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O Pai Nosso que está em Casa, nada contente, oferece-nos urgente, mais uma chance de sermos gente.
Aprendemos sim, pela estrada afora, mas salve os mestres, os livros, as escolas…Só assim, entenderemos, que votar por votar ou escolher errado, significa andar na contramão. E, vírus que mata milhares de cidadãos, sua mãe, seu avô ou sua vizinha, não é um simples resfriado ou uma simples “gripezinha”.
Aprendamos definitivamente, que é chegada a hora de devolver ou dividir o Pão Nosso Sagrado, a quem você mais tem desprezo ou aos surgentes sem esperança, sem teto, sem emprego.
Meu caro, não entendemos nada da vida, mas esta dor nos revelará o sol, que apontará para saída.
Portanto, mais do que marcharmos em direção aos templos, ficarmos em casa é o nosso maior exemplo!
ANA TEIXEIRA – Março, 2020
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Como me dirigir a uma criatura, que mesmo sem convite, pode me visitar? Como te chamar? Senhor, senhora, excelência, sei lá…
Eu, conectada, assustada, desconfiada… Imaginando-te como uma sombra. Estaria na minha boca ou nas pregas das roupas? No cantinho sala ou na umidade das toalhas? Circulando nas minhas veias ou dentro das meias? No fundo das panelas ou pulando as janelas?
Eu, perambulado pela casa, lembrando-me de piadas, cobrindo-me com capas. Recontando os amigos, sentindo-me de castigo. Com saudade do cinema, esperando telefonemas. Querendo ter asas, enquanto na calçada, alguém deseja morada.
Inimigo impalpável, difícil de atacar! Mas se estivesse visível, meu caro, com as forças que tenho, iria te cegar! Mastigar-te inteiro; engolir-te devagarzinho. Fazer-te lastimar e uivar de dor, expulsá-lo com a massa podre do meu cocô. Mataria você antes da hora, desdenharia da sua frota, porque não aceito derrota!
Mas um dia irá embora, e alguém contará sua história: A fábula de um vírus louco, que estapeou os donos do mundo, que pensavam ser tudo, mas nunca deram ouvidos a felicidade. Agarraram-se, então, ao vazio estúpido da vaidade.
Donos e inquilinos de mansões, altares e puxadinhos, de tanto falar de amor, não sentiram o prazer de amar. Projetaram milhares de sonhos, mas jamais souberam agregar. E para entender o peso de um abraço, foi preciso se isolar.
ANA TEIXEIRA – Março, 2020
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Pequenina pensava,
Que qualquer água era a mesma coisa.
Se estivesse turva ou se fosse chuva,
Em qualquer quintal, haveriam de se encontrar.
Imaginava,
Que o mar de tão imenso e copioso fosse imortal.
E na sua divindade , debruçava-se sobre a terra,
Engolindo o céu, espalhando sal.
Acreditava,
Que o indispensável pertencia a todo mundo:
Uma flor, a brisa, um lugar…
Mas tudo fora repartido, e eu não estava lá.
Ana Teixeira – Março, 2020
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Às vezes preciso ficar sozinha para duvidar de mim. Ontem e hoje, duvidei.
Assistia a um programa de televisão, quando o apresentador informou, que um dos colegas de profissão havia falecido. Então, mostraram uma sequência de fotos e videos do morto em vida. Ora sorrindo, ora compenetrado, exibia cabelos grisalhos, pele turva e amolecida, entre outras características. Ao final da homenagem, congelaram o rosto dele na tela, onde estava registrada a data de nascimento e morte. Engoli a seco, e ali fiquei, até que aquela sensação saísse de dentro de mim, pois constatei, que as nossas idades eram próximas. Indaguei-me: Por que ele, e não eu?
Não que quisesse trocar de lugar com o desconhecido, mas porque na narrativa da reportagem, parecia que era bom e natural morrer. Algo glorificante após os cinquenta.
Daí, estou refletindo sobre ter cinquenta anos ou mais…
Entre amigos, fazemos piadas desta sobrevivência, literalmente do-lo-ri-da, mas se não fosse o nosso senso de humor, essa dor seria uma grande tristeza. Mas somos de uma geração que aprendeu a sacudir a poeira.
Por que me incomoda o sobrepeso e outros danos da idade? Que peso é esse, que me faz perder de vista o meu próprio calendário?
Juro em falso todos os dias, que jamais comerei o tanto comera na última refeição. Arrependendo-me, por não ter usado protetor solar naquele dia de sol ardente. De não ter caminhado um dia a mais na semana. De não ter evitado um pedaço pudim. De não ter deixado na loja aquela caixa de chocolates ao leite. Um duelo diário entre as delícias e o meu corpo, que julgo imperfeito e desafinado para os dias atuais.
As mídias nos enfeitiçam com físicos impecáveis, que ainda não sofreram com a maldição da gravidade, e esquecemos que uma biografia de monta, como a nossa, deixa marcas permanentes, e infelizmente, intransferíveis.
O que pesa mesmo, não é a idade ou o que está apontado na balança…
Somos passivos frente aos acúmulos. Queremos entrar nas roupas que não cabemos. Queremos sempre as mesmas coisas; a mesma família; os mesmos amigos; a mesma casa; a mesma silhueta… Mas a ansiedade desses desejos, pesam muito mais, do que quatro fatias de uma pizza quatro queijos.
Por que tão relutantes? A família se incompleta aos poucos; alguns amigos não mais fazem falta; a casa tinha apenas paredes; e definitivamente, a nossa robustez entrará em declínio, até que sejam sugadas pelas raízes das plantas. Então…
Não faça promessas,
Nem chegue às pressas.
Não fertilize culpas,
Escorregue primeiro, depois peça desculpas.
Segure a minha mão, mas não aperte,
Acorde, mas nem sempre desperte.
Resistentes e certeiras são as serpentes!
Nós estamos à pururuca, como as cascas de sorvete.
Rejeite caronas e despreze palpites,
Finja que aceita. Selecione os convites.
Se disserem que sim, hesite.
Se disserem que não, duvide!
Existe sobrepeso, que não precisamos carregar.
ANA TEIXEIRA – fevereiro, 2020
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Quando a companhia de um amigo clareia tudo, principalmente o seu dia:
Qualquer coisa que se faça junto, torna-se mais leve, mesmo que o tempo fuja ou seja breve. A pele fica mais exposta, a porta mais aberta e a mente menos concreta.
A receita?
Permita, que o carinho, misture-se a um delicioso vinho, que contenha mais sabor do que teor.
Permita que conversas temperadas de humor, desenrole-se como bobinas. Desvie-se para degustações de experiências, e até pretéritas fotografias, que silenciosas e enigmáticas, aglomeram-se em retratos fundidos, confundidos… Lá estarão as lembranças, as esperanças e as refinadas alianças.
Congelado ou não, o encontro é colisão que acontece, além de qualquer pretensão. Nesta roda, giramos na velocidade que sacode o coração, porque a vida é sol e efeito, que faz do simples “estar junto”, um plano real e perfeito.
Ana Teixeira – Janeiro, 2020
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Dois mil e vinte,
Pedimos, que dois mil e dezenove fosse um ano feliz. Alguns pularam as ondas e fizeram oferendas, enquanto outros, ajoelharam-se em frente ao altar do seu próprio mar. Comemos lentilhas, sementes de romã e uvas. Usamos cuecas e calcinhas de todas as cores, e a casa decoramos com frutos e flores.
Finalmente, o soar dos tambores e os desnecessários rojões anunciaram a sua chegada. Tudo isso para nada? O que foi que aconteceu? Cadê, tudo aquilo, que a esperança nos prometeu?
A paz passou por aqui, isso é verdade. Mas a espantamos sem a mínima piedade: Intolerância, uso de armas letais, rinhas de animais…
Amai-vos uns aos outros? Parece que este amor foi afugentado. Brigamos por nada. Matamos por tudo. Esquecemos, porque o descaso virou rotina.
Por este amor fizemos tão pouco! Em nome dele estamos endividados e divididos… Para uns, a vida boa em demasia. Para outros, a vida é pequena amostra, cortesia.
Dois mil e vinte, ouça o nosso clamor, e tente não nos abandonar! Deseje-nos voejos mansos, que busquem fortaleza e liberdade. E que este bater de asas, vista-se de abraços longos e latejantes. Preencha o nosso pensamento de vontades sãs e atitudes de mais bondade.
Guia-me por roteiros e trilhas esculpidas pela poesia e povoadas de amigos, que mesmo a distância queiram sonhar comigo.
Se esta é a nossa estrada. Vamos!
Se esta é a nossa dor. Amém!
Mas é pra começar de novo, já foi dito:
“Ninguém solta a mão de ninguém”.
Ana Teixeira – Dezembro, 2019
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Viver nesta desinteligência tem sido um desafio inesgotável, infinito…
Fui a uma loja de brinquedos com objetivo comprar um presente de aniversário, mas entrei num confronto, que se transformou em batalha.
A loja estava vazia, pois o shopping acabara de abrir, portanto, o segurança, estava bem a vontade para me seguir a cada passo. É impossível explicar, o que isto significa e o constrangimento detonador que isto provoca. Só quem é preto entende.
Resolvi andar rapidamente pelos corredores em zigue-zague. O segurança enlouqueceu. Nem tentava mais disfarçar, que estava no meu encalço. Quando cheguei no último corredor, joguei no chão algumas caixas que estavam empilhadas. Uma delas estava aberta, e as pecinhas se espalharam para todo lado. Com essa eu não contava… Imediatamente surgiram vários funcionários para arrumar a confusão.
Enquanto isso, dirigi-me ao segurança. Disse-lhe em voz baixa e compassada: _Se você não parar de me seguir, colocarei essa loja abaixo. Você me entendeu? Comprarei o que preciso, e só sairei daqui na hora que euuu quiser! Não sou tola a ponto de pensar, que câmeras ocultas também estão me observando, mas você não está oculto, e a sua atitude racista me fere… Você foi orientado para agir assim, mas também precisa saber como me sinto. Talvez, isso te ajude a pensar num outro emprego ou te dê a oportunidade de repensar as ordens que recebe.
Confesso, que não terminei a fala compassadamente, pois estava enfurecida. Embora tenha dito isso ao segurança, não me sentia forte como gostaria. Sentia-me, mais uma vez indignada e humilhada. Mas em nome desses sentimentos precisava me manifestar para não enfartar ou renunciar de vez.
Tentando cumprir o meu objetivo, procurei uma vendedora, e solicitei que me apontasse onde estavam os brinquedos para crianças de um ano. Então, ela me responde com uma pergunta:_Menino ou menina?
Com muita preguiça, respirei fundo umas três vezes, e repeti: _Onde estão os BRIN-QUE-DOS para crianças de um ano? Ela me respondeu: _ Entendi. É que nunca parei para pensar. Brinquedo é brinquedo, né? Ela riu de si mesma.
Resolvi não deixar o meu dinheiro naquela loja. Chamei o gerente para conversar sobre os dois ocorridos. Enquanto o aguardava, no corredor das bonecas, uma menina de uns três ou quatro anos, chorava e puxava a mãe pela blusa. A mãe, que por sinal estava muito irritada, segurava uma boneca: Um bebê branco, careca e com uma chupeta na boca. A menina num choro sentido, resmungava: _ Eu quero a boneca preta! Mamãe, eu quero a preta… (parecia até o menino da propaganda do brócolis).
Parei, pois precisava entender o que acontecia. A história: A menina queria uma boneca negra, mas a mãe queria, que a menina levasse a boneca branca. Simples, assim? Não pra mim.
Sim! Mais um dia acordei para guerrear! Lembrei-me da última coluna do Alexandre Schneider (Sob a névoa da guerra), onde ele diz ao final da coluna: “Em uma democracia, o perigo não é a revolta, mas o silêncio.”
Fingi que também procurava uma boneca, mas estava atenta ao desenrolar da cena. Até que a mãe espremeu a menina num canto, pegou a boneca branca, e disse: _Não estamos na sua escola e não sou a sua professora! Em casa você brinca com essa aqui! Virou as costas, e seguiu em direção ao caixa. Largou a criança ali. Chorava, pois não entendia, por que na escola, brincava com bonecas negras, mas não podia levar essa mesma boneca para casa.
Pensei em deixar pra lá. Sinceramente, estava com um nó enorme na garganta, mas, não podia desamparar aquela menina. Tinha que ser rápida! Como o adulto é complicado, inflexível e burro, resolvi agir para que a menina entendesse. Entreguei-lhe a boneca negra. Cheguei bem pertinho do ouvido dela, e disse: _Se joga no chão e chore. Grite bastante, que a mamãe compra a boneca que você quer! Vai!
Ela não pensou duas vezes. Não só se jogou no chão, como babava, e arrastava-se pela loja. A menina parecia possuída. A mãe voltou assustada, e eu saí de fininho… Fui falar com o gerente. Um dia conto tudo sobre essa conversa.
Encontrei novamente mãe e filha na saída da loja. Eu, sem o que fui comprar, e a garotinha com os olhos vermelhos, mas com a guerra vencida.
Não acabou por aí, o inesperado estava por vir… Para me despedir, olhei para a menina e dei uma piscadinha. Ela nem pestanejou! Jogou-se no chão de novo e começou a chorar e gritar: _Eu quero a boneca preta! Eu quero a boneca preta!
Eu e a mãe da criança ali, sem saber o que fazer, sem saber o que dizer. Mas talvez seja um aviso: As pessoas podem até concordar com você, e livrarem-se de problemas maiores, mas na primeira oportunidade, elas voltarão às mesmas práticas. Então, continue gritando! Missão cumprida com sucesso? Não, infelizmente, a guerra continua.
Para completar a história que vivi ontem, cito o livro INOVAÇÃO ANCESTRAL DE MULHERES NEGRAS – Táticas políticas do cotidiano: “Eu tenho o poder de fala. Um mundo pode se construir a partir da minha fala. Eu luto para que um mundo, um velho mundo se desconstrua com a minha fala” – Maitê Freitas.
Por mais bonec@s pret@s!
Ana Teixeira – Dezembro, 2019
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SABE, AQUELA AMIGA, que sentimos falta toda hora? Nela estão os trechos deslembrados da sua história.
SABE, AQUELA AMIGA, que era apenas uma vizinha? Um belo dia, ela lhe ofereceu, justo aquilo que você não tinha.
SABE, AQUELA AMIGA, que te desce das nuvens no exagero das viagens e fala pra você um monte de bobagens? Ela jamais se importou com o tamanho das suas bagagens.
SABE, AQUELA AMIGA, que você conheceu no trabalho entre risos, metas e horários? Agora te conta segredos, sem controles, sem cenários.
SABE, AQUELA AMIGA, que foge, troca de celular, enfim, de-sa-pa-re-ce? Não adianta fingir que não liga, porque ela é do tipo, que a gente não esquece.
SABE, AQUELA AMIGA, que nasceu em você como uma flor melindrosa, bem devagar? Para coração que é vaso, ela sempre esteve lá!
SABE, AQUELA AMIGA, que é delicada de inverno a verão? Para te defender ela vira a mesa. Arma-se de leão!
SABE, AQUELA AMIGA, que é briguenta pra burro e está sempre pronta para discordar de tudo? Ela é a pessoa ideal para desatar este mundo.
SABE, AQUELA AMIGA?
Ana Teixeira – Dezembro, 2019
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As mãos dos lobos são enormes, sujas, desfiguradas… Grandes, porque são adultas. Sujas, pela desatino cruel, que retira-lhes todos os limites. Desfiguradas, porque falo de monstros.
São cidadãos comuns, com uma rotina organizada e feliz. Sádicos e infelizes, desejam-lhe um bom dia, que hoje sei, é frouxo, sem luminosidade. Fazem gentilezas premeditadas, mas são estúpidos e de bondade traiçoeira.
Figuras genéricas, que enfeitam suas casas com plantas, quadros e bibelôs quebrados. Contemplam o sol, mas não se queimam… Respiram, mas jamais souberam acordar e viver.
Não fazem diferença entre uma criança e uma cadeira. Enrolam tudo na mesma sombra. armazenam tudo na mesma caixa. Arranham tudo com a mesma barbárie.
São espécies pioradas da raça humana. São restos esquecidos dentro da mais profunda escuridão, que despertam para fazer maldades, testemunhando o lento desencanto das vítimas que faz.
Oportunistas perigosos, estão pelos cantos, esperando atrasos, enganos, descuidos. Deixam marcas e cicatrizes irreparáveis, que o tempo na sua piedade, apenas congela, mas é incapaz de curar.
Ana Teixeira – Novembro, 2019
É responsabilidade de todos proteger crianças e adolescentes contra qualquer tipo de violência, incluindo a violência sexual. Denuncie!
Texto cedido para o GRUPO DE APOIO SOL.
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Professora do Estado, 1989. Comecei a trabalhar no mesmo dia da Atribuição de aulas. Não contava com isto, mas a escola tinha urgência.
Cheguei com antecedência. A Inspetora de Alunos me levou até a sala dos professores e pegou o documento que estava em minhas mãos.
Na sala dos professores, alguns “colegas” conversavam entre si. Sentei-me e aguardei que alguém da Direção viesse falar comigo, ou que pelo menos, um dos professores quisesse saber o meu nome, mas nada disso aconteceu.
Bateu o sinal. Todos saíram. Fiquei sozinha. Não sabia para onde ir. Uns dez minutos depois, entrou a mesma Inspetora de alunos, e disse:
_ Você não irá para a sala? Os alunos estão esperando. Dobradinha, tá? Você fica com a turma até a hora do lanche.
Como resposta ao meu assombro, ela me olhou desolada, e para o meu total desespero, completou:
_ As aulas não são de História, e sim de Geografia, mas é a mesma coisa.
Odeio quando dizem que Geografia e História, trata-se da mesma coisa, mas não estava em condições de discutir, aliás, queria mesmo voltar para casa, e lá sim, remoer o meu ódio.
Levava uma pilha de livros nos braços, sabendo, que nenhum deles seria utilizado, mas não nego, ajudaram-me a manter o equilíbrio do corpo. Aula de Geografia… Jamais imaginei.
A Inspetora atravessou o pátio comigo. Indicou a sala de longe. Fui sozinha. Hoje tenho a certeza, que ela ficara no meio do caminho, para zombar da minha desgraça.
Dei uma breve parada na porta da sala. Pensei em pedir a proteção de Deus, mas Ele estava pisando na bola desde que cheguei, portanto, duvidava, que pudesse me dar algum socorro. Numa escola sempre tem alguém precisando muito Dele. Certamente teria que entrar na fila, correndo o risco de ser a última.
Entrei, coloquei a pilha de livros inúteis sobre a mesa, e me escondi atrás dela. Só reapareci, quando os alunos terminaram de copiar da lousa a lição da aula anterior.
Dobradinha, né? Vamos lá! Apresentei-me. Tinha ainda uma hora para morrer devagarinho… Iniciei a chamada nominal. Num determinado momento, chamei pelo nome Fabiano, e uma voz feminina respondeu. Chamei novamente, e aconteceu a mesma coisa. A turma caiu na risada.
Então, uma das alunas (monitora da turma) falou em voz alta:
_ É isso mesmo professora, ele é menino, mas fala como menina. É bicha.
Dei um sorriso amarelo e ele me acenou. Percebi que não precisava de livro algum naquele momento. Nenhum escritor daquele acervo que carregava daria conta desta pauta. Olhei para o aluno Fabiano, e perguntei:
_ O que eu faço? Ele respondeu com tristeza:
_Eu sou Fabiana. Eles me chamam assim. Não sei o motivo da risada – A turma gargalhou novamente.
1989… Não tinha experiência como professora, mas a habilidade humana que há em nós, desde o nascimento da carreira é muito maior do que imaginamos. Apostei nesta crença.
Recomecei a chamada. Solicitei, que cada um falasse para a turma, como gostaria de ser chamado, e fui anotando os “apelidos” na frente de cada nome. Quem não tinha pensado a respeito foi motivado pelos colegas. Alguns preferiram o próprio nome, mas a maioria optou por apelidos dados pela família. Foi divertido. A própria Fabiana, preferiu ser chamada de Fabi, aceitando a sugestão dos colegas. Eu também gostei.
Aliviada a tensão, aproximei-os de mim. No primeiro dia entendi, que a generosidade também precisa ser estimulada, porque, o que a Fabiana desejava era algo muito simples e possível, sem que nenhuma lei exigisse algo tão óbvio e natural.
Bateu o sinal, lamentamos juntos. Saí da sala feliz e com aquela maldita pilha de livros. Ao atravessar o pátio, em frente à cantina, escorreguei e caí. Esparramada no chão, pensei: “Morri sem conhecer a Diretora”.
O Fato é que não tinha morrido, portanto precisava levantar. A primeira pessoa que me ofereceu ajuda foi a Fabi. Levou todos os meus livros para a outra sala, e na despedida, abraçamo-nos demoradamente. Único ato fraterno e receptivo que tivera até então. Precisávamos daquele enlaçamento.
Ana Teixeira – Outubro, 2019
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PROFESSOR@S E BARCOS
Quando olho pra vocês,
Vejo inquietações querendo esperanças.
Neste momento…
Tudo que sonhamos se agiganta…
Quando olho pra vocês!
Sei que vislumbram novos dias.
Neste afã, trocamos tudo,
Saberes, pesares, manias…
Quando olho pra vocês!
Sei que ensiná-los é apenas intenção.
Aprendemos juntos, viramos do avesso!
Nada desata o que é construção!
Quando olho pra vocês!
Estou cert@ que um dia irão sem escoltas.
Os barcos estarão no mar,
Não encontrarão âncoras nem caminhos de volta.
Ana Teixeira – Outubro, 2017
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