anterior) é bem exemplificado pelas as IA’s e tem se intensificado com elas: é a atribuição de autoria a um meme não feito por humanos, ou de retrato a uma imagem postada como spam, ou de simples confusão de personagens.

Anos atrás, tínhamos as histórias sobre as velhinhas que penduravam a foto de Obi-wan Kenobi na parede ou detinham um bonequinho de Elrond num altar para rezar a Jesus ou Santo Antonio. Isso era certamente confusão, mas não deliberadamente explorada por outrem.

Hoje a indução ao erro se tornou uma indústria, por exemplo de engajamento. Há as páginas no Facebook e no Instagram feitas pura e simplesmente para coletar fotos e vídeos de influencers de corpo bonito. O engajamento é alto, e o que se vê nas interações? Gente elogiando as fotos como se fossem postadas pelos próprios retratados.

Isso quando o retratado é uma pessoa real.  Redes como o Facebook se esforçam para distinguir se há um retrato ou uma IA, sinalizando a postagem. Mas não falta gente que cai no engodo (ou no engajamento) com mensagens do tipo “olá, bebê” e quetais (quando não se dedicam a atacar as modelos).

Na mesma linha, há as imagens de IA geradas automaticamente. Se elas são sobre gatinhos, fofurices ou mensagens de paz, não faltam os velhinhos dando os parabéns e abençoando. A máquina dos anos 2020 recebe de seus usuários diversos “Deus lhe abençoe”.

Daí às fake news e às maiores barbaridades deste mundo, o caminho é o de um curto-circuito.

Comentário sobre a boxeadora argelina que ganhou as Olimpíadas
carview.php?tsp=

A inversão do fone de ouvido

Nos anos 1980/90, o walkman e os fones de ouvido surgiram e se multiplicaram. Possuir ambos era sinal de status, modernidade, de estar na crista da onda. Também envolvia a sensação de carregar consigo a história da música, pois virtualmente se poderia ouvir tudo em qualquer lugar (bastando ter as fitas, e depois os CDs, ipods, pendrives…)

E eis que surgiu o smartphone. Com ele, no Brasil ao menos, o movimento pareceu retrógrado: as pessoas jogaram fora os fones de ouvido para confundir o smartphone com o antigo radinho de pilha no jogo de domingo, mas generalizado para a vida toda: é volume máximo, não importando o assunto e que se dane o ouvinte.

É o mesmo tipo de gente que em geral não sabe desligar a digitação com barulho, ou como baixar o volume. É quem há pouco tinha dificuldades de fazer algo mais que ligar, e flertava com os celulares de teclas grandes. É, finalmente, o mesmo tipo de gente que clica em phishing, cai em golpe e vota baseado em fake news.

Está para ser feito um estudo de como os smartphones emburreceram as pessoas.

“Fascismo” e redes sociais

O fascismo tem várias homologias para com as redes sociais. Pois ele opera por ressonância. As redes sociais, quando passaram a usar o like, e mais ainda o follow, se tornaram verdadeiros “para-raios de maluco”: elas tornaram possível aproximar entre si desde colecionadores de gibi até pedófilos.

Mas, independente do conteúdo a ser aproximado, o que importa é a forma. As pessoas tendem a seguir aquilo que de algum modo as toca. Isso não é racional, é algo situado nas paixões, na identificação.

Likes e follows já existiam antes. Mas nunca foram reunidos de forma sistemática, especialmente sob os modos inaugurados pelo facebook.

Não é à toa que, depois das redes sociais usarem os likes e follows, e depois delas universalizarem, o mundo guinou à ultra-direita. O vínculo entre a exploração de redes sociais (facebook, whatsapp etc.) e de estratégias de ultradireita é para lá de escancarado.

E, afinal, é assim que também as Big Techs ganham seu pão.

A normalidade doente das organizações

Desde que Henri Fayol escreveu Administração Industrial e Geral, em 1916, ele dizia que a, digamos, “organização”, deveria ter uma anatomia e uma fisiologia: deveria ter órgãos distribuindo suas funções, executadas por seres humanos.

Fayol inspirava-se em Claude Bernard, dentre outros, dando a visão de que uma empresa deveria se comportar semelhante a um organismo, com um meio de regulação interna, mesmo que em sua época as “empresas” industriais se vissem como sistemas fechados e não precisassem se adaptar tanto assim ao exterior.

Como se sabe, isso tudo foi contestado posteriormente, quando a bolha do trabalho circunscrito às indústrias estourou, rumo à complexidade econômica e de serviços que vimos hoje.

De lá para cá, muita coisa se inventou sobre as “organizações”. Muito se disse que o mundo muda rapidamente, que há instabilidade constante, que as organizações não são mais sistemas fechados e que precisam se adaptar a um mundo em constante mutação. Isso implicaria na busca de um gigantesco dinamismo, de capacidade interna de mudança, de competências para ver o que se passa lá fora e dar bom rumo às mudanças, sem o que a palavra “mudar” vira apenas um modismo vazio.

É aí que se vê um fenômeno muito curioso nas organizações, talvez as brasileiras: é que há empresas (públicas ou privadas, não importa), hoje, cuja imagem adequada seria a de um corpo doente.

Explico: um corpo sadio tem as características de ser espontâneo, fluido, sem a necessidade de ficar constantemente “inovando”, pois ele se adequa espontaneamente às situações ambientais sob suas possibilidades próprias. Um corpo sadio é, digamos para resumir, “criativo”. Ele não “pensa” em inovar, pois em seu funcionamento normal ele já “inova”.

Quanto ao corpo doente, ele tem esse círculo da espontaneidade e da criação rompidos. Se meu braço está quebrado, ele não se apresenta mais a mim como meu braço normal. Ele rompe a cadeia de movimentos espontâneos do corpo, ele exige cuidados próprios, ele cria demandas inexistentes em tempos “normais”. Num corpo doente, sua doença sempre lhe “dá trabalho”, ela corta o funcionamento normal, ela faz com que todo o funcionamento global fique colorido com as cores da doença.

Pois parece que muitas “organizações” nos dias atuais se comportam exatamente dessa forma, a da “doença”. Pois essas organizações “normalmente” se comportam como se fossem doentes. E isso porque elas acabam tomando para si uma série de slogans, de palavras de ordem, de modismos, que sequer são ou seriam importantes ou relevantes para seu funcionamento “normal”. Um desses slogans, dentre os mais malditos, é o da “inovação”.

A noção (jamais conceito) de “inovação” serviria, em tese, para que uma empresa não apenas consiga prever dificuldades futuras, mas também antever possibilidades de crescimento futuro, ou mesmo resolver problemas presentes. A busca de inovação é um processo criativo. E como tal, caso valha a imagem mais acima, “inovar” seria uma virtualidade das mais espontâneas de um corpo saudável, ou ainda, de uma empresa que gostaria de imitar as possibilidades de uma “organização”. Não se enxerta inovação numa empresa como se enxerta uma planta: ou ela constitui a situação global da empresa, ou lhe é um corpo estranho.

E a inovação como constitutiva de uma empresa, apesar do modismo, não é o que se vê por aí. O que se vê é um mandamento, uma injunção, uma obrigação pura e simples de “inovar” (e não importa o termo, pode ser qualquer outro à escolha, pois o princípio é o mesmo). Com pretexto da moda, cria-se uma série de práticas vazias, que muitas vezes só servem para justificar a colocação de certos funcionários de administração. Cria-se programas inteiros, avaliações, práticas, de “inovação”, as quais sequer fazem parte da lógica inerente da organização e, mais ainda, passam a atrapalhar tudo o que funcionava anteriormente de forma espontânea.

Por pressão de modismos empresariais supostamente dirigidos a uma sociedade “dinâmica”, cria-se verdadeiras quimeras empresariais. Muitas empresas que não tem qualquer implicação para com certas dinâmicas da moda acabam adotando-as, não por necessidade orgânica, mas por simples modismo e injunção externa.

Não à toa há tanto mal atendimento, tanta má gerência, e tanta gente de saco cheio.

A Marvel acabou, e a culpa é do Multiverso

Fui assistir e hoje. Não durei 30 minutos na poltrona. A acabou e a pá de cal foi o “multiverso”. Explico.

Nos anos 1980/90, universos como a Marvel e a DC começaram a deixar seus criadores preocupados: a multiplicidade de histórias deixava tudo cada vez mais complexo. Quem comprava muito gibi começava a perceber que não havia linha nas ações, não havia mais concordância nas histórias, começava-se a perder as linhas temporais e espaciais, o que um herói fazia aqui não batia com aquele outro gibi etc..

Para corrigir isso a DC criou a “Crise nas Infinitas Terras”. Ela era uma espécie de obra universal que concentraria todos os personagens para dar uma espécie de zeragem no cronômetro e no ponto espacial: a partir do desfecho da “crise”, a DC nivelaria as histórias, resetaria o universo. Tudo teria sentido novamente.

O mesmo se deu na Marvel com sucessivas histórias, em torno de , , “novas” gerações ou séries (Ultimate etc) reunindo todo mundo em torno de seres cada vez mais poderosos.

E nos anos 2000 se intensificaram as adaptações ao cinema. De saída houve o descompasso de estúdios diversos para heróis diversos, começou tudo sem lógica. As adaptações, salvo raras exceções, atropelavam histórias, misturavam narrativas, encurtavam histórias que renderiam filmes inteiros em simples menções…

E deu no que deu: desperdiçaram munição, e tudo se passa como se não restasse mais nada.

Como, então, resolver o problema? A escolha, ao que parece, foi de repetir o que foi feito nos gibis dos anos 80/90, só que em sentido inverso: não se trata mais de tentar reunir as narrativas, mas de criar algo que permita admitir que daqui por diante nada precisará mais ter nenhuma coerência.

E assim se criou o Multiverso. As histórias estão discrepantes? Basta dizer que pertencem a multiversos distintos. Pois qualquer personagem agora poderá ter qualquer história. Poderá trocar de papéis, e até multiplicar o mesmo papel, pois daqui por diante pode haver um universo inteiro com um só herói. É possível morrer e ressuscitar, sem maior explicação ou fidelidade a uma narrativa. Afinal, estamos no multiverso! Desde que se coloquem algumas piadas no meio e o público ache graça…

Se este filme não colar, basta no próximo desdizer tudo, inventar um outro caminho do multiverso e assim por diante. Basta ter menos conteúdo que os sanduíches e refrigerantes que anunciam o filme.

Nietzsche, o “fdp”

Fui ver uma “fala” sobre Nietzsche no “Flow“, do Youtube: consiste num carinha que parece cheirado, falando um monte de palavrões e que Nietzsche “é um fdp”. Metade do video era merchand para gamers, outra metade dizer que Nietzsche é um fdp e que o locutor pensa na vida enquanto está no chuveiro.

Em algum momento eles citam Clovis de Barros Filho. Aí dá a entender que o jeito descolado e cheio de palavrões é para imitar Clovis de Barros.

É a velha receita, o velho atalho, de imitar a forma sem se apropriar do conteúdo: Clovis de Barros sabe o que está fazendo e seu jeito despojado de falar faz parte de uma estratégia de divulgação científica e de convite à filosofia. É o saber acadêmico em posição de humildade e inclinado à divulgação.

Já seu imitador o é apenas na forma, seguindo escolas como a de Ovalo de Caralho, sob a ilusão de que posição significa saber, e melhor ainda se ornado, mesmo que com o jeito desbocado olavesco misturado com streamer.

Clovis de Barros estudou, fez a lição de casa e faz divulgação científica. O rapaz desbocado é streamer, youtuber, o que seja, e o que busca é engajamento.

Nessas horas é bom saber que Clovis de Barros é um caso muito específico e que tantos professores universitários não estão sujando o mar da internet com mais plástico (boa parte dele já fornecido pelas IA’s).

O paraíso pavimentado à brasileira

O RJ sempre me pareceu ser uma espécie de espelho exagerado do Brasil. Tipo, se o Brasil realizar certas virtualidades, será parecido ou acentuará características existentes do RJ.

Hoje almocei no Shopping de Cabo Frio. É um lugar literalmente construído no paraíso: durante milhares de anos pessoas viveram aqui, pois neste lugar há o fim da Lagoa de Araruama, confluência de lagoa com mar de água límpida, transparente de um jeito raramente visto.

É tão raro que descrever como é a água por aqui não faz juz ao modo como as pessoas de fora deveriam entender.

Além disso, há muitos sambaquis por aqui, sem contar vestígios arqueológicos outros que poderiam eventualmente ser encontrados. É muito verossímil dizer que, quando Américo Vespúcio atracou aqui perto (onde hoje é conhecido como Arraial do Cabo), havia neste lugar muito índio morando e se alimentando fartamente, sem contar a mata exuberante e os outros recursos.

Mas o que se fez de fato foi um Shopping. A imagem é essa mesma, a de pavimentar o Paraíso, a História, colocando em cima asfalto, Mc Donalds e a especulação imobiliária da Região dos Lagos (todos os ítens combatidos por alguém que já se foi, Carlos Scliar, sem que outros tenham chegado).

Nada de Mata Atlântica (ela é um elemento estranho à paisagem e à percepção do cabofriense, artigo só para eventual gente de luxo da APA Pau Brasil, ja perto de Buzios – pois aqui tinha muito pau de tinta), de sambaqui, de História ou estórias.

O que há é Divertidamente no cinema, gente mal educada, serviço péssimo e, quando você sai para comer lá fora e contemplar a lagoa, fica ouvindo os motoboys do Iphood esbravejando aos gritos e trocando farpas com os outros funcionários que estão assalariados (sabe-se lá até quando).

(Suco de Rio de Janeiro, suco do que parece que o Brasil quer ser muito mais)