Encontro com Segismundo

lisboa

Calar, aceitar o que nos impõem arbitrariamente, mantendo-nos em silêncio, é pactuar com aqueles que ofendem a nossa dignidade e a nossa honra. Nunca foi esse o meu lema, mas a falta de saúde, e a passividade de grande parte do povo português tem-me feito pensar se vale a pena o desgaste, que faz roçar as fronteiras de uma depressão.

Num daqueles dias em que nos apetece viajar sem destino, optei pelo contrário, tomei o comboio, e rumo a Lisboa (Santa Apolónia). Chegado ao destino, amparado pela minha bengala sigo junto ao tejo caminhando, deliciando-me com a beleza do Rio, inalando os perfumes da Cidade Alfacinha, quando esquecendo as dores de uma perna, dei por mim na estação do Cais do Sodré. A espera dos táxis junto á estação, bem como o acelerar constante dos autocarros da carris, misturavam o co2 dos seus escapes com o bem agradável perfume do café, e dos bolos das pastelarias da zona, bem ao fundo o tejo, servia de senário á paisagem do emaranhado do casario da minha bela cidade. Entrei numa pastelaria, pedi um bolo e um sumo de laranja natural, e o cheirinho a café que inundava o estabelecimento deu àquele frugal pequeno-almoço um certo toque de magia.

Procurei uma mesa que estivesse livre, a um canto viradinho para o tejo, cotovelos apoiados no tampo da mesa, enquanto as mãos apertavam o seu rosto, estava alguém que me era familiar. Dei os bons dias como mandam as regras da boa educação, pedi licença e sentei-me em sua frente, tirou os óculos, e limpou o rosto com gesto de algum enfado, depois de alguns segundos exclamou!.. Olha quem ele é, que fazes por aqui? Afogando as minhas mágoas, respondi, nesta zona Ribeirinha que é o berço desta cidade que tanto admiramos.

Durante alguns segundos que pareciam horas pairou entre nós o silêncio; para quebrar a monotonia ataquei… Há quanto tempo Segismundo que não trocava uma palavra contigo! Até andava preocupado, julgando que estivesses zangado com o teu amigo. Desde quando existem zangas entre irmãos? Deixa-te de conversas da treta fala-me da tua vida, das tuas preocupações sobre este mundo de loucos, que tudo ignora para alcançar os seus objetivos, nem que para tal seja preciso espezinhar tudo o que vá contra os seus desígnios. Meu Irmão, da minha vida pouco há para contar, o que existe são apenas as mazelas dos exageros de uma juventude desregrada, e o aproximar do fim da linha, pois os anos não perdoam; quanto á canalha a que te referes, que dizer!? O povo parece adormecido, anestesiado, e não há forma para o fazer despertar dessa sonolência, esperam que algum milagre aconteça mas o tempo dos milagres já lá vai. Pois é, disse fazendo um gesto vago com as mãos, o imperialismo em vez de educar o povo, embrutece-o, as grandes cadeias de televisão, com seus comentadores, e analistas se encarregam dessa missão.

O século XXI começou com maus ventos, as nuvens anunciam grandes tempestades, a direita fascista já se manifesta descaradamente em vários países do velho continente, as forças ditas da democracia demonstram uma passividade, que até parece que a situação lhes agrada. No tejo algumas pequenas embarcações partem para a faina, emprestando às águas calmas do rio um colorido que embevecia os transeuntes que vagueavam pela ribeira, enquanto pela avenida uns milhares de pessoas com bandeiras vermelhas, e pretas, gritando palavras de ordem se manifestavam contra as políticas do governo, Segismundo retirando os óculos, exclamou! Não passamos disto, eles até já gozam com o pagode; são ordeiros, obedientes, um povo de brandos costumes dirão os comentadores e analistas ao serviço da “Pátria“ com um sorriso de escárnio nos lábios. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, como diria o poeta, encolhi os ombr0s em gesto de concordância, enquanto olhava o relógio como quem diz que está na hora da partida, olhei para o lugar da frente estava vazio, pedi a conta e parto rumo a Santa Apolónia, enquanto caminhava senti passos e uma voz que me dizia faz boa viagem e cuida de ti. Desabafei com um obrigado e segui o meu caminho.

 

MJA Azenha

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Os Cheiros de África

5895980_nwwtL[1]África, berço da Humanidade, Continente dos mil mistérios, onde se sente uma paz interior, mesmo em tempo de guerra, e nos dá a sensação de que os dias não têm fim, o famoso cheiro da sua terra, nos deixa inebriados, como uma magia que nos amarra nas suas teias para toda a vida.
Terra das noites claras de luar, que quase se confunde com a luz do dia, onde o choro das hienas, e os mil sons da sua fauna, nos conduzem ao mundo dos seus mistérios e das suas crenças, crenças transmitidas de geração para geração, pelos feiticeiros das suas tribos. Passei pelo continente africano (Angola, e S. Tomé), num dos períodos mais negros da nossa história recente, a guerra colonial, e confesso que fiquei com uma grande afeição por estes territórios, e pelas suas gentes, assim não admira que fique chocado quando ouço alguns comentários de cariz racista, que não dignifica ninguém, e muito menos quem os faz.
Nos últimos tempos têm-se ouvido com alguma frequência nos média portugueses, com aquele ressentimento imperialista, ou mesmo saudosista, que nos é tão característico, afirmar que a corrupção em Angola é enorme, que os generais e a família dos governantes daquele grande país se apoderaram de todos os seus recursos. Não me surpreende, depois de quinhentos anos de ocupação colonial, do conflito armado levado a cabo pelos movimentos de libertação, e de uma guerra civil sustentada pelas grandes potências dominantes, é normal esta situação, depois da parte de leão para os senhores da guerra, que os restos caíssem nas mãos dos seus aliados. Não sei se existe algum método para medir em termos comparativos os níveis de corrupção, mas não andarei muito longe da verdade se concluir que, se multiplicar a corrupção existente em Portugal, por catorze vezes e meia, chegaria facilmente à conclusão que entre Portugal, e Angola, não haverá grande diferença, pese embora que em termos de recursos naturais, a diferença seja abissal.
Mas o percurso da história segue o seu ritmo, e ao seu julgamento ninguém escapa, os países outrora colonizadores, hoje envergonhadamente, lá vão sendo colonizados, ou então vão vivendo na sua dependência, não quero dizer com isto que seja o caso de Portugal, mas a grande verdade é que cada vez mais o capital das grandes empresas está a ficar nas mãos de angolanos. Quando da libertação do povo Angolano, e a consequente independência daquele território, foi grande a debandada dos colonos brancos, e muitos dos seus descendentes já nascidos em África, hoje quase quatro décadas depois assistimos ao contrário, são os portugueses que fugindo á miséria que nos foi imposta, rumam até Angola na esperança de melhores dias. Assim não surpreende que, quer o Banco de Portugal, quer os órgãos de comunicação, façam eco do aumento das receitas dos emigrantes, omitindo todavia, que o aumento não se deve às comunidades de portugueses há muito espalhadas pelo mundo, e muito menos na manifestação de confiança nos senhores que hoje detêm o poder, mas sim à debandada de jovens que rumam a África para aí construírem as suas vidas, já que essa possibilidade lhes é negada no seu país.
Recentemente, surgiu nas páginas dos jornais, noticiários radiofónicos, e claro nas cadeias de televisão, a notícia de que um grupo de generais Angolanos tinha apresentado queixa á justiça Portuguesa, sobre o jornalista, e opositor ao regime Angolano, Rafael Marques, queixa extensiva á editora Tinta da China, responsável pela edição e publicação do livro (Diamantes de Sangue) obra do referido autor que denuncia atropelos aos direitos Humanos, levados a cabo pelos ditos generais sobre a população local. Durante dezoito meses da minha permanência em território Angolano dezassete foram passados em Saurimo, (Lunda Sul), mas passei algumas vezes pela Lunda Norte, assim como visitei se a memória não me falha, pelo menos duas vezes, o complexo mineiro da Diamang, conheço pois aquela zona, como conheço as suas populações, populações que guardo no meu coração, e que recordo e trato, de os meus irmãos Pretos,_ o que a ser verdade a denuncia feita pelo Rafael Marques, não deixa como é obvio de merecer o meu repudio e indignação. Já quanto ao destino dado á queixa pela Justiça Portuguesa, não me prenuncio, porque nada percebo de direito, e muito menos de direito internacional, o que não invalida de fazer o meu próprio juízo; quem não se lembra das visitas de alguns personagens famosos, que faziam viagens até Angola para darem apoio ao então Amigo Jonas Savimbi, e no regresso a Lisboa, segundo as más-línguas vinham carregados de diamantes e presas de elefante? Ou daqueles que hoje se vergam serviçalmente, quase de joelhos perante a Dr. Isabel dos Santos, e de alguns, ao que se diz Generais, detentores dos poderes económicos Angolanos que funcionam como autenticas multinacionais? _ A verdade é que o comportamento dos nossos governantes é como o vento, sopra sempre para o lado dos seus interesses, e nunca no interesse bilateral, que salvaguarde o interesse de ambos os povos. Angola é muito grande, os seus recursos são enormes, o seu povo é hospitaleiro e gosta dos portugueses, não semeia ódios nem guarda ressentimentos, por isso não tenho dúvidas de que desde que saibam respeitar quem lá está, serão bem-vindos.

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Ano Novo … Vida Velha

 

Na aurora de um novo ano, não se vislumbra um nascer de sol que aqueça os corações portugueses, as nuvens que surgem no horizonte são presságio de que este ano, não só seja pior do que o anterior, como a perca de regalias, e cortes salariais representam um vergonhoso atraso civilizacional, devolvendo-nos à situação de pobreza colectiva há muito banida no continente europeu.
Tempos houve a seguir á última guerra mundial, em que os partidos representavam cada qual a sua matriz ideológica, os lideres desses partidos, verdadeiros estadistas, que acima de tudo defendiam os interesses do seu povo, e do seu país, cumprindo no possível o que prometiam ao eleitorado, nunca se afastando da linha de pensamento que defendiam, excepção feita dos partidos fascistas, que entretanto surgiram. Hoje, salvo honrosas excepções, os partidos são verdadeiras saladas russas, dentro de um partido é vulgar a existência de várias tendências ideológicas, o que retira todo o sentido á palavra partido, (parte, ou grupo de pessoas que toma partido em defesa de uma determinada ideia). Sobre os escombros da guerra, as sociedades livres da europa começaram a sua reconstrução, os sindicatos existentes reorganizaram-se, e onde não existiam começaram a lançar as suas raízes, e aos poucos começava a nascer o modelo social europeu, mais conhecido nos tempos que correm como estado social, modelo este que durante muitas décadas foi o orgulho do Velho Continente.
Hoje quando os países da europa do sul, se vêm sugados pelos interesses dos países mais ricos, os partidos daquilo a que chamam partidos do arco da governação, vendem o país e seu povo, alegando que as dividas são para ser pagas, mas esquecem-se de explicar como, e em que condições devem ser pagas, e fundamentalmente quem as contraiu. Neste mundo de contradições em que impera a falta de vergonha, tratam o povo como uma nuvem de imbecis, a que chamam um povo civilizado e de brandos costumes, conseguindo passar a sua mensagem com o precioso contributo dos seus lacaios, a que pomposamente chamam analistas políticos, e que inundam os principais canais de (informação). No momento em que alinhavo estas linhas que são a voz do meu descontentamento, estamos no final da primeira metade deste mês de Janeiro, muito fértil em alarvidades, produzidas pelos doutos senhores da desgovernação, chegando ao ponto de o próprio “governo”, encomendar ao FMI um estudo em que fossem justificadas as medidas criminosas, que tencionam implementar. Mas para nossa desgraça as alarvidades não ficam por aqui, no momento em que a esquerda devia dar mostras de unidade, fazendo passar a imagem de vitalidade, no momento em que o governo se preparava para iniciar o ataque á ADSE (caixa de segurança social do estado), surge a contestação do maior partido da oposição a duas vozes, uma a favor, outra contra, mas a alarvidade maior vem de um carismático deputado deste partido, de seu nome Lello (na minha aldeia lello é o mesmo que cigano), em artigo publicado no Face book, a chamar a atenção da direcção do partido, para o facto de que os funcionários públicos são a base eleitoral do partido._ Conclusão! Para este senhor não está em causa o fim da ADSE, o grande problema está na possível perca daquele eleitorado, os tachos que o poder facilita, e a colocação dos boys end garls do partido. Enfim são os políticos que temos.
Mas não ficamos por aqui neste pedaço de terra coberto pelo azul do céu, e banhado pelo azul do mar, vêm ao meu pensamento aquela velha história de quando o Imperador César mandou um dos seus homens de confiança com a missão de ver o que passava nos confins da Grande Ibéria; quando ao fim de muito tempo o mensageiro chegou á presença do Imperador e questionado sobre a sua missão respondeu, Gente estranha Meu Senhor, gente muito estranha, que não governa, nem tão pouco ousa deixar-se governar, mas a verdade é que embora não ousem, os seus representantes eleitos lá vão deixando, e colaborando, para que outros nos governem.
Todos os dias há novidades, no passado fim-de-semana, foi a famigerada conferência para a reforma do Estado, organizada pelo Sr. Sectretário De estado Moedas, e pela destinta Senhora, Sofia Galvão (PSD), conferência aberta á sociedade, mas com a condição dos senhores jornalistas presentes não tirarem fotografias, nem registarem imagens televisivas. Estranho conceito de sociedade civil, e de liberdade de informação tem esta gente, a União Nacional não faria melhor. Neste conturbado tempo, nem há tempo para respirar, assim na segunda-feira dia vinte e um, lá vai de viagem até Bruxelas o nosso primeiro-ministro Gaspar, e para espanto de muita gente, quase de joelhos pediu mais tempo para pagar a dívida, eu confesso que já não sei se enlouqueci, mas parece-me que já ouço isto há muito tempo da boca de muita gente, do mais ignorante cidadão, ao mais reputado intelectual, honesto, daqueles que ainda existem na sociedade portuguesa; de uma coisa estou certo, é que não sei em quem acreditar, se no primeiro-ministro Gaspar, ou no seu porta-voz Pedro Passos Coelho.
A conversa já vai longa, mas já agora perdoem-me mais esta alarvidade, de recordar os meus tempos de adolescência, e regressar á leitura dos livros de Cow-Boys, e aos filmes do velho oeste americano, em que grupos de bandoleiros tomavam de assalto as cidades mais isoladas e impunham ali a sua lei, confesso que não sei se foi um sonho, mas muitas vezes acordo com a sensação de ver o meu povo acorrentado, humilhado, arrastado pelas ruas de vilas, cidades, e até aldeias, para que sirva de exemplo á resistência.
O que é feito dos descendentes do velho povo Lusitano? Que com mais de oito séculos de História se foi libertando de muitos invasores, como os Mouros os Castelhanos, Ingleses, e Franceses!.. e agora andam de olhos fixos no céu, na esperança que dele caia uma padeira de Aljubarrota. _ Até quando?
M J A Azenha

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como o tempo voa! temos á porta mais um Natal.

Pai Natal_500x500[1]Parece que foi ontem, que fomos espoliados do primeiro subsídio de Natal, e já outro natal nos bate á porta. Entretanto, um ano se passou, sobre os nossos ombros vergados pela amargura de em pleno século vinte e um, vermos Homens e Mulheres a pedir esmola, e crianças com fome por os seus pais não conseguirem garantir o seu sustento. Culpa desta gente que em vez de governar, deveriam ser governados, em prisões de alta segurança, julgados e condenados por crimes contra a Humanidade.
Confesso que me sinto acanhado por ter que recorrer a este meio para passar esta mensagem da revolta que me vai na alma, sem ter formação académica para o fazer, porque aos doze anos matriculei-me na universidade da vida, mais concretamente numa fábrica de mármores, onde tinha aulas na sua oficina; nesses tempos já distantes, não havia a “Lusófona”, e como tal havia que trabalhar para ajudar no pequeno orçamento familiar, talvez por isso, o desprezo que sinto por estes aldrabões de cátedra, com licenciaturas compradas, não tenha limites.
Mais um Natal no país da miséria, onde1 até para desgraça dos fiéis a Cristo, o mais alto Magistrado da Igreja não compreende a revolta dos desprotegidos, há que fazer sacrifícios e fé em Deus. Sempre fui solidário, e contribui na medida das minhas possibilidades para aliviar o sofrimento dos outros, mas confesso que começo a ficar preocupado, com o “ataque” feito pelas instituições de solidariedade social, à saída das escadas rolantes dos hipermercados, porque seguramente, mais de 70% dos abordados, já necessita de apoio, só não o pedindo por vergonha. Compreendo, e elogio, a boa vontade das pessoas que colaboram nas acções dessas instituições, mas os habituais contribuintes também já se encontram nas ruas da amargura, porque foi sempre assim, nas alturas de crise, a classe média, e média baixa, é que contribuiu, porque os senhores da abastança, quanto muito emprestaram a sua imagem, se é que a têm.
No horizonte político, nada de novo, a luz ao fundo túnel tarda em surgir, direi mesmo, que com esta gente nunca surgirá, porque a sua conduta é o caminho do abismo, falta um rumo, o caminho que nos conduza ao que desejamos para o futuro do país, mas não … o que interessa á governação, são os interesses dos agiotas ao serviço do capital financeiro. __ Mas como estamos em época natalícia, e já depois de recebermos como prenda, o orçamento que consolida, e reforça, a fome e miséria que graça no país, veio com o seu ar de anjinho, o mentiroso que se autodeclara de patriota, com legitimidade para governar, depois de não cumprir uma só das promessas feitas ao eleitorado, anunciar nesta sua aparição televisiva, não sei se entusiasmado com o penteado da jornalista Judite de Sousa!.. Abriu o livro, e começa a desbobinar medidas, que deixaram de rastos a pouca moral que eventualmente exista na cabeça das suas vítimas. Desanimados, cabisbaixos, vergados pela vergonha da mendicidade que lhes é imposta segue um povo que perdeu o orgulho, e esqueceu a sua história; sem trabalho, nem onde o possa arranjar, volta aos tempos da mala de cartão, atravessando a fronteira à procura de uma vida digna, vida essa que lhe é negada na sua própria Patria.
Aproxima-se a passos largos a noite da consoada, no país da austeridade, “para alguns”, na noite considerada como a de o nascimento de Jesus, vão abrindo as cantinas de 1ª 2ªe 3ªclasses, sobre a tutela das chamadas Instituições de solidariedade social, para assistir as pessoas carenciadas, assim ninguém se pode queixar de não comemorar esta quadra. Até na caridade como em tudo na vida, o selo classista está presente, caridade para os envergonhados, e caridade para aqueles que há muito tempo foram obrigados a abdicar da sua dignidade, e estender a mão á caridade, e os outros, que cujo nível de exclusão já ultrapassou há muito a dignidade humana, vão comendo os restos dos restos, e dormindo junto aos contentores do lixo em convivência com as ratazanas, e outro tipos de bicharada.
Natal não é só dar prendas, e contribuir conforme as suas possibilidades, para aqueles que nada têm, também é tempo de escrever cartas ao Pai Natal, com a esperança de ver contemplado algum dos seus desejos. Assim, eu pobre velho que já viu diminuída a sua reforma algumas vezes, (nem já sei quantas) resolvi escrever esta carta ao Pai Natal, para que se possível interceda em meu nome junto do Sr. Ministro das finanças, para que pare com o ataque àqueles a quem já comeram a carne e agora se preparam para comer os ossos. Nesta carta era minha intenção de pedir igualmente ao Messias recém-nascido para que usasse o seu poder, no sentido do Sr. Relvas sair do governo, para que a poluição que afecta o panorama político português, ficasse mais aliviado. Mas quis o destino que no momento em escrevia esta petição, o Sr. Relvas no debate quinzenal na Assembleia da Republica, em resposta às críticas da oposição, num assomo de consciência, resolveu falar verdade, ao dizer que aquele tipo de debate, em nada dignificava a política portuguesa. Até que enfim Sr. Relvas! O senhor conseguiu chegar á conclusão de que políticos da sua estirpe, põem em causa a própria democracia, fazendo aumentar o descrédito da classe política e das instituições democráticas, e falo no Sr. Relvas porque é o (maior) pela negativa, num governo de gente pequena.
Natal tempo de meditação e de paz —– quadra dedicada à Família, da troca de presentes, do convívio entre familiares, alguns dos quais já não se vêm há um ano, outros talvez há mais tempo, convívios onde se fazem planos para o ano que se avizinha, da concretização de alguns sonhos em standby, apesar das dificuldades conjunturais, ainda não se paga imposto por sonhar, pelo menos por agora, a seguir a ver vamos. Haja esperança, haja mais sociedade civil, haja mais oposição àqueles que fazem o contrário de que foram mandatados pelo sufrágio popular, só com luta se consegue inverter o caminho que está a ser seguido. __Quem perde seus bens, perde muito; quem perde um Amigo, perde muito mais; mas quem perde a coragem, perde tudo. ( Miguel de Cervantes ).
BOAS – FESTAS. FELIZ ANO-NOVO
MJA AZENHA

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VALE DE SANTARÉM – EMOÇÃO E MUITAS RECORDAÇÕES NO ENCONTRO-CONVÍVIO DOS ANTIGOS ALUNOS DA ESCOLA PRIMÁRIA ARISTIDES GRAÇA

carview.php?tsp=Decorreu num ambiente de muita emoção o anunciado convívio de antigos alunos da escola primária do Vale, fundada em 1915, graças ao grande amigo das gentes da terra, de seu nome Aristides Graça, que ofereceu os terrenos para a construção do edifício. Cento e vinte foi o número dos participantes no encontro.
Pelas 10 horas começaram a chegar os primeiros antigos alunos às instalações da velha escola. Havia os que, vivendo no Vale, se conheciam bem, mas aos poucos foram surgindo aqueles que há décadas não se viam, o que deu origem a muitas manifestações de alegria pelos reencontros ali conseguidos. Foi altura para as conversas sobre “a escola daqueles tempos”, a recuperação de histórias antigas e as referências aos professores. Foi também o momento para as fotos do reencontro, no espaço em que, em tempos antigos, isso acontecia uma vez por ano, com os professores junto dos alunos. Em seguida foi o regresso às salas de aula, uma para as meninas, no 1º andar, e outra para os rapazes, no rés-do-chão. Muitas décadas depois da última presença ali, ouviam-se afirmações como: “a sala parecia-me tão grande, agora até me parece pequena…”; “olha, o quadro ainda é o mesmo…”; “aqui o professor Costa punha um banco comprido, de madeira, ele chamava cinco ou seis e ficávamos a responder à matéria, e ele de ponteiro na mão…”; “ali era a casa das ratas, onde ficávamos de castigo… aqui pendurávamos as batas, aqui estavam os cabides…”; “aquela coluna ao meio da sala sempre me fez confusão…”; “ali, bem alto, o professor Faria pendurava as atiradeiras, para não andarmos aos pássaros…”; “o Professor Faria entrava, nós já estávamos na sala, levantávamo-nos e dizíamos bom dia senhor professor, ele respondia e ia para a secretária, que era ali, às vezes fumava um cigarro e depois começava a aula”; “um dia caiu um mapa e o professor Faria disse que era preciso um martelo e um prego novo para voltar a pôr o mapa ali…”. Depois, na sala das raparigas: “ali ficava a secretaria da Dona Tomásia”; “aqui a Dona Tomásia projectava um filme, uma vez por ano, que era aquele da história corre, corre, cabacinha…”; “no intervalo umas meninas ficavam aqui, outras iam lá para baixo jogar ao lenço, ao anel, ou saltar à corda e outras coisas…”; “a Dona Tomásia não gostava que os rapazes estivessem a olhar cá para dentro, pelo portão, ralhava com eles…”. Foi ao voltarem à escola que muitos antigos alunos lamentaram o estado em que se encontra o edifício, único, quando se fala em escolas antigas, nitidamente a precisar de uma atenção particular, que permita a sua preservação, pelo papel histórico e sentimental que tem para a população do Vale. Além disso, há certos objectos que ainda se encontram no edifício que deviam ser cuidados e preservados, pelo valor histórico que têm.
Os antigos alunos e seus familiares seguiram depois para o cemitério, onde foi colocada uma coroa de flores. Foi a cerimónia de homenagem aos companheiros e professores falecidos, que terminou com um minuto de silêncio, seguido de uma salva de palmas. Dali os participantes dirigiram-se para a igreja, onde decorreu a missa dominical, também dedicada a recordar antigos alunos e professores que já partiram.
Passava pouco da uma e meia da tarde quando se iniciou o período de almoço, com as palavras de abertura a cargo da equipa de organização, que saudou os antigos alunos e familiares, e manifestou prazer pela grande adesão. Ao longo do almoço, que decorreu num ambiente de grande confraternização, juntando pessoas entre os 50 e tal e os 80 e tal anos, provenientes do Vale e de outras regiões do País, houve lugar a muitas conversas sobre os tempos de criança na velha escola. Os participantes contaram também com a surpresa de uma pequena exposição de fotografias de grupos de alunos com os seus professores, assim como de alguns dos principais livros de leitura e brinquedos, como uma boneca de trapos, uma corda de saltar, um carrinho de madeira para bonecas e alguns bordados, isto por parte das raparigas, e uma bola de trapos, uma fisga, uma ratoeira, alguns berlindes, um pião e outros, por parte dos rapazes. Sob um mapa de Portugal (onde era obrigatório identificar, naqueles tempos, os rios e seus afluentes, os caminhos-de-ferro e as linhas e ramais, as baías, os cabos, as capitais de distrito, as principais produções e um sem-número de outros pormenores) podia ver-se um exemplar do diploma da 4ª classe e um prémio obtido por um aluno na 4ª classe, atribuído por um dos ministros da Educação de então. Foi com esse enquadramento que muitos participantes continuaram as suas conversas ao longo da tarde, alguns esforçando-se por identificar quem viam nas fotos expostas. Outros levaram as suas próprias fotos, partilhando-as com os colegas. Entretanto, na sala principal, a certa altura houve quem conseguisse puxar pela memória, levando muitas meninas de então a cantarem algumas das cantigas que se ouviam no seu recreio, como “o burro do meio está preso à estaca…” “as pombinhas da catrina” e outras, que prometeram apresentar mais bem memorizadas em futuro encontro.
Momento muito significativo durante o almoço foi o que se dedicou a homenagear os três mais notáveis professores primários que passaram pelo Vale: a professora Tomásia Rodrigues e os professores Aurélio Faria e Fernando Costa. As intervenções estiveram a cargo dos antigos alunos Regina Pinto da Rocha, José Tomé e Manuel Azenha, respectivamente. Recorrendo às suas memórias, a que juntaram a leitura pessoal sobre o sentimento dos seus antigos colegas relativamente a cada um dos homenageados, os oradores trouxeram à sala as palavras certas, que receberam o acolhimento e o aplauso de todos, num ambiente de muita emoção.
Foi depois das seis da tarde que terminou o convívio. Antes disso, muitos foram os que disseram: “temos de fazer isto todos os anos…”, ou “há muitos que no próximo ano também querem vir…”. Na realidade, havia um sentimento geral de agrado por tudo o que se tinha vivido durante o encontro, onde o serviço do CAR-Fonte Boa também correspondeu às expectativas. À equipa de organização fica entregue a responsabilidade de preparar o que for necessário para manter esta intenção para o próximo ano, porém já com uma composição mais alargada, para acolher, numa iniciativa única, todos aqueles que é preciso enquadrar num encontro-convívio de antigos alunos da Escola Primária Aristides Graça.
Em futuras publicações aqui no blogue, sobre este encontro-convívio, serão divulgados os textos das homenagens aos professores, bem como fotos dos antigos alunos que foram expostas e também algumas das que foram feitas durante o convívio.carview.php?tsp=carview.php?tsp=

9 de Outubro de 2012

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Ventos de Mudança

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Até mesmo as noites totalmente sem estrelas, podem anunciar a aurora de uma grande realização … profetizou Martin Luther King. Vem a propósito esta profecia, do Humanista que deu a vida pelo fim da descriminação racial, o que infelizmente, ainda que de forma encapotada anda por aí. È essa aurora de esperança que serve de mote para trazer aqui, essa grande realização que foi este 15 de Setembro, em Portugal, e noutros países da europa.
Se na imensa escuridão que mergulharam o país, apenas se viam rostos macambúzios sem esperança, descrentes, aterrorizados por tudo o que ouviam da boca dos governantes! Quem os visse na noite de sábado, diria que se deu uma grande transformação no país, ou algum milagre teria acontecido. Quem assistiu à explosão popular, que inundou as avenidas e praças de norte a sul de Portugal, centenas e centenas de milhar de pessoas, famílias inteiras acompanhadas dos seus filhos, jovens, adolescentes, e até muitas crianças pequenas, ouvindo os seus pais gritando palavras de ordem em que eram exigidas condições de vida, para que pudessem criar e educar os seus filhos. Afinal havia um Povo! Para quem como eu o pôs muitas vezes em causa!.. Aqui está o resposta … estavam ali como brotados da terra, os legítimos filhos da Pátria de Camões e Pessoa, sem guias nem líderes, não pedindo, mas exigindo, um país qucarview.php?tsp=e é seu.
E agora? Agora é preciso que não se fique sentado esperando que a fruta caia, pois o poder vai reagir a este tremendo soco no estomago, no dia seguinte lá estarão as televisões, as rádios, e os jornais tentando convencer o pagode, que a legitimidade do governo continuar a governar se mantem, pois as manifestações não passaram de um sério aviso manifestando o descontentamento dos caminhos que estão a ser seguidos. Com a estratégia montada, dois dias depois, rebenta o arrufo”táctico”entre os parceiros da coligação, silêncios e desabafos, próprios das comadres que fingem estar zangadas, comunicados e mais comunicados, e finalmente as reuniões da reconciliação; entre beijos e abraços dizendo que está tudo bem, lá vão os chefes dar a boa nova ao chefe supremo, e participar na reunião do Conselho de Estado. Como é meu hábito, logo pele manhã, muitas vezes antes de tomar o pequeno-almoço, passo pelas redes sociais procurando novidades, não me surpreendendo portanto a notícia de que alguns milhares de cidadãos já tivessem confirmado a sua presença na concentração defronte ao Palácio de Belém no dia do Conselho de Estado.
Sexta-feira dia 21, dia da reunião do Conselho, pouco passava das dezasseis horas, já os jardins em frente ao Palácio se mostravam diferentes, com a presença de muitas pessoas, com as suas merendas, dando a entender que vinham para ficar o tempo que fosse necessário, pois neste tipo de luta nunca se sabe quando acaba, ou como acaba. A hora da concentração estava marcada para as 18 horas, mas a essa hora já se encontravam uns milhares de manifestantes que ordeiramente com palavras de ordem iam manifestando o seu descontentamento, contra um governo que esmaga os pobres em proveito dos ricos, que com arrogância proclama a legitimidade com que governa, ignorando que no dia seguinte à sua eleição, a perdeu por incumprimento do programa que apresentou ao eleitorado. Finda a reunião, apupados pelo povo, foram saindo os senhores conselheiros, cada um a bordo da sua bomba topo de gama, conduzida pelo seu motorista, tudo pago por nós que trabalhamos, ou já trabalhámos, e que mesmo com ordenados de miséria, segundo eles, andamos a viver acima das possibilidades, mergulhando o país na bancarrota. — Basta de tanta humilhação, somos pessoas, não somos objéctos. Depois de lido um comunicado para a comunicação social, ali estava tudo o que era esperado, recomendações mais recomendações, e a promessa do senhor 1º ministro de que em sede de concertação social, ajustar as medidas já tomadas, de maneira de aliviar a carga sobre os contribuintes. Já lhes chamaram brigada do reumático, outros preferem chamar-lhes de velhos do restelo, eu apenas sei que da reunião saiu um pouco mais do mesmo, ou seja a receita a que já estamos habituados.
Perante este cenário, só nos resta uma alternativa, Lutar, não dar tréguas a esta gente, sobre pena de pagar com juros o ter adormecido. Assim já no próximo dia 29 a C. G. T. P. tem convocada uma manifestação de protesto para Lisboa, todas as organizações ou movimentos de cidadania devem aderir a esta manifestação, PORQUE TODOS SOMOS POUCOS, para fazer frente á imoralidade, —- quem roubou que pague a crise.
A LUTA CONTINUA
M. J. A. Azenha

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Vale de Santarem

VALE DE SANTARÉM – CONVÍVIO DE ANTIGOS ALUNOS DA ESCOLA PRIMÁRIA ARISTIDES GRAÇA VAI SER NO DIA 7 DE OUTUBRO
Os organizadores do convívio do ano passado, dirigido aos que nasceram no Vale de Santarém em 1946, e iniciaram a 1ª classe em 1953, acolheram as sugestões para que no ano seguinte o convívio se estendesse a outros interessados, razão pela qual, como já divulgado, iremos ter neste encontro raparigas e rapazes de outras idades. De facto, espera-se a presença de antigos alunos que frequentaram a histórica escola entre 1950 e 1960. Porém, é certo, já hoje, que teremos a presença de alunos ainda mais antigos.
O convívio constará de uma visita à Escola Primária Aristides Graça, por ter sido o primeiro espaço a marcar o nosso viver comum, no Vale de Santarém. Este acto terá início às 10H30.
Seguir-se-á a romagem ao cemitério para homenagem aos falecidos, participando, quem assim desejar, na missa anunciada com essa intenção, com início às 12H00.
O almoço será a partir das 13h30, nas instalações do CAR-Fonte Boa.
Ementa:
• Entradas diversas
• Sopa camponesa
• Pato no forno, com arroz de miúdos e batata frita
• Fruta e Doce
• Café
• Digestivo
• Vinho Branco e Tinto Bridão
Preço – 12,50 euros.
Haverá algumas surpresas.
Inscrições até ao dia 5 de Outubro. Inscrições posteriores são aceites, mas espera-se que sejam uma minoria, a fim de não trazer dificuldades à programação do almoço.
As inscrições podem ser feitas por correio electrónico para:
Manuel Azenha – azenha.mja@gmail.com
Manuel João Sá – manuelpsa@gmail.com
Pelo telefone, utilizar os números:
Manuel Azenha – 961 802 306 – 243 760 102
Manuel João Sá – 962 199 865 – 914 107 011 – 265 083 492
Manuela Martins – 962 824 118
Maria Adelaide Cunha – 243 769 370
Vitorina Rosa – 243 769 427
Solicitamos que haja a maior divulgação possível, para uma ampla participação.
Aguardamos as inscrições.
Obrigado
Pela Organização
Manuel Júlio Azenha
Manuel João Sá

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A selva

A Selva
Céu azul e cristalino, Sol brilhante, florestas verdes, campos dourados, na montanha, um, ou outro lobo, espreita a sua presa, sobre o azul do céu pequenas nuvens negras, são os abutres, — nas noites de luar, nas planícies, ouvem-se gritos que parecem crianças a chorar, são as hienas que se preparam para atacar tudo o que tenha vida.
Poder-se- ia dizer que estávamos em Africa, mas não. Todo este cenário se passa em Portugal, ou se preferirem em toda a Península Ibérica. Estamos numa semana em que as aves de rapina se preparam para mais uma visita de cortesia, para verem com os seus próprios olhos o que resta, dos despojos deixados pelas hienas, e pelos abutres. Depois de vendidos os tarecos de pouco valor, começa o ataque às joias da coroa. Enquanto a elite de capatazes às suas ordens, vão apregoando que tudo vai bem no reino de sua majestade, que o deficite será cumprindo, contrariando assim a voz generalizada dos especialistas na matéria, que afirmam precisamente o contrário. Até que aparece um tal de Sr. Borges, que ninguém sabe que papel desempenha no círculo governamental, mais, ninguém sabe se é consultor publico, ou administrador privado, a anunciar medidas que só ao governo competem.
Depois da participação dos Chineses no capital da EDP, empresa que é crucial para o desenvolvimento da economia do país, começou o ataque á Transportadora Aérea Nacional, e à ANA, empresa que gere os aeroportos. Mas para grande surpresa, ou talvez não, do pagode, eis que a gula privatizam-te se vira como gato a bofe, para a Rádio e Televisão de Portugal. Se bem me lembro, algo de parecido se passou com a imprensa escrita, dos jornais intervencionados pelo estado já nada resta, foram adquiridos por grupos económicos que depois de fundir uns, e encerrar outros, acabaram com a pluralidade existente até então, passando apenas e só, a noticiar os interesses dos seus donos, e a constante lavagem ao cérebro da população menos prevenida. Em todos os países ditos desenvolvidos, quer na europa, e em qualquer parte, e até no chamado terceiro mundo, têm o seu sistema público de rádio e televisão, — pese embora a tendência que está enraizada em nós, para inventar, não deixa de ser preocupantes os motivos que levam esta gente a ter tanta preça. Para quem pensa Portugal, e já não alinha com as jogadas destes parolos, a leitura é fácil, senão vejam, — foi entregue ao senhor ministro da presidência, que por acaso tem andado desaparecido, pelas razões que todos conhecem, a escandaleira que foi a burla que está relacionada com a sua formação universitária, e a tarefa de privatizar a R. T. P. o que só por si, justifica em parte o seu silêncio. Mas o perigo não tem nada a ver com o trabalho no arame, destes péssimos aprendizes da arte circense, e que envergonham os génios do maior espetáculo do mundo. A intenção dos capatazes ao serviço do capital financeiro visa ao privatizar o serviço público de Rádio e Televisão, silenciar, ou manipular, a oposição ao poder instalado, o que por outras palavras, significaria o regresso à lei da rolha, ou ao fascismo dos tempos modernos.
Para além dos perigos anteriormente citados, há ainda o perigo de caírem de mão beijada em mãos estranhas, que podem até ser consórcios internacionais, todo o património destas empresas, que representa mais de meio século de história de Portugal. Pergunto? Será que esta gente terá consciência do crime de lesa Pátria que estão preparados para cometer? E o povo português? Continuará a comportar-se como um rebanho de ovelhas, que se deixa conduzir pelos maiorais que conduziram o país à situação em que se encontra — nunca como hoje a necessidade de barrar o caminho ao inimigo foi tanta, chegou a hora de pôr de lado as clubites partidárias, e todos juntos, salvar o que resta do 25 de Abril, e de Portugal.
M. J. Azenha

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Embora seja ficção. Se pudesse mudar, Eu mudava

Para a geração a que pertenço, que nasceu e cresceu em ditadura, teve que fazer uma guerra vergonhosa e injusta, como são todas as guerras, constituir família, educar os filhos, com a angústia de não saber qual o seu futuro. Viver a esperança de uma revolução, assistindo minuto a minuto á sua destruição, chegando ao momento que atravessamos, que intitulo de ditadura científica, onde as nossas vidas são controladas pelas polícias chamadas secretas, pelo banco onde temos conta, e até pelos cartões de desconto das grandes superfícies comerciais, e as nossas mentes formatadas pelas televisões ao serviço das classes dominantes, há muito que se deixou de sonhar, pois os sonhos que outrora nos conduziam ao erotismo, e à alegria de viver, deixaram de existir.
Certa noite, nessas intermináveis noites em que os pesadelos nos conduzem ao mundo angustiante de vivências passadas, ao acordar em sobressalto, dei comigo a visionar, sobre o que terá sido a evolução da raça humana. Recordando o que li sobre os estudos publicados versando esta matéria, fui obrigado a concluir que a espécie a que pertenço oculta em si própria mantos nublosos que em nada abonam a favor da dignidade de que se autoproclama. A evolução da espécie que primou sempre pela humilhação do seu semelhante, como nos tempos do esclavagismo, em que se compravam, e vendiam, Homens a outros Homens. Assim no silêncio da noite, consultando a luz do teto do meu quarto, qual lâmpada de Aladino, comecei a percorrer os caminhos da carview.php?tsp=Humanidade.
Tentando recordar alguns, dos poucos conhecimentos que tenho da raça Humana e da sua evolução, não me foi difícil chegar à conclusão que ao longo de milénios o homem foi sempre o seu maior predador. Adormeci com este pensamento, de novo caí no mundo da ficção, questionei a razão por que entre tantos animais os destinos do mundo haviam de ser confiados ao homem, interroguei-me como poderia ser diferente a relação entre as espécies na face da terra dominada por outra espécie de animal, se continuaria a espécie dominante, munida de armas, matando por prazer de matar, dizendo que era por desporto, ou ainda, se faria guerra a outros povos, pelo simples facto de optarem por outro modelo de gestão das suas vidas. Nesta longa caminhada pelo mundo do faz de conta, procurei afincadamente um outro animal que nos pudesse governar, fiquei-me pelo Asno (Equus africanus asinus) simpático animal originário da Abissínia, e vulgarmente conhecido entre nós, por burro.carview.php?tsp=
Quem pudesse ler o meu pensamento, diria que aquilo não passava de um absurdo, mas no meu subconsciente, nada me movia contra aquela ideia. Assim, começaram a desfilar imagens que em comparação com o mundo real, quase me davam a certeza, que o mundo governado pelo Asno, seria um mundo bastante melhor. Não ignorei a possibilidade, quase certeza, que muitos sábios humanos me acusariam de loucura total, nem tão pouco outro tipo de injúrias me demoviam desta certeza, pois embora em ficção, ela assentava em bases que ao longo do tempo a vida me dera como reais. Se recuarmos no tempo, (dois milénios), constatamos que Maria e José escolheram para nascimento de Jesus (filho de Deus), uma modesta manjedoura, e que foi uma vaquinha e um burro que aqueceram com o seu bafo o Messias recém-nascido. Outros, a comunidade intelectual, diriam que só um louco poderia de facto defender mesmo em ficção, tamanho disparate, a esses eu responderei com o maior à-vontade, bastaria que fossem dadas aos asnos as mesmas oportunidades que são dadas a outras criaturas e assim ficaríamos com mais burros doutores, fazendo concorrência aos doutores burros. Não me venham dizer que isso era impossível, pois bastava que directores de algumas Universidades, analisassem o currículo dos asnos que se candidatassem, e estava resolvido o problema, pois a experiência de burro oriundo da Abissínia, será porventura mais credível, que as de outros burros procedentes de outros locais.
Não direi que nessa noite, estava fértil a minha imaginação, mas o facto é que mal adormecia, começava a divagar sobre este tema, imaginei o que seria o parque do palácio do governo sem automóveis estacionados, com os ministros a deslocarem-se a pé rumo aos seus gabinetes. Se havia policias! Não os vi, nem tão pouco aglomerado de populares reivindicando que fossem cumpridos os seus legítimos direitos, quem por ali passasse, e não conhecesse o local, não diria que ali residia o Governo da Nação. Era ficção não duvido, mas o silêncio era sepulcral, no mundo do faz de conta, por respeito com as outras espécies nenhum burro zurrava, nas arvores ouvia-se o chilrear dos passarinhos, os cães deitados à sombra dormiam tranquilamente. Em diálogo com os meus lençóis, equacionei a possibilidade de se instalar uma crise, qual seria a composição de uma tróica, caso fosse necessária ajuda.
Mas na viagem pelo faz de conta, esta tróica era diferente, os três membros puxavam no mesmo sentido segurando uma corda, sobre o lombo de um deles, transportavam uma velhinha, numa manifestação de solidariedade pura, pois ali não carview.php?tsp=havia interesses de qualquer espécie, apenas solidariedade, esta é a regra de ouro dos Equus Africanus asinus. Não sei qual o motivo que nesta estreloucada noite, levou o meu cérebro a viajar pelo mundo do imaginário, mas a verdade é que pela manhã ao acordar, sentia como que a sensação de alívio, de me libertar desta gente que desgoverna esta nesga de terra em que um dia nasci, e não consigo deixar de amar.
Como conclusão, e desta vez bem acordado, o meu pensamento foi para o princípio do mundo, para uns, formado após o big Bang, para outros, por vontade Deus, segundo as escrituras, Deus criou o homem à sua Imagem e Semelhança, deveria ser um dia de pouca inspiração do nosso criador, mas se todos nós temos maus dias, não vejo por que razão Deus não os possa ter. Esta crise, não é económica como querem fazer crer, mas uma crise de valores da espécie humana. Enfim é o mundo que temos, resta-nos desejar Glória a Deus nas Alturas, e na Terra, Paz ao Burros de Boa Vontade.

M. J. A. Azenha

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Recordando João Nogueira (o poeta João da Aldeia)

Na data em que se comemora o décimo sétimo aniversário da elevação do Vale de Santarém à categoria de Vila, queria deixar aqui a minha modesta colaboração, transcrevendo uma pequena peça, descrita pelo Autor como (ENRE-ACTO EM VERSO).
Esta peça foi representada no Vale de Santarém, numa festa infantil, com enorme êxito, no dia 15 de Agosto de 1937, (mil novecentos e trinta e sete). Segue-se a descrição do texto rigorosamente, como o publicado pelo Autor.
«Lavadeiras
Do nosso rio»

Composição e Impressão
Tipografia Treze – Telefone 26
Cartaxo

«Lavadeiras do Nosso Rio»
(Entre –Acto e Verso)

A cena representa o «rio dos loureiros».
A acção passa-se é claro, no Vale de Santarém.
(ACTUALIDADE)
PERSONAGENS
LENA … … … … lavadeira não profissional
JOANINHA … … idem, idem
JOSÉ FERREIRA … … … o próprio—cantador de fados
CENA 1ª
Joaninha está ajoelhada ao fundo, junto ao muro, e de lado para a plateia. Bate numa pedra a ultima peça de roupa e coloca-a por fim no seu alguidar. Levanta-se, põe o alguidar à cabeça e prepara-se para sair, mas neste momento entra Lena pela direita, também com um alguidar de roupa à cabeça e, dirige-lhe a fala:
LENA
Boas tardes Joaninha
JOANINHA
Adeus, Adeus Lenazinha!… Tu também foste lavar?
LENA
Fui a roupa ensaboar;
Não tinha lavado um fio.
JOANINHA
Vem bela a água do rio.
Com água assim só dá gosto.

LENA
Não vem melhor, eu aposto,
Do que ali onde eu lavei –
No «rio da quinta».

JOANINHA

Eu sei …
Mas gosto mais de vir aqui,
Pela sombra dos loureiros
E dos copados feixeiros,
Que nos livram deste sol;
E toda a tarde eu ouvi
As canções dum rouxinol. Ai que linda Primavera!…
Pelos troncos sobe a hera…
É lindo este bocadinho!…
LENA
O Vale é tão bonitinho!…
JOANINHA
É um mimo de frescura,
Alcatifa de verdura …
Como Garrett o cantou.
LENA
E quem viu e não gostou
Deste nosso lindo Vale?
O «rio da Quinta», afinal,

Teve sempre os seus encantos
Teve atractivos tantos,
Que poetas inspirou.
JOANINHA
Com franqueza, gosto mais
Deste rio para lavar ;
Encontro- lhe encantos tais,
Que vêm a alma embalar.
LENA
É lindo, não há que ver.
Mas tenho ouvido dizer,
E, muitas coisas contar
Do «rio da Quinta». E então,
Noutros tempos, que lá vão,
E nas noites de luar,
Guitarras ali gemiam;
Tocador`s no muro do rio,
Cantavam ao desafio,
Os fados que mais sentiam. JOANINHA
E pouco sabemos nós;
Mas ouvi aos meus avós
Que no «rio dos loureiros»
Houve belas guitarradas,
Trovadores, e dos primeiros …
Violas bem afinadas.
Serenatas d´alegria …
Já quási manhã passavam
Moças, que também cantavam,
Indo p´ra o campo mondar.
Lá vibrava a cotovia,
Vinh´a aurora a despontar.
LENA
Era bonito a valer!
Mas a «Quinta» — estás a ver!…
Um ninho de rouxinóis!
Sobre as rosas floridas,
Multicolores e garridas,
Nos choupos, nos girassóis,
Cantam, cantam, noite e dia.
JOANINHA
Pois eu acho mais poesia
Ao meu «rio dos loureiros»,
Hera, freixo, flor´s, salgueiros,
Tudo lindo e tão verdinho!…
LENA
Pintas isso a boa tinta!…
Mas ouvi no «rio da Quinta»
Cantar um certo fadinho
Que achei deveras mimoso.
JOANINHA
Um velhote carunchoso,
Que não sabe ler talvez,
Foi quem esses versos fez …
(desdenhosa)
Há – de ser cousa asseada!…
LENA
Pois olha não digas nada
Antes de serem cantados
P´lo rapazito dos fados.
Eu vou à porta chamar…
Anda ali sempre a brincar…
JOANINHA
(com certo enfado e desdém)
O´Lena, isso é brincadeira!?…
LENA
Não, não. Não é, podes crer.
Eu chamo-o e tu vais ver
(chamando-o)
Anda cá ó Zé – Ferreira.
JOANINHA
(enquanto Lena vai á porta)
Tal autor.
Tal cantor.
(Aparte vendo entrar Zé – Ferreira)
Dos diabos é o trinta,
Este fadista afamado.
LENA
Ó Zé cantas o teu fado?
JOSÈ FERREIRA
Qual? O fadinho Quinta?
LENA
Sim, esse mesmo!…
JOANINHA
Ai, ai!…
JOSÉ FERREIRA
Se dão licença lá vai …
(canta)
1
Oh! Lindos chorões da Quinta
Que dais sombra às lavadeiras,
Aqui não há quem não sinta
Evocações prazenteiras.
2
As mocinhas a lavar
Batem na pedra, cantando;
Andam perfumes no ar
Que as rosas vão evolando.
3
Que dulcíssimo sentir,
Que segredos a lembrar,
Ouvindo as moças a rir
E os rouxinóis a cantar.
4
Oh! Lavadeiras formosas!
Oh! Belas moças gentis
Que lembrais vermelhas rosas
Nas manhãs primaveris.
5
O grande escritor Rebelo
Noutro tempo, que passou,
Ao ver o quadro tão belo
Aqui mesmo se inspirou.
6
Nesta Quinta de verdura,
Neste seu ninho de amor,
Deu-nos rica lit´ratura
Deu-nos obras de valor.
7
O seu estilo brilhante
De rara fulguração,
Primoroso e cintilante,
Bem nos fala ao coração.
8
Lavadeiras que lavais
Na água doce e branquinha,
Nos suspiros que vós dais
Está toda a esp´rança minha
9
Descalcinhas, dentro de água,
Com graça a roupa lavando,
Se me não quereis, minha mágua
Inda mais vai aumentando.
10
Quem não viu no Vale fecundo,
em Abril os alvor´s seus…
Não sabe que é lindo o mundo,
Nem sabe que existe Deus!…

(desce o pano)

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