— Dar-se inteira ao acaso. Entregar-se a qualquer coisa. Olhar na imensidão de vários olhos. Perceber a miséria e o encanto de tudo. Encontrar. Perder. Maravilhar-se com infindáveis detalhes do mundo. Notar respostas, coletar perguntas, refazer dúvidas. Andar. Sorrir novos sorrisos. Chorar só por dentro. Roçar línguas — de Cortazar, de Wenders, de Evora, de Hisaishi. Sentir a Terra puxar o dia de dentro da noite, vice-versa, pôr-do-sol, aurora, amanhecer, o céu roxo, púrpura, amarelo das seis da tarde. Aceitar qualquer regra. Entregar-se às circunstâncias, jogar-se às possibilidades, cruzar as si mesmas. Ensopar-se em malecons. Beber outros cheiros, cheirar outros sons, ouvir outros líquidos, tocar outros horizontes. Arrepiar. Abrir as janelas ainda não tão abertas. Sentir-se pequena, mas engradecer-se no processo. Recusar antônimos. Cair em qualquer rua. Odiar. Conhecer lamúrias não contadas. Colecionar todas as minúcias, registrar todos os tempos, categorizar todas as lembranças. Amar. Perceber o mistério de cada objeto, a impossibilidade da totalidade, o fracasso definitivo — e a beleza que existe nisso.
— Daqueles tempos imemoriais, Flora, esses dos quais sobram apenas realismos mágicos, mas que costuram para sempre nossa história, eu ouvi muitas coisas sobre ele. Te repasso tudo como uma possível resposta à destinação da vida. Disseram muitas vezes que, quando um primo se afundou numa lagoa de chuva de janeiro, época em que os bombeiros ainda haviam de chegar à cidade, precisaram buscá-lo em uma obra para que ele mergulhasse no profundo da água barrenta e tirasse o corpo ensopado de lá pendurado nas costas. Nos encontros fortuitos — na feira de domingo, atravessando os trilhos do trem, na orla da praia, puxando caranguejo do buraco —, os homens se divertiam chamando-lhe por nomes de carros, Vemag, Vemaguet, “ô, DKV! ô, DKV!”, riam, aos berros. Eu não entendia nada. Até que um tio explicou que, no meio do século, ele tinha a cara idêntica à de um automóvel alemão que só se via em São Paulo. O nome completava a piada. Também contavam que era muito briguento, que chegou a ser senhor de pequenas terras, que desenhou as fronteiras da cidade à mão da enxada, e todas essas coisas que o povo repete. Não vi nada disso. Quando eu finalmente o conheci, na verdade, ele já era outro personagem: repetindo as mesmíssimas brincadeiras (“Você vai tomar um burro d’um banho ou um banho d’um burro?”), dirigindo uma Brasília que, quando roubada, lhe fez cair no choro, esticando a volta da padaria para fumar um cigarro escondido ou caindo na gargalhada diante das várias tragédias corintianas, mesmo sendo, ele mesmo, corintiano enrustido.
— Mas, com meus próprios olhos, Flora, a coisa mais incrível que eu vi seu bisavô fazer foi traçar uma lua nova gigante pela arrebentação do mar. Era sempre às madrugadas: chegávamos em um Fusca azul chapiscado de cimento, no escuro definitivo do mundo, e eu o via fincar um varão na areia mole, abrir a malha fedendo peixe pescado, amarrar o cordão da bermuda na barriga e puxar o outro varão, atrelado à rede, de uma ponta a outra, às vezes por sobre as ondas, às vezes nadando no que há depois delas, até fechar a curvatura côncava, nova, às vezes minguante. Do outro lado, então, surgia aquele Vemag soturno, fosco, reclamando que só tinha vindo uns sirizinhos, pegovas e uma tainha perdida “que nem valia a pena da gente levar!”. Daí, então, o processo recomeçava, e ficávamos naquilo até que as duas luas finalmente se encontrassem, a dele e a do céu, antes do amanhecer, para encher nosso balde improvisado de balaio. De dentro do Fusca, eu podia sentir, perfeitamente, o giro do planeta.
— E, quando você ler isso, Flora, na imensidão do futuro, não se lembrará que a gente passou essas últimas semanas pensando em como te contar que o bisavô correu à praia, fincou um varão na areia, abriu uma malha imensa, fedendo muitos cheiros — dos carros alemães, das corvinas ainda escamadas, da primeira bicicleta, do cigarro fumado, do ferro do quarto de ferramentas, do cimento molhado à mangueira, da grama caída no chapadinho, do couro quente da Brasília, da infância toda — e entrou naquela arrebentação do mar sem mais luas para traçar. Dessa vez ele foi convexo, definitivo, um varão na areia e outro sabe-se-lá-onde. Mais malha do que homem, mais peixe do que balde. Decidimos, momentaneamente, te dizer que ele foi descansar, nosso recurso vazio — e como explicar a finitude para quem está começando? —, mas, agora, lendo isso, você já deverá saber que não. O bisavô foi é cortar outras ondas, mergulhar outras lagoas, fumar outros cigarros, ver outras coisas. Ele foi viver, agora sim, tempos imemoriais.
— Há de faltar sentido para você também, Flora. Tudo roda ao redor de si mesmo, essa imensa maçã azul do amor, estática no nada, dobrando eternamente as mesmas esquinas enquanto faz o dia e a noite, semeadura e colheita, memória e horizonte, passado e futuro, e que no mesmo movimento permite tudo tiranicamente acontecer: o tempo, deus do acaso, sujeição absoluta, quarta margem do rio, motor das coisas que você pode ir vendo do mundo, dos limites do que você pode entender, da força constante da saudade, reforçando o alerta constante dos transeuntes: “Ele, o tempo, passa, viu?”
— E nesse movimento eu consigo, exasperado, enxergar um pedaço do antes dentro do depois. Um antes que não parecia ter nada depois, só ele mesmo — aquele colo definitivo das madrugadas, a palavra “árvore” pronunciada numa única sílaba, renomeando todas as coisas, ou seu sorrisinho de noite de litoral, a matemática paralela das sonecas —, esse antes que agora é um depois repleto de outros depois possíveis, porque “o tempo passa, viu?”, e a gente não vai notando, só vivendo, enquanto a maçã do amor vai rodando, o tempo vai te atravessando — o colo hoje é um jacaré intruso do Antonio Prata, a árvore é só um gatilho para muitos dos seus por quês, o sorrisinho que agora entrou numa hierarquia complexa de risadas, o sono sempre como uma negociação tensa contigo. Se o planeta não fosse esse giro misterioso, o tempo também não existiria? E, sem o tempo, você seria sempre esse imenso e maravilhoso agora?
— Mas o dilema também roda em torno de si, e te notar crescendo, você agora uma adolescente da primeira infância, contestando até as leis da natureza, subindo nas árvores, imaginando o sorriso das bactérias, os primeiros traços da adulta, é um maravilhoso depois.
— Uma resposta irrompe, de repente, escondida num velho livro: “o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão.”
— Há de faltar sentido, Flora. O tempo passa, viu?
O seu berço chegou numa manhã de outubro. Anotei num livrinho: “eis o primeiro objeto da paternidade”. Parecia eterno. O moço da loja montou tudo em meia hora, cheio de outros objetos da mesma espécie para parir naquele mesmo dia. Nós passávamos devagar pelo corredor para vê-lo dominar o universo do seu recém-quarto, e jogávamos um joguinho de imaginar você dormindo nele enquanto a gente passasse devagar pelo corredor. Se pudesse, sua mãe dormiria lá, imensa de você, naquele colchãozinho de bebê, só para sentir sua presença ainda não presente. Por muitas noites nós fomos mesmo o seu berço, porque você só descansava no nosso colo — e acordava quando íamos te deitar. Filmes que prometi rever um dia com você me seguravam acordado (uns dos irmãos Dardenne, o Pedro Almodóvar dos anos 2000, “Ladrões de Bicicleta”, “Noites Brancas”, “O Pagador de Promessas,” além do melhor da época, “A Mão de Deus”, do Paolo Sorrentino). Depois, o berço virou tudo: caixa de brinquedos, novo jogo de passos pelo corredor, cama de bonecos, um gol às avessas, gaiolinha de cachorro, varal de roupa limpa, imaginação concreta, esconderijo, instrumento de medição, até ser o último casulo dessa enorme metamorfose entre deixar de ser bebê e se tornar criança. Daí, como um oceano que se cruza sem notar; numa manhã de outro outubro, alguém veio tirá-lo do já-quarto. Seus padrinhos alertavam sobre a iminência de você pular de dentro para fora, enquanto relatos davam conta que, aos três anos, são os filhos que precisam passar pelo corredor em direção à cama dos pais. Em paralelo, o mundo dava sinais desesperados do seu crescimento – o número dos seus sapatos que não para de aumentar, as perguntas aleatórias no nosso caminho para a escola (“papai, qual é a cor preferida das bactérias?”, ou “o que o xixi come?” ou ainda “o caçador pode ser amigo do índio?”), a possibilidade de comer (algum) açúcar, a entrada na lógica dos acordos. No lugar do berço veio uma cama, objeto definitivo da metamorfose, desses seus três anos, sem apoios para telinhas, mas com um encosto para te contar histórias antes de dormir. Sua mãe dorme lá com você noite sim, noite não, primeiro contrariada, depois imensa de você. Quanto ao berço, vai viver tudo outra vez com o Joca, já nas vésperas dos padrinhos.
– Me diziam que colocar mais uma pessoa neste mundo era loucura. Eu ficava sem respostas, mas hoje, três anos depois, eu já sei o que falar: que você, Flora, melhora este mundo.
– Sapatos ao contrário balançam no ar. Maçãs mordidas rolam lentamente pela mesa. Um fio de tinta azul escorre pela sobriedade da parede. A porta bate forte na imensidão do quarto. Lá tem muitos lugares para esconder coisas – sapatos, maçãs, tintas –, para fazê-las aparecer, para sumir momentaneamente. Um silêncio precede um chamado pelo pai, e o mesmo mecanismo é usado para contestar um pedido que, depois, vira uma ordem. No corredor, um pensamento súbito: quanto mais perto se chega dos três anos, essa imensa borboleta abandonando o casulo, essa adolescência da primeira infância, essa decantação existencial, mais dois mundos competem entre si.
– Um é o dos adultos, cheio de regras inexplicáveis, tempos próprios, rotinas viscerais, códigos não escritos, impondo sequências aparentemente lógicas, escovar-o-dente-colocar-o-uniforme-tomar-(bem)-o-café-da-manhã-pentear-o-cabelo-“estamos-atrasados,-Flora”-colocar-o-sapato-entrar-rapidamente-no-carro-“vamos-pegar-o-portão-da-escola-fechando!”. O outro é o da criança, também repleto de pequenas leis, tempos ainda mais próprios, códigos criados no instante dos afetos, mundo na dobradura do cotidiano, impondo outras sequências lógicas, “eu vou de pijama”, “posso dirigir o carro um pouquinho?”, “quero ficar descalça”, “vamos descer de escada bem devagarinho…”. E é do choque desses mundos que surge uma pessoa e todas as suas circunstâncias.
– Existem, porém, intermediações possíveis. Aos três anos, tudo é lúdico antes que seja rígido. A escova de dente é uma ferramenta para expulsar bichichos. O sapato potencializa a velocidade da caminhada. A escola é uma floresta tropical onde os lobos se tornaram grandes amigos das crianças, e o trânsito é um imenso tabuleiro onde todos estão tentando encontrar a maior quantidade possível de carros amarelos. Nessa fase, o invisível não é só o que não existe. É quando as coisas estão esperando para serem rebatizadas, quando os bonecos se acumulam como população: o cavalo Alípio, o urso Pedro, a ursa Rebeca, a hipopótama Glória, a raposa-travesseiro, o Totoro fazedor-de-árvores. O mundo é um monte de histórias paralelas não tão difíceis de notar.
– Mas tudo também é rebeldia até que seja lúdico. É que esse longuíssimo, violento processo “civilizatório” não poderia se estabelecer sem resistências – e as crianças logo o percebem. Há regras demais, os padrões são confusos, as explicações mais ainda, o mundo é uma máquina gigantesca de destruir vontades, e o pai e a mãe são, estranhamente, parte dela. É quando as coisas são reais demais para redefinições, quando elas se esforçam para se manter como elas mesmas. O mundo como um monte de permanências. E é também do choque entre todas as brincadeiras entranhadas na realidade e todas essas contestações que surge uma pessoa e suas circunstâncias.
— O desejo é soberano, definitivo, grosseiro, maravilhoso. Desde o início. Explode como a violência de uma flor, sozinho, na cozinha de uma quinta-feira, e reorganiza o mundo. Acontece mais ou menos nos meandros dos dois anos de idade, antes como afirmação primitiva — um choro cortante, o fio de um grito, um dedo apontado para qualquer lado — e depois já como o querer, essa invenção contraditória do pacto social que ordena outra vez as coisas. Então, como consequência inequívoca, irrompe — soberana, definitiva, grosseira, maravilhosa — uma pessoa. Uma coisa surge junto à outra, amálgama existencial que talvez condene a teoria da folha em branco à miséria. É quando as crianças enfim dizem, às vezes vociferam, outras balbuciam, no corredor de um sábado: “Eu quero”.
— A afirmação do querer nasce grávida da sua negação, numa dialética que jamais se completa, porque vai e volta na instantaneidade de cada acontecimento. É curioso que o gênesis se repita, o “não quero” saindo da costela do “eu quero”, como deixar-se ao desejo fosse nossa propensão mais humana, enquanto o “não” fosse a resolução externa.
— Crianças dessa idade estão sempre desejando num fluxo próprio: querem voar na asa do avião, pular num carro aleatório estacionado, comer cocô, mas também tomar sorvete no café da manhã, pular num brinquedo público — e invariavelmente voltam à afirmação primitiva quando são restringidos. É que a tarefa mais absoluta dos pais e mães é mover o pêndulo, segurar a balança, “isso se pode querer, mas aquilo não” ou, nesses nossos tempos, definir com clareza a liberdade de se querer e de não se querer.
— E eu fico pensando o que serão dos seus (não)quereres, Flora. Os adolescentes fumam cigarros no parque, os países fazem guerra pelo mundo, os desejos diferenciam as gerações, há tanta gente interessante por aí, e ao mesmo tempo os outros são todos infernos. Essa resposta é soberana, definita, grosseira, maravilhosa e, principalmente, somente sua.
O cadáver de um angelito passa rumo a um parquinho de Almagro assobiando uma canção cuja letra diz que a morte é uma invenção contraditória. Victor Jara clandestino no Chile. Carabinas verdes repousam num jardim francês, crianças pintam as bochecas de vermelho, uma pomba indecisa senta na cabeça de um velho general, os turistas não notam nada. No subsolo do La Moneda, uma venezuelana se orgulha do dia em que serviu café para o presidente, mas em seguida lamenta a ausência de algum veneno à mão. Não há concertação possível — tudo é um intervalo eterno entre o ditador e a crise. Os cabelos de Mendoza emolduram as tardes de um caracol de Providencia como memória instantânea da última glória do Colo-Colo. O angelito agora cruza uma pontezinha sobre o Mapocho cantando o ceachei. Lá embaixo, como um menino desencontrado, o rio corre depressa em busca da cordilheira perdida. Não há violetas, só pedras. Numa torre de Tajamar, um porteiro define nacionalidades: os chilenos são pacíficos, os brasileiros estão sempre sorridentes, os venezuelanos, violentos, os colombianos, ladrões. A estação Unión Latinoamericana fica a alguns quarteirões do palácio, não sem antes cruzar Ecuador. Na calle Baquedano se vende de tudo: de roupas a sonhos, de pedaços de computador a imaginários. Na TV ensinam a dançar cueca, no museu há fotografias de um Mapocho encontrado, na Plaza Italia ainda há gente que não voltou para casa desde o estallido. O cadáver do angelito sobe a montanha refazendo a pergunta: o que eu esqueci nessas ruas que sempre volto a elas? Lá de cima, nenhuma resposta. Só a cidade e suas milhões de espécies de solidão.
I don’t know exactly how, but I had already seen all that scene happening before: she going down the stairs wearing her highest heels, that black dress, wet hair, crazy bracelets on her arms, the finest jewelry she had, dressing herself to set me on fire, saying, only in her mind, but also through her eyes, something like that Brazilian song we would listen during long nights together: “I want to see what you do when you notice I can do very well without you”. What a beautiful woman, that woman I have been married to since my twenties and now, three decades later, is going down not only the stairs, but also to another life, one where another person is waiting to see her heels, her dress, her hair and arms and thinking about what a beautiful woman she is. Nothing out of our plans. We discovered we love each other a long time ago and, at the same moment, we knew we suddenly could be passionate for someone else. It could happen to us, of course. All these years I spent afternoons and nights with girls, a lot of them, and, in spite, I never thought I would be more than some hours with them — on the contrary, I usually came back home to see my real woman, my wife since my youth, waiting for me to end one more day. Our signal was the wine. Not only the wine: its fiery red, almost brown, invading the pure white of our couch. When one of us decided to do it, to throw wine on that couch, so all the thing had happened — she or me firing in passion for another one and the definitive end of us as that strange couple. And I had seen that scene before too, her glass taking its direction to the couch in a slow pace, the wine (I bought in Portugal) anxious to catch that virgin white, a kind of red-white, sad scene happening first as a fear and then as a fact. And so she took her glass, looked at me with her also red eyes and confirmed I was getting the whole thing. So she closed the door and left the room making her heels stomp the rocks of the street. In the silence of the night, minutes after she got her way to somewhere, I looked around and noticed the first scene I hadn’t seen before during all that time: the stained white couch in the middle of room, poor couch, singing in a shy voice: “I want to see what you do…”.
— Aos dois anos, o dispositivo do temor parece pronto, mas o do medo ainda mal começou a funcionar. É assim que as crianças prosseguem além dos seus limites, cruzam suas próprias fronteiras sem depender da confiança em um outro para salvá-las, nem sempre tão seguras. Ainda assim, arriscam mais do que hesitam. O temor adia o ímpeto, mas não o impede. O medo é a antecipação metafísica de qualquer coisa. Por quanto tempo esse desequilíbrio permanece? Na perspectiva do futuro, talvez a vida inteira: ora temendo mais do que se deveria ora menos amedrontados do que precisávamos estar.
— Nessa fase da vida, não há argumento que equilibre os dois sistemas: para as crianças, dizer que elas “vão se machucar” ou definir uma experiência momentânea como “perigosa” são palavras ao vento. O fato é definitivo — e, na imediatez do presente, nada é tão arriscado. As histórias começam a pulular à distância: um garoto que quebrou um braço por cair da cama, ou o outro que se perdeu dos pais por 20 minutos numa feira livre, ou a bebê que tomou água sanitária. Viver é dionisíaco, os afetos são guias, os estímulos são totais, elas o sabem bem, e respondem apenas se machucando e cruzando os perigos por dentro deles.
— Nós, pais, é que entramos no nosso próprio pêndulo: entre o temor-medo constante deste mundo e a beleza das manifestações da infância. É uma contradição: dentro de cada descoberta, uma ameaça. Eis é a história de todas as coisas.
— Mas, numa noite, numa única noite de janeiro, Flora não queria dormir. Luzes apagadas, livros do fim do dia lidos, ursinhos acomodados no colchão e ela, até então entregue ao sono, sussurrou numa voz baixa quando eu já estava quase no corredor: “Estou com medo, papai”. No silêncio do quarto, parecia o único sofrimento existente no mundo. Não era temor, mas sim suas engrenagens começando lentamente seu movimento — o medo como essa matéria fina que só existe na dúvida do que pode acontecer no minuto seguinte ou, pior, do que pode existir oculto na eternidade. Na nossa escuridão, eu a experimentava como a sujeição ao que não se sabe, e Flora só queria estar acompanhada do pai naquele lugar inóspito. Uma descoberta, uma ameaça. Voltei, pus minha mão sobre seus cabelos e disse, também baixinho, também incerto: “Não vai acontecer nada com você”.
— Diante do medo, e antes do temor, só há uma alternativa: a esperança.
— Andando pelas ruas da cidade, de qualquer cidade, eu consigo ver tudo o que você pode ser. Me exaspero num lapso, você menina, todos os dilemas do mundo, as tristezas que você inevitavelmente vai sentir, as contradições ao alcance das mãos, suas dores e as dos outros. Você, como eu menino, copiando os versinhos dos modernistas para te ajudar a entender. No outro lapso me conforto: você existe — e existir é isso, Flora, esse sábado à noite em que todas as coisas estão dispostas, da solidão à descoberta, esse gris em que o preto e o branco não se misturam, mas também se misturam, numa coleção eterna de outros lapsos. É miserável, mas é bonito.
— Andando pelas ruas da cidade, dessa cidade, eu desejo te ver sempre perto. Volto a me exasperar, porque os filhos são feitos para povoar a Terra, renovar as expectativas, prolongar as possibilidades, reinventar as próprias reinvenções deixando, ao mesmo tempo, uma parte do passado intacto. Nessa ânsia de refazer o mundo, os pais costumam ser apenas uma lembrança na parede. Logo chegará o tempo em que haverá em você todo o sentimento do mundo. Mas volto a me confortar, porque eu vi você na palavra (“Estou grávida”), no sorriso mais sincero da sua mãe, na excitação dos seus avós, nas roupinhas penduradas nas gôndolas, no berço cheirando à madeira nova, depois vi você ser sensível ao primeiro sol do dia, e então cruzar o corredor da escola convicta, dizer seus desejos, se aninhar no nosso colo como uma mulher madura. Os filhos também são feitos para nos povoar por dentro.
— Andando pelas ruas da cidade, da nossa cidade, eu almejo desobedecer o tempo — e viver ele inteiro ali, só ali, caminhando com você aleatoriamente pelas ruas do bairro, perseguindo os cachorros, dando nomes às coisas, se impactando com a altura dos prédios, conversando sobre algum assunto até que um desconhecido apareça e te chame de “mocinha”, para você ficar o resto da noite repetindo “mocinha”, “mocinha”, quase como se estivesse ansiosa pela sua mocidade. Me exaspero e me conforto em paralelo, porque sei que você irá ao mundo e, no mesmo movimento, vai estar aqui andando comigo sem destino pelas ruazinhas do bairro.