Calar, aceitar o que nos impõem arbitrariamente, mantendo-nos em silêncio, é pactuar com aqueles que ofendem a nossa dignidade e a nossa honra. Nunca foi esse o meu lema, mas a falta de saúde, e a passividade de grande parte do povo português tem-me feito pensar se vale a pena o desgaste, que faz roçar as fronteiras de uma depressão.
Num daqueles dias em que nos apetece viajar sem destino, optei pelo contrário, tomei o comboio, e rumo a Lisboa (Santa Apolónia). Chegado ao destino, amparado pela minha bengala sigo junto ao tejo caminhando, deliciando-me com a beleza do Rio, inalando os perfumes da Cidade Alfacinha, quando esquecendo as dores de uma perna, dei por mim na estação do Cais do Sodré. A espera dos táxis junto á estação, bem como o acelerar constante dos autocarros da carris, misturavam o co2 dos seus escapes com o bem agradável perfume do café, e dos bolos das pastelarias da zona, bem ao fundo o tejo, servia de senário á paisagem do emaranhado do casario da minha bela cidade. Entrei numa pastelaria, pedi um bolo e um sumo de laranja natural, e o cheirinho a café que inundava o estabelecimento deu àquele frugal pequeno-almoço um certo toque de magia.
Procurei uma mesa que estivesse livre, a um canto viradinho para o tejo, cotovelos apoiados no tampo da mesa, enquanto as mãos apertavam o seu rosto, estava alguém que me era familiar. Dei os bons dias como mandam as regras da boa educação, pedi licença e sentei-me em sua frente, tirou os óculos, e limpou o rosto com gesto de algum enfado, depois de alguns segundos exclamou!.. Olha quem ele é, que fazes por aqui? Afogando as minhas mágoas, respondi, nesta zona Ribeirinha que é o berço desta cidade que tanto admiramos.
Durante alguns segundos que pareciam horas pairou entre nós o silêncio; para quebrar a monotonia ataquei… Há quanto tempo Segismundo que não trocava uma palavra contigo! Até andava preocupado, julgando que estivesses zangado com o teu amigo. Desde quando existem zangas entre irmãos? Deixa-te de conversas da treta fala-me da tua vida, das tuas preocupações sobre este mundo de loucos, que tudo ignora para alcançar os seus objetivos, nem que para tal seja preciso espezinhar tudo o que vá contra os seus desígnios. Meu Irmão, da minha vida pouco há para contar, o que existe são apenas as mazelas dos exageros de uma juventude desregrada, e o aproximar do fim da linha, pois os anos não perdoam; quanto á canalha a que te referes, que dizer!? O povo parece adormecido, anestesiado, e não há forma para o fazer despertar dessa sonolência, esperam que algum milagre aconteça mas o tempo dos milagres já lá vai. Pois é, disse fazendo um gesto vago com as mãos, o imperialismo em vez de educar o povo, embrutece-o, as grandes cadeias de televisão, com seus comentadores, e analistas se encarregam dessa missão.
O século XXI começou com maus ventos, as nuvens anunciam grandes tempestades, a direita fascista já se manifesta descaradamente em vários países do velho continente, as forças ditas da democracia demonstram uma passividade, que até parece que a situação lhes agrada. No tejo algumas pequenas embarcações partem para a faina, emprestando às águas calmas do rio um colorido que embevecia os transeuntes que vagueavam pela ribeira, enquanto pela avenida uns milhares de pessoas com bandeiras vermelhas, e pretas, gritando palavras de ordem se manifestavam contra as políticas do governo, Segismundo retirando os óculos, exclamou! Não passamos disto, eles até já gozam com o pagode; são ordeiros, obedientes, um povo de brandos costumes dirão os comentadores e analistas ao serviço da “Pátria“ com um sorriso de escárnio nos lábios. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, como diria o poeta, encolhi os ombr0s em gesto de concordância, enquanto olhava o relógio como quem diz que está na hora da partida, olhei para o lugar da frente estava vazio, pedi a conta e parto rumo a Santa Apolónia, enquanto caminhava senti passos e uma voz que me dizia faz boa viagem e cuida de ti. Desabafei com um obrigado e segui o meu caminho.
MJA Azenha

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