Convém ao governo não tomar posição para, com o seu tacticismo oportunista, ir escapando à veemência dos açoites e ameaças que o fazem estremecer. Assim vai sobrevivendo, acossado, sem honra e sem glória. Porém, à medida que o tempo avança, o medo vai também crescendo e paralisando as instituições, pois sempre que é preciso olhar as coisas a partir de cima, se opta por táticas rasteiras de sobrevivência, sempre de horizontes estreitos.
José Luís Brandão da Luz

A primeira reação de André Ventura aos resultados eleitorais do passado domingo, quando tudo indicava a sua passagem à segunda volta, foi colar ao próximo ato eleitoral de 8 de fevereiro o rótulo de um combate entre a direita e a esquerda. Causou estranheza que essa bipolarização, ostensivamente distorcida, tivesse sido de imediato replicada por muitos jornalistas e comentadores ao longo da noite. Toda a gente passou a dar por adquirido o sumiço da extrema-direita populista, e o espectro político português ficou, por ordem do Dr. Ventura, reduzido a dois grandes blocos.

Aconteceu, porém, que no incorrigível passear pelos canais televisivos tivesse deparado com o comentário do Dr. Alberto João Jardim à recusa de Montenegro a dar indicação de voto num dos candidatos da segunda volta das eleições. A base da pergunta era se a saída de cena do líder do PSD não tornaria Ventura o líder da direita portuguesa. Respondeu de imediato não, que a liderança de Ventura será certamente da extrema- direita, em que o PSD não está incluído, pois a matriz plural do partido, longe dos extremos, engloba o centro e as tendências à sua direita e esquerda.
No seu jeito descontraído, mas certeiro, Alberto João pôs ordem nas ideias e acrescentou que iria certamente votar num dos candidatos da segunda volta, aceitando democraticamente o apuramento do sufrágio popular que acabava de ser conhecido. Acrescentou ainda que a sua escolha iria depender do que os candidatos dissessem em relação aos interesses da Madeira, pelo que será provável que venha a tornar pública a sua decisão de voto, que até poderá vir a surpreender.

Releva desta história a argúcia política de levar até final o jogo eleitoral, cumprindo, sem hesitar, a regra que permitiu ao eleitorado apurar para uma segunda volta dois dos candidatos, entre os muitos que se apresentaram a sufrágio. Em lugar de se ter mostrado amuado, por haver perdido a primeira aposta, dispôs-se logo a continuar o jogo na segunda parte, recusando ficar a assistir na bancada, sem qualquer empenhamento nele.
Surpreendentemente, o líder do PSD e, logo de seguida, também os líderes regionais tomaram uma posição oposta: porque o eleitorado excluiu o candidato que apoiaram, o assunto deixou de lhes interessar, e pouco faltou para que apelassem à abstenção dos eleitores. Quiseram desvalorizar deliberadamente o alto significado da indicação de voto ou do apoio a um candidato, que tem servido para vincar o perfil ideológico do partido, sublinhando os ideais que o identificam e demarcando-o do que repugna ao seu corpo doutrinário.

A social democracia não tem afinidades nem com a direita radical, nem com a extrema direita, mas situa-se, pelo contrário, no centro esquerda, na defesa duma conceção reguladora do Estado, de modo a assegurar o bem-estar social, com saúde e educação para todos, os direitos dos trabalhadores, a justiça, a inclusão social. Apesar dos desvios neoliberais que a têm ameaçado, a sua linha ideológica não se compadece com políticas anti-imigração e de segregação de minorias sociais, ou a demagogia populista e o nacionalismo exacerbado. Seria, pois, de esperar que, em lugar de ostentar desinteresse pelo que se irá passar na segunda volta, os líderes políticos se pronunciassem e não desertassem de cena. Ao menos tivessem definido alguns pontos programáticos, como exigências mínimas a satisfazer pelo candidato a apoiar, conforme sugeriu, com perspicácia, o Dr. Alberto João, bem como uma jovem comentadora política da RTP1.
Todos percebem, certamente, as motivações encobertas nas considerações do Primeiro Ministro que terão justificado a sua deserção da arena política, logo prontamente seguido pelos líderes regionais. Atenuado o radicalismo do labéu “não é não”, opções desfavoráveis tomadas nas presidenciais iriam provocar alarido no hemiciclo de S. Bento, comprometendo cumplicidades que têm merecido séria contestação das centrais sindicais e reservas de personalidades de diferentes quadrantes. A opção do Primeiro Ministro pelo silêncio mostra-se, portanto, mais preocupante do que pode parecer, pois sugere uma derrapagem indesejável em direção à extrema direita, preferindo não honrar os ideais do seu partido, por mero tacticismo político.

A nível regional, não vislumbramos na ordem do dia reformas legislativas fraturantes, pelo que o seguidismo do líder regional do PSD terá certamente outras motivações. O rol de embaraços que tem comprometido o bem-estar regional, a coberto de entidades assombradas, como SATA, Lotaçor, Lei das Finanças Regionais, dívidas por pagar, endividamento crescente, faz desabar anualmente sobre os orçamentos regionais sérias dificuldades de investimento. Os conselhos de ilha erguem, um após outro, os seus clamores, acompanhados pelas mais diversas associações, cooperativas, câmaras do comércio e tudo o mais. A algazarra parlamentar faz o resto, entre discursos inflamados, gritos e apartes de dedo em riste, que ameaçam deitar abaixo o governo. O Presidente, de verbo fácil e fluente, move-se por entre os pingos da chuva, exibindo os bons resultados que tem conseguido em certas áreas da governação, mas que o comum das pessoas não valoriza, porque os não sente ou não entende. O resultado é o que se vê, acalmar os protestos distribuindo sacos de cimento para um lado, barris de asfalto para outro lado e assim por diante, para que cada um fique bem visto na sua rua ou no seu bairro.

Nesta situação, em que as rasteiras e a gritaria acabam sempre por provocar um certo medo, a última coisa a fazer será agravar as crispações, mesmo à custa de deixar de lado princípios e valores sempre postos em alto por “nossos pais antigos”, como dizia Antero. Convém ao governo não tomar posição para, com o seu tacticismo oportunista, ir escapando à veemência dos açoites e ameaças que o fazem estremecer. Assim vai sobrevivendo, acossado, sem honra e sem glória. Porém, à medida que o tempo avança, o medo vai também crescendo e paralisando as instituições, pois sempre que é preciso olhar as coisas a partir de cima, se opta por táticas rasteiras de sobrevivência, sempre de horizontes estreitos.
Cinquenta anos depois, a autonomia, que em tempos se quis afirmar de progressiva, vai dando sinais preocupantes de ir tomando um rumo cada vez mais seguidista!
José Luís Brandão da Luz
José Luís Brandão da Luz




















