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Ameixeira amarela

Reservei uma noite de domingo para entrar no meu mundinho. Lembro que antigamente eu tinha mais destas viagens, agora estão raras. Coloquei para tocar por inteiro “A Tempestade” – último álbum da Legião com o Renato ainda em vida. Antes disso, instalei as caixinhas de som – compradas no free shop de Rivera em 2010, e que ainda funcionam muito bem. Queria assistir a última rodada da série B deste ano – pra mim sempre mais emocionante que a primeira divisão. Desempoerei as velhas caixas de som, as montei debaixo da mesinha nova que adquiri na Amazon para os dias de home office. Ficou bonitinho, pena que o sub que ecoava bons sons graves não funcionaram mais. 

Na semana anterior, recuperei meu velho netbook – aquele de tela de 11 polegadas adquirido na Irlanda. Meu computador favorito de sempre. Pedi para um amigo formatar e instalar uma nova versão do windows nele. Mas a emenda ficou pior que o soneto. Já havia adquirido um tablet, e vez ou outra acessava o computador da Camila, mais eficiente e menos estressor. E o Lenovo eu deixei pra lá. Desinstalei o windows e troquei por uma versão apropriada do Linux. Eu que não sou nada versado na tecnologia, senti-me orgulhoso por ter conseguido realizar a tarefa com êxito. 

Mesinha nova montada, computador antigo reavivado e caixinhas de som instaladas. Escolher A Tempestade foi fácil – o primeiro CD que comprei com muito esforço quando eu tinha lá meus treze anos. Uma volta ao tempo. Chuvinha lá fora, tentei colocar em dia algumas leituras dos blogs que eu sigo. Queria voltar mais vezes, mas tem tanta coisa que queria fazer mais vezes e a rotina só nos engole e não nos deixa. Gostei de viajar, dos sons, das canções. Gostei de escalar até a copa da ameixeira amarela. De lá enxergo muito do que não vejo daqui debaixo.

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Procedamus

O Brasil é uma república federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus“. Esta frase de Oswald de Andrade, está presente na contracapa do disco A Tempestade da Legião Urbana, de 1996. Um pouco triste de pensar como a frase encaixa perfeitamente não só no disco, mas em algumas áreas da nossa vida. Eu tive muitos adeus que ocorreram, mas em uma área em especial, foi sempre mais como um alívio do que tristeza ou luto.

Profissionalmente falando, acabei iniciando mais uma vez, após ter provas mais do que suficientes (inclusive na minha saúde física e mental), de que não dava para me manter onde estava. Já tinha tentado reiniciar outras vezes, sendo que só retornei a atuar na zootecnia, em 2021, pela oportunidade que me surgir ser exatamente no local onde eu falei que voltaria. E assim foi, aguentei dois anos e meio. Logo em seguida, acabei recebendo uma proposta financeira muito boa, e lá fui eu tentar mais uma vez. Durou menos ainda, só um ano e meio.

Após um breve hiato, coisa de dois meses e meio, surgiu a chance de um novo recomeço. E em quase todas as vezes em que iniciamos algo novo, o fazemos desde a base. O que requer muito planejamento financeiro e mental para ultrapassar a barreira do neofilismo. E deve-se ter sempre muita humildade para vestir o capuz do aprendiz. Quanto mais velhos – ou experientes – ficamos, mais difícil isso se torna. 

Em uma condição em que dominamos algo, fica confortável, e até egocentricamente mais potente a nossa relação com os pares. E saltar disto para a base da pirâmide é, além de difícil, um exercício de paciência e anti-fragilidade constantes. A cabeça doi, o cérebro pede hidratação. Erra-se muito, ganha-se pouco. Mas ao final do dia, cada novo avanço faz perceber que vale a pena. Ah, a paz de espírito, esta não tem preço. Não tem status, viagens ou jantares caros que a paguem. Dinheiro sempre volta, saúde nem sempre. Ainda mais pós-quarenta. Sigamos tentando.

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Sobre leituras

Sempre admirei a capacidade de realizar resenhas e críticas literárias. Não sou versado para tal, e quando tentei escrever sobre algo que li, nunca fiquei satisfeito com o resultado obtido. Entretanto, sentia quase que desde os primórdios do Cachorro Magro, uma necessidade genuína de conversar a respeito das minhas leituras. É solitário muitas vezes saber que existe alguma obra que nos impacta, e não falar a respeito.

Já havia algum tempo estava eu com uma certa dificuldade de terminar as leituras que começava. Mais do que isso, eu não conseguia sequer manter uma rotina de leitura satisfatória. Comecei em diversos momentos a ler algo novo, mas largava no meio. Depois tentava retomar e tinha que pegar do início, o que acabava por ser desestimulante ao invés de prazeroso. Acredito que isto tenha mudado mais recentemente, quando consegui finalizar algumas leituras inacabadas até mais rápido que o esperado. Mas nem para todas as obras.

Nesta semana, por exemplo, finalizei o livro Canção do Mar, do autor Pat Conroy. Para se ter noção,  comecei esta leitura em dezembro de 2023. Ou seja, foram 1 ano e 10 meses para finalizar um livro de 609 páginas. Retomava a leitura várias vezes, e a cada tentativa eu tinha que voltar um ou dois capítulos para lembrar da história, avançava mais umas cinquenta páginas e por motivos diversos interrompia novamente. Decidi terminá-lo sem interrupções quando restavam cerca de 200 páginas. E finalmente consegui.

Acredito que a demora, dentre outros motivos, deveu-se à densidade da história. Soma-se a isto, o fato de não ser um gênero pelo qual eu tenho tanto interesse. Mas fiquei feliz de terminar. Daí, você poderia se questionar, nossa, quase dois anos para terminar um livro. Mas é que eu tenho a mania de ler três ou quatro livros ao mesmo tempo. Daí alguma coisa acaba ficando pra trás, e daí demora mesmo. Num exercício mental, devo ter finalizado uns quatro livros físicos, e mais uns sete no kindle neste período. Para se ter uma ideia, ao mesmo tempo em que terminei a obra mencionada acima, eu leio mais três outros livros. 

Decidi então, mas sem saber se vou cumprir, que vou reler todos os livros que possuo no momento. Sempre achei bonito ter grandes estantes recheadas de livros, mas eu nunca consegui realizar este feito, pois devido ao minimalismo que habita em meu ser, eu acabo trocando ou doando quase todos os livros que possuo. Apesar de que já desde a pandemia que eu não me desfaço de nenhum, então por alto,  eu devo ter em torno de umas quarenta obras entre livros físicos e digitais para degustar novamente, ou pela primeira vez. Quem sabe eu relate essa experiência por aqui, ou quem sabe desista da ideia como tantas outras que já vieram e foram sem dar um adeus.

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Entre Mudanças e Alívio: A Calmaria Depois do Vendaval

O silêncio das manhãs tem outro som agora. Não é o mesmo silêncio carregado de cansaço e ansiedade que me fazia duvidar de cada escolha antes de levantar da cama. Desde que fui demitido, longe daquele ambiente tóxico e daqueles corredores que pareciam mais prisões do que passagens, algo mudou por dentro – e finalmente para melhor. Se antes eu acordava engessado pela letargia, hoje tem espaço para o respiro, o café quente e o tempo que volta a ser meu.

Outro dia, recebi a ligação de uma colega do antigo trabalho. Era para tirar umas dúvidas, mas a conversa logo tomou outro rumo. “Nossa, você está com outra voz, parece até mais leve.” E percebi, naquele instante, como pequenas mudanças na rotina – dormir direito, caminhar sem pressa, voltar a me escutar – começaram a aparecer até na forma como me relaciono com os outros.

Não tem milagre, nem festa de arromba. Tem ausência daquelas dores de estômago, da cobrança que nunca descansava, dos pensamentos que rodavam como liquidificador sem tampa. Tem sossego de verdade e uma espécie de alegria modesta, construída no detalhe: uma tarde sem pressa, uma lista de tarefas sem peso, uma mensagem de amigo só para saber se estou bem.

Me dei conta que fora do ritmo insano há mais vida, e que sentir-me saudável não era só questão de exames ou dieta, mas de encontrar sentido fora das métricas de performance. Hoje tem espaço para rir, cochilar depois do almoço, planejar coisas que fazem sentido só para mim. E, principalmente, reconhecer que aquele “tá tudo bem” não é defesa, é constatação: a vida pode ser mais leve, sim. E como é bom quando notam isso.

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Burnout: Entre o Café Frio e a Janela

Outro dia reparei no reflexo do monitor: pálpebras pesadas, olheiras parecendo tatuagem de guerra. Olhei para o café, já esquecido, frio, como se estivesse ali só para marcar presença. A cabeça sim, quente – congestionada pelos “deverias” e “precisas”. Lembrei de quando tudo era só promessa: “você pode ser tudo”, eles diziam. Cá estou, pertencente à geração que ouvia que bastava fazer faculdade para dar certo. No fim, a certidão de esgotamento parece ganhar mais valor que o diploma pendurado na parede.

Burnout chegou de mansinho, como um cachorro vira-lata que entra em casa e nunca mais vai embora. Não foi falta de aviso: os sinais estavam lá, camuflados entre reuniões, notificações infinitas e calendários coloridos demais. Nunca foi só cansaço; é aquela desconexão amargurada, como se a pessoa de verdade tivesse ficado do lado de fora, olhando pela janela. O corpo ficou automático, cumpridor. O resto virou eco de ambições que nem reconhecia mais.

Entre o medo de decepcionar e a vontade de largar tudo e sumir por uns tempos, veio a crise: ser produtivo até no autocuidado. Listei hobbies, marquei consultas, tentei encontrar um motivo nobre em cada pausa, como se descansar exigisse justificativa. Não funcionou. Descobri, meio sem querer, que tudo bem não ser desempenho, não ser meta batida, não ser inspiração. Tudo bem só existir, alguns dias.

No fundo, o que resta é desacelerar – mesmo que não seja moda, nem trendy. Sentar com o cachorro (ou ser ele, magro, meio perdido, perspicaz), sentir o cheiro do café passado e, pela primeira vez em muito tempo, olhar para dentro e dizer: “tá tudo bem não dar conta de tudo”. Porque talvez, enfim, isso seja o começo de encontrar um jeito mais leve de existir.

Sobre o burnout e repensar as escolhas

Bom, é isso, o título já nos diz tudo. Tive mais um burnout, desta vez bem mais duradouro. Sem episódios de uma crise como a de 2023 em que cheguei a ser hospitalizado, mas igualmente com requintes de crueldade. Um episódio ansioso pós retorno das férias, e que persistiu por umas boas semanas. Algumas moedas gastas com o psiquiatra, os psicotrópicos que voltaram a fazer parte da minha rotina. O rendimento no trabalho caiu significativamente, a incapacidade de desenvolver o tema para o meu projeto da pós graduação. Eu não conseguia pensar em nada, era como se uma nuvem cinza pairasse a minha cabeça. A labirintite que aumentou sua constância, o refluxo que chegou já com pé na porta.


Confesso que foi uma baita frustração, eu fiquei tão animado quando mudei de emprego. Imaginei que poderia ser um lugar para me estabelecer e me aposentar. Mas não foi esse o desfecho. Infelizmente ou felizmente, isso só o tempo irá dizer. A demissão veio após a brusca queda de rendimento e os inúmeros atestados. A tal da decisão estratégica da direção, corte de custos e blá blá blá. Apesar de incrédulo na primeira semana, ego ferido, afinal, nunca havia sido demitido, agora já respiro aliviado. Sem as crises de ansiedade, sem a labirintite, que após um tratamento assertivo, parece que foi finalmente resolvida.


Agora é o momento para um pouco de descanso, reflexões e cuidar da saúde. Bom que não tenho uma preocupação financeira imediata para precisar me jogar na primeira coisa que aparecer. Posso tentar e testar coisas diferentes, com calma. O pior já passou, e dentre os muitos altos e baixos que sempre relatei aqui no Cachorro Magro, as perspectivas são as melhores. Tem coisa que é livramento.

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Olá, 2025!

Olá, planeta. Para o Cachorro magro, aqui na blogosfera, o ano inicia-se somente no segundo semestre. E quanta água rolou debaixo dessa ponte, nossa! Muitas coisas boas, e outras nem tão boas assim. Sabe aquelas crises de ansiedade, que estavam ali, escondidas há mais de dez anos? Pois então, resolveram dar as caras. Ganhei cabelos brancos, um burn out, uma labirintite, colesterol alto, fui demitido… enfim, quarentei!

Olha, pode ter certeza, sempre que o Cachorro Magro passa muito tempo inativo, momentos de definições estão ocorrendo. E o primeiro semestre deste ano trouxe estes momentos. 

Mas vamos focar nas coisas boas. No último mẽs de abril o blog completou seus quinze anos. Em condições normais de temperatura e pressão, haveria uma série comemorativa. São poucos os que conseguem atingir tal longevidade. 

Foram tantas coisas não ditas, tantas frases não escritas nos últimos seis meses, que eu nem sei direito por onde começar. Ou melhor, recomeçar. E que desta vez seja com maior constância. Com mais qualidade, e com a mesma inspiração que vez ou outra me ocorre. 

Nas últimas semanas, consegui retomar minhas leituras. Havia tanto que eu sentia falta de ler. Consegui também escrever meu projeto para finalizar minha pós graduação. Consegui respirar, e aos poucos retomar as coisas simples. Como sempre fiz, e contei por aqui. Volto agora, e volto feliz.Talvez não no meu melhor momento, mas ao menos no melhor que eu possa ser por hoje. Olá 2025, desculpe a demora, mas resolvi voltar.

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Bonzano

Bonzano! ou “bons anos”, é uma tradição, que pelo que verifiquei existe somente aqui na nossa região, mas que infelizmente está se perdendo. 

Todo dia primeiro do ano, já de manhã cedinho, minha mãe me dava uma bolsinha para guardar as moedinhas que seriam arrecadadas. Meu pai já deixava separadas várias moedinhas, e balas para quem batesse ao nosso portão. Aguardávamos ansiosos para sair às ruas e bater nas casas. As crianças iam aos bandos, correndo e gritando “bonzanooo”. Todos os vizinhos recebiam calorosos aqueles que iam desejar um bom início de ano. Se não tinha dinheiro, davam um doce ou um afago, mas nenhuma criança saía de mãos vazias. 

A tradição dizia que deveríamos encerrar o bonzano até a hora do almoço. Depois, íamos felizes para casa e contabilizávamos o que foi arrecadado. Era dinheiro suficiente para passar as férias escolares muitas vezes.

O bons anos era uma tradição para desejar prosperidade ao ano que vinha chegando. Aprendemos o valor do senso de comunidade, do carinho que era cultivado por toda a vizinhança. A tradição foi se perdendo, sendo mantida apenas por familiares nos dias de hoje. Não vejo os pais deixando seus filhos baterem à casa de estranhos hoje em dia. 

Encerro esse texto desejando bonzano a todos que acompanham o cachorro magro.

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Troféu Cachorro Magro 2024

E chegou o momento mais aguardado do ano. Em todo 31 de dezembro ocorre uma tradição muito prestigiada no mundo todo. E não falo da corrida de São Silvestre. É o troféu cachorro magro que chega mais uma vez triunfante para premiar os melhores de 2024. Neste ano nem tão magro, devido a quantidade de petiscos e ossos de churrasco que o velho cão consumiu durante as festas de natal. Aqueles que não foram eleitos, façam o favor de se esforçarem muito mais em 2025 para marcar presença em meio a toda a pompa e glamour que a cerimônia proporciona. Vamos aos premiados:

Música – Cachorro Magro – Terminal Guadalupe

Álbum – Angra – Holy Land

Livro – Minha escola verde – Thakur S. Powdyel

Programa de TV – Brasil visto de cima à noite

Canal do youtube – mundo sem fim

Podcast – Futebol no mundo (tricampeonato neste ano)

Série – Smallville

Banda ou artista – The Smiths

Parabéns a todos os premiados! Até 2025.

Sem metas

Fiquei a pensar sobre a utilidade ou não de traçarmos metas de final de ano. Eu já fiz as duas coisas, já tive anos em que tracei algumas, e anos que apenas fui levando conforme as coisas iam ocorrendo. E principalmente ao analisar os resultados de 2024, coloquei em xeque se devemos sempre fazer as tais resoluções de ano novo.

Primeiro, pois pela minha análise daquilo que planejei para 2024, não cumpri nem a metade. Segundo, por eu ter conquistado coisas melhores do que as planejadas, sem ao menos ter colocado como meta. Terceiro, por ver que aquilo que havia definido como meta no início do ano, hoje já não faz mais sentido para mim. 

É importante sim a gente planejar e ter foco para alcançar algumas realizações. Mas a cada ano que passa, eu enxergo que focar numa coisa só vale mais. Lembrei que alguns anos atrás, eu lancei um desafio dos propósitos mensais. Em um era me alimentar melhor, no outro economizar. No outro estudar algo novo, então escrever melhor. Com este foco, uma coisa de cada vez, meus resultados foram muito bons.

Então talvez seja esse o caminho para 2025. Uma coisa por vez. Propósito aos invés das metas. Aproveitar a jornada ao invés de mirar no fim. Veremos daqui a um ano se terei tirado melhor proveito desta forma.